Depois de 90 anos, a população de Bauru tem agora a chance de conhecer a carta de interdito (conhecido por excomunhão) que a cidade recebeu da Igreja Católica em 1913. O documento proibiu a celebração de missas e outras atividades religiosas no município porque a prefeitura, sem autorização da Igreja, demoliu a primeira capela da cidade para ampliar a rua Batista de Carvalho.
O interdito, assim como folhetos e cartas de apoio e repúdio ao ato, está exposto na mostra comemorativa aos 40 anos da criação da Diocese de Bauru. A mostra estará aberta até amanhã e conta ainda com diversos documentos, peças e objetos que fazem parte da história da comunidade católica e da própria cidade desde o final do século 19.
A exposição foi organizada pela Diocese de Bauru em parceria com o Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica de Bauru e Região “Gabriel Ruiz Pellegrina” e os professores do curso de história da Universidade do Sagrado Coração (USC). De acordo com a professora Terezinha Santarosa Zanlochi, coordenadora da exposição, a proposta é recontar a história da igreja no município desde a construção da capela do Divino Espírito Santo, em 1875, onde era a então sede do município (próximo a Agudos atualmente), até a fundação da Diocese, em 1964.
Cerca de 20 anos depois, em 1896, foi construída a primeira capela em Bauru, onde hoje é a Praça Rui Barbosa. Foi esta igreja o motivo do interdito anos mais tarde, em 1913. Mesmo sem a autorização da Diocese de Botucatu, à qual Bauru pertencia, a prefeitura demoliu a igreja como parte do projeto de modernização da cidade, abrindo a rua Batista de Carvalho para fazer a ligação entre a Estação Ferroviária e o Cemitério da Saudade. “A demolição foi à revelia da Igreja”, lembra a professora.
A cópia do documento de interdito mostra o resultado da briga entre Igreja e prefeitura. Nele, a Igreja Católica proibiu em Bauru a celebração de missas, dispensou a Igreja das obrigações com os fiéis e determinou que os padres escrevessem para outras cidades oferecendo seus trabalhos pastorais. “Foi o bispo de Botucatu na época, dom Lúcio Antônio de Souza, quem enviou o interdito. Ele se sentiu ultrajado por não ter sido respeitado quando proibiu a demolição”, diz Zanlochi.
Estão expostos também folhetos e recortes de publicações nos quais a população católica conclamava sua união na tentativa de impedir a demolição ou dava apoio à modernização do Centro e conseqüente construção da nova igreja. A Igreja Católica somente autorizou a volta das celebrações e atividades no município dois anos depois, quando o prefeito Figueira de Mello se comprometeu a pagar 15 contos de Réis como indenização.
Briga política
O padre Luís Antônio Sé, páraco da Catedral do Divino Espírito Santo, ressalta que a demolição da capela ocorreu por interesses políticos da época. O ato, diz, foi considerado uma violação da Igreja justamente por não ter o apoio do Bispado.
O interdito hoje faz parte da história da Igreja Católica na cidade e por isso foi colocado em exposição, ressalta o padre. “Foi uma briga política na época e algumas pessoas até vêem isso como tabu, mas nosso objetivo é recordar a história, até mesmo através de fatos pitorescos como esse”, diz.
De acordo com o padre Luís Antônio, a história das paróquias se confunde com a história do desenvolvimento e crescimento da cidade. “As igrejas foram construídas e as comunidades se formavam ao redor delas. A exposição mostra como os primeiros bispos passaram a ter influência na cidade e também o cotidiano e as festas”, afirma.
Em ordem cronológica, a exposição apresenta os fatos no século 20 até o processo de criação da Diocese de Bauru. “Há documentos das doações do patrimônio, donativos de fiéis e da prefeitura para a construção do prédio e a instalação da diocese, pois foi um processo que durou anos”, declara a professora Zanlochi.
O auxiliar de vendas Rafael Abreu Carvalho, que visitou a exposição ontem, comenta que achou os documentos e as peças muito interessantes. “É parte da história de Bauru bem documentada pela Igreja. O Interdito parece que foi bem rígido naquela época. E a gente pode ver como foi a luta para a construção da Igreja, a batalha política da época. É muito interessante que isso esteja exposto agora”, diz.
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Programação
Também em comemoração ao aniversário de 40 anos da Diocese de Bauru, será realizada hoje, a partir das 20h30, a vigília de Pentecostes. Amanhã, às 16h, haverá missa solene com a participação de representantes das 14 cidades que compõem a Diocese.
Além disso, a programação festiva inclui, ainda, uma quermesse que será promovida hoje e amanhã, sempre a partir das 19h. (Ronaldo Schiavone)