Há muitos anos comemoramos em Bauru o Dia de Portugal. Neste 10 de junho, não poderíamos deixar de seguir esse exemplo de civismo e amor à Pátria que nos viu nascer, repartindo com algumas centenas de portugueses, legítimos, ainda existentes em nossa cidade, luso-brasileiros e convidados, as comemorações que hoje acontecerão e que ocorrerão, também, nos quatro cantos do mundo. Afinal, são milhões de lusitanos esparramados pelos cinco continentes a lembrarem-se com saudade do torrão natal, ao tempo em que rememoram seus heróis e os seus feitos épicos. Portugal tem uma história grandiosa de batalhas, cheia de personagens gloriosos a enriquecer as suas páginas, com as famosas viagens empreendidas pelas caravelas, sempre marcadas pela cruz de malta a assinalar que os portugueses foram vassalos do cristianismo.
E foi justamente numa dessas empreitadas marítimas que Camões, acusado de extorsão, foi enviado para a Índia e, após dura peregrinação pelas colônias ultramarinas portuguesas, a imagem de Camões que os românticos haveriam de perpetuar como a do poeta miserável, exilado e saudoso de sua terra, sofrendo humilhações no cotidiano e escrevendo os mais sublimes versos como vingança. A conhecida história de seu relacionamento com Dinamene, companheira chinesa do poeta, reforça essa imagem. Navegando pelo rio Mecon, na Indochina, o casal sofreria um naufrágio. Diz a lenda que Camões teria conseguido salvar a si e aos manuscritos dos Lusíadas, enquanto a infeliz Dinamene morria afogada. Camões dedicaria à amada morta vários de seus poemas líricos, procurando elevá-la às mesmas alturas de Laura de Petrarca ou de Beatriz de Dante. O capitão da nau, porém, deixou o poeta nas costas de Moçambique onde Diogo do Couto foi encontrá-lo paupérrimo e vivendo da caridade de gente que lhe queria bem. Conduzido a Portugal em fins de 1569 ou início de 1570, fixou-se em Lisboa. Em 1571, obteve licença da Inquisição para publicar seu livro, Os Lusíadas, que só saiu em 1572. Nesse ano, um alvará de D. Sebastião concedeu-lhe uma pensão (tença) anual de 15 mil réis, durante um período de três anos. A partir de então, Camões iniciou um caminho de decadência em que chegou a comer por favor de amigos. Morreu pobre e esquecido num hospital de Lisboa no dia 10 de junho de 1580. Seu túmulo está à direita no Mosteiro dos Jerónimos, ao lado do mausoléu de Vasco da Gama.
A história de Portugal é recheada de acontecimentos alegres e pitorescos, mas, também, tristes, cruéis ou rigorosos. Quem leu Alexandre Herculano, Fernando Pessoa ou Almeida Garret e mesmo Eça de Queiroz, sabe ao que me refiro. Todavia, o estilo literário que as canetas douradas desses famosos escritores perpetuaram no papel, são um exemplo maiúsculo da cultura lusitana que até hoje corre os quatro cantos do mundo e encanta aqueles que lêem seus textos, como acontece com Os Lusíadas.
O Consulado de Portugal, a Beneficência Portuguesa e a Associação Luso-Brasileira, mais uma vez, participam do acontecimento que servirá para rememorar, hoje, o nosso Portugal velhinho, com a certeza de que passaremos momentos inesquecíveis de patriotismo, literatura, lazer e congraçamento, enaltecendo os intrépidos heróis lusitanos e exaltando os seus épicos feitos.
O autor, Abel Abreu, é delegado de polícia em Bauru e coordenador das comemorações ao Dia de Portugal, Dia de Camões e Dia da Raça.