Cultura

Segredos do poder


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Clássica é a piada do Millôr Fernandes sobre um leão que escapou de um circo, no Rio de Janeiro, quando esta cidade era o Distrito Federal, e se escondeu numa despensa no Ministério do Trabalho. Quando tinha fome, todo dia, quando alguém passava sozinho pelo corredor defronte à saleta onde ele se escondia, com uma patada puxava essa pessoa e a comia.

Ele devorou assessores, funcionários graduados, burocratas menores. Ninguém percebia ou sentia falta dos desaparecidos. Comeu até ministro e ninguém deu pela sua ausência. Até que cometeu um erro fatal: um dia comeu a mulher que servia o cafezinho nas repartições. Chegada a hora de servi-lo, todos começaram a sentir a sua falta e foram procurá-la. Assim descobriram o leão.

A primeira conclusão que se pode tirar dessa cômica parábola é sobre a importância da mulher do cafezinho para o poder.

Quando um secretário da administração, ao analisar o quadro dos servidores municipais, observou que um dos melhores salários era de um motorista, foi investigar o motivo e descobriu: durante muitos anos ele foi motorista de prefeitos e estando muito próximo destes, nas viagens com eles efetuadas, sempre reclamava de seu vencimento e, com isso, muitas vezes obtinha mais uma “letrinha”.

Não se lembram de um motorista de um presidente da República que complicou a vida desse político pois, nas idas e vindas com o carro oficial, acabou ouvindo coisas incomuns praticadas na administração federal?

Idêntico papel exerce o ascensorista de elevadores privativos, transportando para cima e para baixo presidentes, ministros, governadores, senadores e deputados que, inadvertidamente, falam coisas não divulgáveis. O servidor acaba ouvindo-as e se, levadas a público, comprometem os homens do poder.

Outra figura importante é a secretária dos governantes. São pessoas de absoluta confiança e que, com discrição e zelo permanente, criam condições de trabalho para seus chefes e cuidam deles. Muitas vezes, a melhor maneira de se obter uma audiência ou mesmo um emprego, é através da secretária, quando ela se interessa pelo assunto ou pela pessoa.

Dentro de nossa ignorância, preocupados na leitura de jornais, atentos ao que se ouve no rádio ou vê na televisão, tentamos identificar quais são os homens próximos dos que detêm o poder, esquecendo que são justamente as pessoas sem importância funcional. O que saberá um mordomo que serve diariamente refeições para a família do governante, ao ouvir diuturnamente as conversas descontraídas feitas ao redor da mesa?

Portanto, o caminho mais rápido de levar uma reivindicação ou transmitir um fato importante para aquele que decide é utilizando-se de portador a mulher que serve o cafezinho, o motorista ou a secretária da autoridade, o ascensorista dos elevadores privativos ou o mordomo da família. Essa é a regra geral. Mas, nos Estados Unidos, em outros tempos, houve uma exceção: a estagiária do presidente.

O autor, Irineu Azevedo Bastos, é historiador, escritor e colaborador do Ju Machado Escritório de Arte.

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