1 + 1 = 3. É isso mesmo. Ao contrário da matemática, onde um mais um somam dois, no relacionamento, o resultado da união de dois indivíduos não é exato. Não, você não encontra sua cara-metade, a tampa da panela, a metade da laranja. Numa relação, são dois inteiros formando um novo par.
“Você é um inteiro que mais um inteiro formará em uma terceira relação, mas não pode esquecer a sua individualidade, sua história de vida, seus anseios. Numa relação é muito bom que cada um siga seus caminhos pessoais. Faça programas a dois, mas também tenha seus amigos e atividades. Não se anule por uma união”, explicam as psicólogas e psicoterapeutas de casais e famílias Maria Lúcia Biem e Luciana Maria Biem Neuber.
Estar perto de alguém é uma escolha que ambos fazem, mas não é a única coisa. A felicidade em si não existe. Existem, sim, momentos felizes junto de alguém. A felicidade está dentro da gente.
A dificuldade da maioria dos casais está na dificuldade de respeitar os limites e a individualidade do outro. Principalmente entre aquelas pessoas que já tiveram uma união anterior e adquiriram uma liberdade com o final da relação.
“Hoje, estamos vivendo uma época muito individualista. As pessoas estão pensando muito nelas. Numa união você tem que ter troca, cumplicidade. Nesse sentido, precisamos resgatar uma série de valores, principalmente o respeito”, aconselham.
Em primeiro lugar, é preciso ter consciência de si mesmo e conhecer o funcionamento biológico e emocional do outro, adverte Luciana.
O alerta serve para inúmeros casos de amor onde o egoísmo e o sentimento de posse acabam colocando tudo a perder, sem tempo para voltar atrás.
Dessa forma, o exercício proposto é se colocar no lugar da pessoa amada e não projetar as expectativas de sua vida naquele indivíduo. O diálogo e a compreensão são os caminhos para concluir que uma relação não é amparo para suprir sonhos, idealizações, padrões e frustrações.
Paixão
Hoje, as pessoas começam a se relacionar muito cedo e vivem envolvimentos superficiais. Profissionais apontam que homens e mulheres estão despreparados para viver um amor.
Luciana e Maria Lúcia, autoras da palestra “Homem x Mulher: quando as diferenças se encontram”, explicam que homens e mulheres são diferentes biologicamente e emocionalmente, mas enquanto seres humanos são idênticos e têm os mesmos direitos.
“Mas nós desempenhamos papéis diferentes, seja social ou profissionalmente, como papel de pai, mãe, irmão. Reconhecer essas diferenças e administrá-las num relacionamento começa a ficar complicado para a maioria dos casais, tanto namorados, quanto marido e mulher”, aponta Luciana.
Ela pondera que, no início de uma relação, a paixão, geralmente um encontro avassalador, acaba por tirar o chão das pessoas e a deixá-las naturalmente mais dispostas e alegres, com os sentimentos à flor da pele e que se não correspondidos podem causar muito sofrimento para homens e mulheres.
“Você pode ter uma paixão intensa e rápida e esse sentimento pode se transformar em amor ou não. Mas a grande questão está em como as pessoas superam um romance. Se sofrem e se privam de outras relações ou se aprendem e seguem em frente”, comenta a psicóloga.
Já no amor, a pessoas ficam mais tranqüilas, com os pés no chão, e passam, inclusive, a enxergar as imperfeições do outro, o que na paixão é quase impossível, pois as pessoas estão no jogo da conquistar.
“Muitas pessoas preferem viver somente as grandes paixões e não assumir os relacionamentos mais estáveis para não enfrentar as diferenças e o cotidiano, não assumir mais papéis diante dessa relação”, comenta Maria Lúcia.
As psicólogas explicam que na rotina há mais fatores para testar a relação. A vida sexual é uma delas. Maria Lúcia Biem revela que, com o tempo, as relações tórridas se transformam em rapidinhas e “enquanto a mulher é sempre romântica e se entrega de corpo e alma, muitos homens apenas levam o pênis para a cama”. Essa mágoa, com certeza, vai provocar um distanciamento, uma diferença de pique sexual e até a chamada “solidão a dois”, quando cada um se sente só mesmo num casal, sob o mesmo teto.
“O namoro hoje está engavetado. Após o nascimento dos filhos as mulheres priorizam o papel de mãe e se esquecem de que no casamento também tem o papel de afeto e de sexo e que isso precisa ser bem temperado. Na vida não temos como fugir das perdas e dos ganhos.”
Numa outra equação, Maria Lúcia ressalta que um casal quando vai para a cama não é formado apenas por duas pessoas, mas sim por seis, pois cada um carrega os valores e preconceitos vindos de pai e mãe e precisam aprender a lidar com essa nova família que se cria.
Lembrando o poeta Fernando Pessoa, a psicóloga revela que somos aquilo que perdemos, pois a nossa vida é um exercício de superação, adição, divisão e multiplicação.