Auto Mercado

Aventura de bike pelas Américas

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Exatamente no dia 31 de outubro de 2002, Rafael Limaverde, 28 anos, iniciou um desafio que mudaria sua vida. Ele saiu de Fortaleza, cidade onde reside, decidido a realizar o sonho de conhecer de bicicleta vários países das Américas do Sul, do Norte e Central. Ele não mediu esforços para isso e, em passagem por Bauru, já na etapa final da viagem que já dura quase dois anos, contou detalhes da cicloaventura.

Rafael permaneceu em Bauru apenas dois dias na casa de Alexandre Munhoz, amigo que conheceu enquanto pedalava pelo Chile no deserto de Atacama, o mais árido do mundo. “Ele estava de moto e lhe prometi que, quando estivesse em São Paulo, o visitaria aqui na cidade”, conta. A viagem de Munhoz também já foi motivo recente de reportagem do AutoMercado&Cia.

A rápida estadia em Bauru serviu como um merecido descanso a Rafael, que já havia percorrido mais de 20 mil quilômetros e dezenas de países, como Guiana Francesa, Venezuela, Cuba, México, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai e, claro, parte do Brasil.

Ele explicou que o maior objetivo, além de conhecer novas culturas em outros países, foi o de escapar do estresse do ambiente cosmopolita da Capital cearense, onde trabalhou oito anos como ilustrador em um jornal. “Pedi a conta no emprego e vendi tudo o que tinha para juntar dinheiro. Hoje vi que isso foi a melhor coisa que fiz na vida”, ressalta.

Com isso, e com a grana que já havia economizado durante dois anos de labuta no meio de comunicação, comprou a bicicleta, que ele apelidou de “Lady Laura”, e preparou-se fisicamente durante três meses para iniciar a aventura. “A intenção era fazer algo fora do padrão, como as viagens oferecidas em pacotes turísticos”, ressalta.

E com essa mentalidade ele “caiu” na estrada, onde cozinhava e acampava o máximo possível para poupar a suada quantia em dinheiro levada na cicloaventura. Nessa “batida” ele percorreu os diversos países americanos pedalando em grande parte do percurso, mas em diversos trechos a viagem exigia transporte por barco, avião, caminhão ou carro.

Tais fatos não diminuíram o entusiasmo de Rafael pela viagem à América Latina, região que o encantou. “É um continente maravilhoso e o latino, de maneira geral, é muito hospitaleiro. Eles fazem a gente lembrar um pouco de nós mesmos”, considera o cicloturista.

Para Rafael, as pedaladas pelas Américas serviram não apenas para que ele entrasse em contato com novas culturas, mas também para desencadear um profundo processo de reflexão em sua vida. “Aprendi a valorizar coisas que os brasileiros ainda estão longe de incentivar”, frisa.

Entre elas, ele cita o desapego ao materialismo. “Viajando pelo continente é preciso estar preparado para muita miséria. Mas foi bonito ver pessoas que, mesmo paupérrimas, são mais felizes que brasileiros que possuem maior poder aquisitivo e só sabem reclamar da vida”, enfatiza Rafael. “Depois dessa viagem minha casa e família aumentaram. Me sinto um latino-americano”, salienta.

Para Rafael, tal gênero de viagem funciona como um “professor” para o ser humano. “Ela te ensina várias lições, como o que realmente importa nesta vida. Para mim, são as pessoas que se conhece e os valores positivos que se agrega delas”, afirma. E, entre as muitas aprendidas pelo ciclista, a principal é que, quando retornar a Fortaleza, prometeu ter uma vida diferente.

“Aprendi que se pode viver com muito menos do que se imagina e de maneira mais simples. Vou voltar a trabalhar, mas não na mesma intensidade de antes e somente na área que me der mais prazer”, garante Rafael. Na verdade, sua intenção é exercer a profissão de artista plástico, atividade que já lhe rendeu duas exposições em Fortaleza.

“Decididamente, vou fazer o que gosto, ainda que não atinja as mesmas condições econômicas de antes. Quero é qualidade de vida”, resume Rafael. Outro objetivo é lançar um livro para relatar as experiências da viagem. “Acho que guardar comigo tudo que aprendi nela é egoísmo. Pretendo dividir com outras pessoas”, comenta.

O cicloturista também mantém um site - www.bicicletapelomundo.ya.com.br - que traz um relato diário de toda sua viagem, além de dados pessoais, fotos e reportagens na mídia sobre sua aventura.

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