Um desses loucos por futebol, Celso Odair Zinsly, 49 anos, natural de Gália-SP, não chega a ser uma pessoa polêmica. Mas costuma ser o tema dominante nos meios radiofônicos e rodinhas esportivas, especialmente quando o assunto é Noroeste, sem dúvida, sua grande paixão.
Criticado por alguns, mas elogiado por muitos, Celso Zinsly, o gerente de futebol, cargo que assumiu em novembro de 2002, foi talvez o principal responsável pelo planejamento que reergueu o Noroeste e reconduziu o clube à Série A2 do Campeonato Paulista.
Damião Garcia é tido e havido como herói, rei e santo pela nação alvirrubra, mas é claro que o vitorioso empresário, presidente e grande benemérito do Noroeste, precisa contar com um homem talentoso e de sua confiança - tipo Zinsly, que executou o plano como manda o figurino, sem ter medo de dar a cara para bater. Foi realmente um planejamento com muito acerto, que coroou um árduo trabalho de 19 meses.
Leia a seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Celso Zinsly ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - Faça um relato de como tudo começou
Celso Zinsly - Quando assumi o cargo de gerente de futebol em 2002, final de outubro, ou começo de novembro, afirmei, em minha primeira entrevista, que o time para a Série A3 de 2003, não seria para subir de divisão. Eu poderia ficar numa situação cômoda, montando um supertime de aluguel, mas e depois? Como estamos cansados do Onze Camisas Futebol Clube, nossa meta exclusiva era a estrutura do clube. Primeiro, pagar dívidas e depois, realizar os melhoramentos no estádio, como campo de treinamento e alojamento para as categorias de base. Sei que estrutura não entra em campo e que para a maioria da torcida o que interessa é o time ganhar jogos, mas sem uma base sólida, clube de futebol não chega a lugar nenhum. Dinamizamos as divisões de base. Pela primeira vez em sua história, o Noroeste participa de todas as categorias da Federação Paulista de Futebol: infantil, juvenil, júnior e profissional. No final da história, quem mais ganhou com tudo isso foi a sensibilidade de Damião Garcia, que acreditou sempre na nossa proposta.
JC - Dizem que você escalava o time. Isso é verdade?
Zinsly - Alguns torcedores e até mesmo cronistas esportivos achavam que eu escalava a equipe, principalmente quando aconteciam as exibições ruins, como aconteceu naquela derrota feia em Osasco. Garanto que se o Noroeste tivesse vencido, ninguém iria dizer que o time havia sido definido por mim. Essa tarefa de escalar é do técnico. Quando fui consultado, não me omiti, mas nunca interferi na escalação do time.
JC - Pode explicar direito a saída de Túlio Tangioni?
Zinsly - Depois daquele empate de 2 a 2 contra o Jaboticabal, na primeira fase do campeonato, Túlio resolveu ir embora. Ele ficou magoado com os gritos da torcida, de ‘burro, burro, burro’ e ‘fora Túlio’, pegou suas coisas, colocou no carro. Mas os jogadores, alguns deles chorando, correram até Túlio, fizeram um apelo, e o treinador voltou atrás. Trabalhar no futebol não é fácil: o clube é criticado quando dispensa o profissional e também quando não dispensa. Algumas pessoas alegaram que nós demoramos para demitir o técnico, mas se ele fosse mandado embora após aquele jogo contra o Jaboticabal, uma forte crise poderia explodir, porque o grupo estava fechado com Túlio Tangioni, que é um técnico competente e ótima figura humana.
JC - É verdade que você não se dá bem com Vítor Hugo?
Zinsly - Sempre me dei bem com Vítor Hugo e posso dizer que fui um dos responsáveis pelo lançamento dele na carreira de treinador, em janeiro de 2001, quando eu ainda era da imprensa, e na volta dele ao clube em 2003, quando eu era dirigente. Na verdade, tive um desentendimento com Vítor Hugo no ano passado, após sua saída do Noroeste, e nossa amizade sofreu um abalo, mas uma coisa nada tem a ver com a outra, penso assim. A contratação de Vítor Hugo comprovou que não confundo as coisas, e comigo não há diferença pessoal. Vitão entende do ramo, tanto é que o time se superou na reta final, melhorando tecnicamente, ganhando confiança e conseguindo o acesso. O querido Alvirrubro está cima de picuinhas, ciumeira, alfinetadas ou coisas parecidas. Sou 100% Noroeste.
JC - Você acha que seu trabalho é reconhecido pela imprensa?
Zinsly - Eu não trabalhei e nem vou trabalhar pelo reconhecimento, mas confesso que algumas vezes fiquei frustrado em não poder explicar coisas feitas por nós e dirigidas ao clube por torcedores e cronistas. Não estou preocupado em aparecer. Afinal, sou radialista, já fui chefe de equipe e se eu quiser, posso voltar a ser. Além disso, se fosse para me projetar, não deixaria de participar de programa esportivo na Rede Vida de Televisão, que é mostrado para todo o País. Para mim, houve um boicote velado da imprensa bauruense, porque não tive o devido espaço para algumas explicações e até mesmo para me defender sobre certas insinuações. A informação, na maioria das vezes, só chegava quando era do interesse de quem divulgava. Não posso afirmar com segurança, mas talvez tenha ocorrido por parte da imprensa, alguma diferença pessoal.
JC - E a torcida?
Zinsly - Ainda naquele triste empate contra o Jaboticabal, a exemplo do Túlio Tangioni, fui hostilizado, mas coisa orquestrada por uma pessoa que se infiltrou na torcida organizada. Sei quem é esse elemento, mas preferi deixar barato. Mas se naquele jogo pediram minha cabeça, em outros, fui aplaudido, gritavam o meu nome. Cheguei a ser carregado por alguns torcedores na vitória em Jaú e no empate em Piracicaba. Torcedor é assim mesmo em todo o lugar, mas garanto que nunca a torcida noroestina foi tratada com tanta dignidade, se bem que trabalho para o clube e não para a galera. A Sangue Rubro viajou o campeonato todo de graça. Além de fretar os ônibus, o Noroeste deu o ingresso nos jogos em Bauru, e houve até um certo questionamento sobre isso. Na partida em Mirassol, na fase classificatória, fui procurado por influentes noroestinos que alegaram o seguinte: o clube deu os ônibus, pagou os ingressos, e a torcida ainda vaiou o time, colocou a faixa de cabeça para baixo e pediu olé’. Não liguei, é a louca paixão. E faço questão de lembrar que a torcida mostrou-se extremamente importante nesse acesso.
JC - Você é querido ou detestado pelos noroestinos?
Zinsly - Como diz o amigo Teixeira, o tributo pago pela glória e pela fama não é nada: duro é pagar as contas (risos). Quando assumi o cargo, tinha duas opções: usar o Noroeste para me promover ou simplesmente trabalhar intensamente pelo clube e não abrir espaço para aqueles interessados em tirar proveito. Aqui não tem pedágio (gíria atribuida a certos empresários de futebol que só querem lucrar) e não existe diretor de carteirinha. Jogador para ser contratado, profissional ou amador, passa por uma triagem. Em benefício do Noroeste, não tenho medo de ser considerado antipático. Como já expliquei, uns gostam da gente, outros não, mas acho que sou bem mais querido do que detestado.
JC - E o novo planejamento?
Zinsly - O planejamento para o restante deste ano e para 2005 está pronto, com as finanças delineadas, e será mais ou menos o mesmo que relatei no começo da entrevista, com a forte estrutura e a bola rolando. Sempre caminhando juntas, porque são nossas prioridades. Vale lembrar que pintamos o estádio todo. E depois da Casa do Atleta (alojamentos dos amadores), construída em setembro do ano passado, entregamos em janeiro deste ano o alojamento dos profissionais, composto por dezenas de flats, com piscina em frente. Inauguramos também novas cabines de imprensa. A construção de amplo e moderno refeitório e um centro de treinamento (onde era o antigo setor poliesportivo) vai de vento em popa.
JC - O Noroeste terá time forte?
Zinsly - Quanto ao time para as próximas competições, tudo vai girar de acordo com a parte financeira. Dos 18 jogadores que participaram da Série A3, que terão seus contratos encerrados dia 30 do corrente, pretendo renovar só com quatro atletas, além da estrela do grupo, o goleiro Maurício. O Noroeste não é dono dos direitos federativos de nenhum desses 18 jogadores. Alguns que pertencem ao clube e vão ficar são Cris, Ti, Adílson, Jorginho, Tobias, Careca, Alan, Luís Carlos e Otávio, entre outros. O elenco para disputar a Copa Federação terá a idade média de 21 anos, sem empresários na jogada. Todos os jogadores serão nossos e formarão a base para a Copa São Paulo de Juniores, em janeiro. Para a Série A2 contrataremos alguns reforços, mas posso garantir que o Noroeste terá um time jovem, mas forte e de competição, que lutará pela sua volta ao grupo de elite. E já posso antecipar um possível reforço, o atacante Neto, que está voltando de Portugal. Ele foi o artilheiro do Norusca em 2003 e ídolo da torcida. O Noroeste terá um futuro promissor, mas tudo faremos sempre com a aprovação do presidente Damião Garcia.
JC - E o seu futuro no clube?
Zinsly - Já dei minha contribuição e penso em parar, porque o desgaste durante esses 19 meses foi muito grande. Não é fácil enfrentar pressão de todos os lados e lidar com 180 funcionários (jogadores, comissão técnica e funcionários, todos com registro em carteira). Trabalho pelo menos 12 horas por dia; quando a garotada estava concentrada para a Copa São Paulo, trabalhei no Natal e passagem de ano. Sem querer ser pretensioso, ouvi dizer que se eu sair, Damião também sai, mas vou conversar com o presidente e colocar meu cargo à disposição. Adoro o Noroeste, mas não está descartada a minha saída do clube.