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Dez anos de Real: vilãs 'tarifas administradas'


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O Plano Real está completando dez anos de seu lançamento e teve como principal objetivo acabar com a inflação.

Esse plano tentou evitar os erros dos anteriores (só para lembrar: tivemos os planos Cruzado, Bresser, Verão e Collor), e combinou aumento da arrecadação do governo, fim dos reajustes automáticos (chamado de indexação) e controle nos gastos públicos.

Podemos dizer que o Real foi em parte bem-sucedido, afinal, a inflação era de 40% a 50% ao mês e agora temos inflação na casa de 7% ao ano.

Mas ocorreram erros e distorções. Os erros maiores ficaram centrados no setor externo e na falta de avanços internos, notadamente, na reforma da estrutura pública. Também o País errou no modelo de privatização.

Querendo ser moderno, o Brasil optou por vender as empresas públicas. Telefonia, energia e siderurgia são alguns exemplos dessa postura.

Aí começaram os problemas. O governo permitiu que nos contratos constassem reajustes das tarifas pelo Índice Geral de Preços, conhecido como IGP. Esse índice, calculado pela Fundação Getúlio Vargas, leva em conta a maioria dos preços da economia, mas principalmente os preços no atacado - que são os preços praticados entre empresas. Isso quer dizer, por exemplo, que com qualquer alta do dólar, uma grande indústria pode aumentar seus preços, o que é sentido rapidamente nesse índice.

Só para ilustrar: a inflação oficial do governo desde o lançamento do Real foi de 167%, o IGP no mesmo período foi de 296%. Acontece que muitas tarifas aumentaram mais: o telefone fixo teve alta de 546%. A energia elétrica teve alta de 352%.

Resumo: essas tarifas passaram a levar mais dinheiro do orçamento doméstico, e o que é pior, nós consumidores não temos como fugir dos aumentos porque são setores em que existem poucos ou nenhum substituto. As tarifas podem ser consideradas as grandes vilãs do Real.

Passados dez anos nossa economia ainda não demonstrou maturidade para concluirmos que a inflação está totalmente domada.

Só nos resta cobrar do governo mais velocidade para que o sacrifício já feito da parcela mais pobre da população não tenha sido em vão.

O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, mestre em Comunicação, vice-diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru.

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