Ser

Precocidade adolescente

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

“Não consigo prestar atenção na aula. Não suporto mais o professor. Me distraio, fico olhando para o lado e o que faço sai tudo errado. Estou cansado de estudar. Não consigo me ligar. Não sei nada desde que te conheci. Este amor é a coisa mais linda que já senti.”

Há exatos 20 anos, o hit “Doces Beijos”, do grupo porto-riquenho Menudo, que nos anos 80 levou uma legião de meninas ao delírio no mundo todo, tratava do sofrimento de um adolescente sofrendo por seu amor platônico e sonhando com os beijos que tinha recebido da amada.

Hoje, a canção que ocupa o topo das paradas de sucesso entre os jovens é “Equalize”, da roqueira Pitty, uma baiana de 25 anos, tatuagens, cabelos vermelhos e piercing.

Mesmo plugada na modernidade, a sintonia de Pitty ainda é a mesma dos Menudos. Basta prestar atenção na letra da balada cantada em coro pelos teens e pré-teens: “Às vezes se eu me distraio / Se não me vigio um instante / Me transporto pra perto de você / Já vi que não posso ficar tão solta / Me vem logo aquele cheiro /

Que passa de você pra mim / Num fluxo perfeito / E enquanto você conversa e me beija / Ao mesmo tempo eu vejo / As suas cores no seu olho, tão de perto / Me balanço devagar, como quando você me embala / O ritmo rola fácil, parece que foi ensaiado / E eu acho que eu gosto mesmo de você / Bem do jeito que você é / Eu vou equalizar você / Numa freqüência que só a gente sabe / Eu te transformei nessa canção / Pra poder te gravar em mim.”

Guardadas as proporções de duas décadas de ebulição sexual, os beijos (e até algo mais) acabam sempre tirando meninas e meninos da órbita, principalmente do planeta escola.

Para desespero de pais e mães responsáveis, a precocidade sexual é algo que tem atormentado cada vez mais o processo educação dos filhos. Adolescentes e pré-adolescentes parecem só ter o pensamento voltado para paquera, beijos, namoro, sexo e outros “babados afins”.

Pais de meninos e meninas com idade entre 10 e 13 anos apontam que essa é uma preocupação real em suas vidas. Cada um à sua maneira vive o dilema de tentar acompanhar o amadurecimento de seus filhos da melhor maneira possível para uns e outros.

“Noto minha filha mais absorta e menos atenta aos estudos. Agora ela tem de dividir sua agenda diária com as tentativas de paquera, as dela e as dos meninos.”

“Não quero que a minha menina vire moça. Ao mesmo tempo, quero ser sua amiga para que ela me conte tudo e a gente possa trocar idéias.”

“Quero que minha filha vire moça. Tenho apenas uma preocupação: que ela esteja bem preparada para enfrentar esse mundão que tem aí fora e não seja enganada facilmente por qualquer um - menino ou menina.”

“Por sorte, ela ainda é BV (boca virgem), mas, aos 11 anos, já está odiando este rótulo.”

“Eu não me lembro de, nessa idade, ter dado esse tipo de trabalho para a minha mãe. Será que eu me esqueci ou elas estão amadurecendo mesmo mais cedo?”

“Ela jura que vai me contar quando decidir beijar.”

“Nós já passamos por isso e devemos estar preparados.”

“Ela vai sofrer, chorar por amor não correspondido, ficar com medo de beijar, em dúvida se é melhor ficar ou namorar, se chegou a hora de transar...”

As declarações acima são de pais e mães que vivem de perto o drama de terem filhos em plena idade das descobertas e suas reações de insegurança, impaciência, felicidade e rebeldia.

Sexo ainda é tabu

A cena é comum. Aos 11 anos, uma garota é convidada por um colega de classe para ficar com ela. A resposta também é típica: ela iria pensar. Mas ao contrário de muitas meninas que iriam correndo contar para a melhor amiguinha, no mesmo dia ela discutiu a proposta com a mãe e, entre prós e contras, ela, sozinha, decidiu que ainda era cedo. A mãe ficou aliviada pela maturidade e sinceridade da filha.

Mas a realidade da maioria das famílias não é essa. Apesar de todas as revoluções e o bombardeiro de informações, sexo e sexualidade ainda são assuntos proibidos para muitas famílias.

Lidar com o despertar da sexualidade na adolescência sempre foi um dos grandes desafios para pais e mães. Os jovens nem sempre se sentem à vontade para perguntar e muitos adultos ficam intimidados na hora de responder.

A conclusão dos especialistas é que só a informação não basta; é preciso promover educação e conscientização sexual e no Brasil, as meninas são as mais prejudicadas.

“Elas têm uma educação clássica em casa, onde aprendem que sexo é algo imoral, proibido e pecaminoso. Mas têm contato com a mídia, que escancara o sexo como algo bom, bonito e prazeroso”, observou a ginecologista Carla Lambertini Bonjorno, em recente entrevista ao JC.

Esse conflito pode ter inúmeras conseqüências. Entre elas, a do fazer escondido. A proibição familiar não impede o adolescente de experimentar o sexo. Quando a gravidez acontece, surgem os argumentos: não tinha dinheiro para comprar o preservativo, tinha medo que os pais encontrassem as pílulas e assim por diante.

Para os especialistas, a melhor maneira de lidar com esse despertar da sexualidade e também com outros conflitos da adolescência, como o aparecimento da acne, as mudanças do corpo, as cólicas menstruais, as mudanças de comportamento da tensão pré-menstrual (TPM), é buscar uma orientação profissional adequada e precisa.

Aparentemente, para os meninos é bem mais fácil atravessar essa fase da adolescência e do despertar sexual. Isso ocorre porque, historicamente, o sexo sempre foi liberado para os homens. No entanto, os casos de gravidez precoce aumentam ano após ano, indicando que eles também precisam ser melhor orientados. A criação dos garotos de forma mais próxima evitaria problemas futuros.

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