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Espinhos ao invés de flores


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Não é imaginável que se possa esquecer o longo ciclo de notabilizações negativas, no campo governamental, vivido pelo País no outro século. Vargas se destacou pela ditadura civil, Dutra pela tranqüilidade sepulcral, Goulart pela insistente caminhada esquerdizante, Jânio pela até hoje inexplicada fuga diante do espectro das “forças ocultas” e os seus sucessores mais imediatos pela ditadura militar exercida por variadas nuances.

Poder-se-ia afirmar que a fase foi definitivamente encerrada pelos pósteros que são inúmeros? É claro que não, haja vista que a enorme galera se mostra aí revoltada com certas jogadas governamentais, que, impatrioticamente, rasgam de cima para baixo a nossa querida camiseta verde-amarela, ornada com o dístico de “ordem e progresso”.

São tão contundentes a irritação e o desassossego populares que, pela primeira vez na história da economia nacional, duas amplas torcidas, tradicionalmente antagônicas nos degraus das arquibancadas - patrões e empregados - estão se parceirizando estreitamente para obstaculizar os dribles da equipe do governo, entre os quais figuram a incessante elevação de impostos e taxas e o inexpressivo reajuste de salário mínimo como o recentemente decretado, o qual nega melhor nível de vida ao povo e, ao mesmo tempo, eleva generosamente os vencimentos legislativos, assim como abrindo largamente as algibeiras para desviar auxílios monetários a regiões externas, como que estando debruçado em um oceano de dinheiro.

É lógico, então, que a finalidade da surpreendente fusão de forças é tentar fulminar as “saúvas” que infestam livremente o imenso gramado do estádio nacional, devorando descontroladamente as frutas produzidas pela receita pública, que custa muito para juntá-las, concorrendo negativamente para a miserabilidade da amplíssima área e deixando que o perigoso jogo transcorra segundo a sua vontade, com placar-zero para o proletariado. Este, conseqüentemente, de maneira alguma pode levar flores vivas e perfumadas ao vestuário do árbitro, tendo mesmo de protestar a plenos pulmões e pôr as mãos atirando longos espinhos... É a nossa opinião.

O autor, N. Serra, é delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado, é o jornalista responsável do JC.

“Não é o riso da expressão mecânica que modifica a face da dinâmica, mas é o de conteúdo misterioso, esotérico e profundo que pode manter num momento a paz do mundo”.

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