Tribuna do Leitor

E AS COTAS

Pedro Valentim
| Tempo de leitura: 4 min

A Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo está recebendo um projeto de lei de deputados estaduais de São Paulo que pretende instituir a reserva de 50% das vagas nas universidades estaduais paulistas (Unesp, USP e Unicamp), para estudantes da escola pública e, dentro deste percentual, 20% das vagas para afro-descendentes, de acordo com o percentual de negros e de pardos no total da população do Estado de São Paulo. Uma revolução social como esta que pode acontecer infelizmente não está sendo discutida dentro da sala de aula por parte dos professores e a veiculação pela grande mídia é escassa. Aliás, o MEC tem um projeto igual para todo o Brasil e apesar da pressão de particulares que se enriquecem nas custas de cursinhos ou universidades particulares que são verdadeiras fábricas de diplomas, logo o Lula vai sancionar esta iniciativa humanitária e com certeza receberá em dobro do povo pobre.

O Brasil é uma nação de quarto mundo e patrocinadora de um dos piores índices de distribuição de renda do planeta. Neste contexto, torna-se insuportável e inacreditável o pobre ter que pagar para cursar ensino superior e o rico estudar de graça nas universidades públicas. Parafraseando o Boris Casoy, “isso é uma vergonha”! Os pobres, que alcançam através de um esforço sobrenatural as universidades públicas, apenas cursam matérias que não possuem relevância de status perante a nossa contraditória sociedade.

Os apóstolos da filosofia do bolo crescer para depois diminuir acham que o caminho é a melhoria do ensino público médio e fazem oposição à política de cotas. Se seguirmos a ótica deles, daqui a 80 ou 100 anos o caos educacional e excludente se normaliza e aí com certeza não precisaremos de cotas e apenas da capacidade individual das pessoas. Ora, num país de herança escravagista e exclusão social não podemos deixar à mercê da própria sorte, aguardando o laboratório insensível de pseudo-intelectuais, milhões de jovens que o Estado protetor dos ricos abandonou. Ou faz as mudanças agora ou cada vez mais teremos que construir Febens, presídios, colocarmos cercas elétricas e pedir a pena de morte, que já existe nos presídios e nos bairros da periferia.

Desses excluídos, os que tiverem menos azar poderão engrossar as fileiras dos shoppings centeres da fé espalhados por aí.

O Brasil, de 1596 até 1874, tinha leis que proibiam o acesso de negros e negras, livres ou libertos, às escolas de qualquer nível. E o curso superior se iniciou na nação no começo do século 19. Isto prova, sem achismo ou invencionice, mas com documentos, que não é a mesma coisa ser branco pobre e negro pobre no Brasil. Os negros brasileiros, embora sejam desunidos, e os que se sobressaem na maioria viram genérico de Michael Jackson, merecem indenizações por parte da União Federal com muito mais razão do que os anistiados de grupos de esquerda participantes da guerrilha. Mesmo porque, depois de 300 anos de genocídio escravocrata, foram jogados para a rua sem lenço e nem documento por exigência da coroa britânica, que forçou a abolição que nossos queridos fazendeiros não queriam, tal como a reforma agrária nos dias de hoje. Nos lugares dos negros vieram os imigrantes com ofertas de terra, moradia e baixos salários. E a maioria conseguiu.

Quando se trata de benefício surgem dúvidas de quem é verdadeiramente negro no Brasil. Ora, senhores, essa dúvida é uma imensa hipocrisia. Não precisam fazer teste de DNA, é só perguntar pra Polícia Militar, segurança de loja chic, guarda de banco, porteiro de hotel nobre, que com certeza eles sabem quem são os negros. E como sabem.

É estranho o silêncio da União Nacional dos Estudantes e do movimento secundarista sobre este projeto de elevado alcance social e educacional. Esta iniciativa dos deputados é muito mais importante do que carteirinha do cinema, moradia gratuita em câmpus ou passagem gratuita em ônibus. Fazer discurso revolucionário no McDonald’s comendo Chicabon soa patético. Não existe teoria revolucionária sem ação revolucionária.

O requerimento do projeto já foi assinado por 30 deputados. Estamos de olho para ver quem realmente defende os mais necessitados ou apenas finge. A listagem com o voto de cada deputado será divulgada no Estado inteiro.

PS - Onde andará o intelectual Odair Castilho, que foi um dos que me inspiraram a ler bastante e colaborar com a democrática Tribuna do Leitor? (Pedro Valentim - RG 19.198.011-0)

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