Apesar da queda no poder de compra da população e do aumento das desigualdades sociais, o brasileiro vem consumindo mais, principalmente na categoria de bens duráveis e eletrodomésticos. Além do telefone celular, cujas vendas tiveram um desenfreado crescimento nos últimos três anos, os produtos mais procurados foram os computadores, máquina de lavar roupa, aparelho de TV e as geladeiras, especialmente as duplex (com duas portas).
É o que indica a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com dados entre 1993 e 2003 e que foi divulgada recentemente. O estudo abrange justamente o período em que entrou em circulação o Real (a partir de junho de 1994), quando os comerciantes voltaram a oferecer planos de pagamento parcelado em dez ou mais vezes e permitiram o maior consumo à população de menor renda.
Os dados da PNDA apontam que a máquina de lavar roupa foi o produto que sofreu o maior aumento nas vendas nos últimos dez anos, de cerca de 41,6%. A porcentagem de domicílios que contava com o eletrodoméstico em 1993 era de 24,3%. Em 2003, este índice alcançou 34,4%. A venda de geladeiras também cresceu, em cerca de 21,6%. Enquanto 71,80% das moradias possuíam esse bem em 1993, aproximadamente 90% já contavam com o eletrodoméstico no ano passado. A pesquisa destaca um aumento nas vendas de geladeiras duplex e também a redução nas vendas de freezers.
Foi exatamente pela facilidade de pagamento que a servidora pública Jacqueline Ramos de Almeida adquiriu uma máquina de lavar roupa, há cerca de dois anos. Ela conta que o eletrodoméstico se tornou necessário porque ela não tinha mais tempo para se dedicar a todos os serviços da casa.
“Na época, eu tinha só um tanquinho, mas não ajudava muito. Eu precisava de uma máquina e pude comprar porque a loja dividiu o pagamento em dez vezes. Foi mais fácil de pagar assim, porque infelizmente não tinha condições de pagar à vista”, relata.
Itamar Camargo Vieira, gerente de uma loja de eletrodomésticos e eletrônicos, confirma que as lavadoras de roupas e os refrigeradores estão entre os produtos mais procurados pelo consumidor. “No entanto, como a pesquisa vai até 2003, não abrange um dos produtos que é a atual coqueluche, ao lado dos celulares, que é o aparelho de DVD. É um dos produtos mais vendidos da loja atualmente e muitas pessoas nos procuram especialmente para comprar seu DVD”, ressalta.
Atualmente, Jacqueline tem seus olhos de consumidora mirando um computador, mas a idéia da compra vem sendo adiada há algum tempo. “Tenho muita vontade de comprar para meus filhos usarem, mas é um produto caro. O salário não tem sido suficiente, mesmo se eu dividisse o pagamento”, observa a servidora pública.
De acordo com a PNAD, o computador foi o bem durável cuja venda mais cresceu nos últimos três anos. De 2001 para 2002, o aumento foi de 15,1%, e de 2002 para 2003, de 11,4%. Em 2003, cerca de 15,3% das moradias possuíam computadores, e em 11,4% o equipamento contava com acesso à Internet.
A pesquisa aponta ainda o crescimento na proporção de domicílios com telefone fixo, que triplicou de 1993 para 2003, de 19,8% para 62%. Apesar do aumento de 7% de 2001 para 2002 e de 3,9% de 2002 para 2003, a maior taxa de crescimento anual se deu de 1999 para 2001, de 28,9%, no período em que as companhias promoveram a ampliação no número de linhas e a facilidade de disponibilização para a população.
Telas grandes
A pesquisa aponta também que o número de domicílios brasileiros que contava com aparelhos de TV subiu de 75,8% para 90% do total. Paulo Célio Pascolato, que é gerente de uma loja de móveis e eletrodomésticos de Bauru, confirma que as TVs estão entre os produto mais procurados depois dos telefones celulares, na categoria de eletrônicos e eletrodomésticos. Ele aponta também uma nova tendência nas vendas.
“A venda de TVs maiores está em ascensão. Antigamente, as TVs de 20 polegadas eram as mais procuradas, mas agora as pessoas vêm buscando as telas maiores, principalmente as de 29 polegadas. Notamos essa mudança no interesse dos consumidores nos últimos anos”, relata o gerente.
E na hora do pagamento, Pascolato confirma que a facilidade para parcelar a compra é o grande atrativo para a maioria dos consumidores. “Sempre temos os consumidores que compram à vista, mas é uma pequena minoria. Notamos que para os produtos em geral, principalmente os com preços mais elevados, é vantajoso para o cliente comprar parcelado, com juros de 0,99% ao mês”, conclui.