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Medindo a qualidade política


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Os resultados do processo eleitoral em curso apontam para dois fenômenos que servem tanto para aferir a dinâmica social quanto o estágio da organização política no País: a comparação entre a ação administrativa e os perfis de candidatos e o processo da “fadiga de material”.

O primeiro caso repõe a velha questão: o que está em jogo no processo de escolha do eleitor? O marketing eleitoral no Brasil tem dado ênfase ao que foi feito ou ao que há de ser. Os valores pessoais têm permanecido em segundo plano. Um erro. A decisão do eleitor é um complexo processo que começa com a confiança que deposita em um candidato. E a confiança é a substância produzida por qualidades como simpatia, proximidade, credibilidade, seriedade, preparo, experiência, solidariedade, simplicidade, sinceridade, capacidade de vencer obstáculos, entre outras. Ao selecionar valores, os eleitores, agindo sob os impulsos natos de sobrevivência da espécie e conservação dos indivíduos, estão escolhendo os perfis mais adequados para lhes garantir alimento, abrigo, segurança, adaptação ao mundo e crescimento. Com o voto ele quer dizer: o candidato X me trará mais oportunidades que ameaças.

Com tal compreensão, elementos como arrogância, prepotência, autoritarismo, desequilíbrio emocional e aspectos polêmicos da vida pessoal ingressam seguramente no sistema de referências e de decisão dos eleitores. A imagem pessoal, portanto, prevalece sobre a feição partidária ou a posição ideológica, mais ainda quando se constata a desfiguração das siglas nas ante-salas dos conchavos e alianças estapafúrdias. A ação administrativa tem, sim, grande efeito principalmente junto aos núcleos que deles mais se beneficiam. Mas o efeito catastrófico causado pelo marketing da “fazeção banaliza os feitos administrativos, tornando iguais todas as administrações.

Fator de complicação é o que, no setor produtivo, se chama de “corrosão dos materiais”. Em países industrializados, esse fenômeno provoca perdas de 3,5% a 4% do PIB, estimativa que, aplicada ao Brasil, somaria um valor de mais de US$ 20 bilhões. Pois bem, no PIB político – somatória de recursos, potenciais, operações, valores, características e perfis da política brasileira – essa perda está longe daquele índice, o que é uma pena, porque, ao contrário do sistema industrial, o declínio do PIB político brasileiro pela “fadiga” de quadros e partidos tem feito bem à meta de renovação. Uma das conseqüências é o amadurecimento da reforma política. Há casos em que o “material cansado” passa por recauchutagem, prolongando a vida útil, o que, convenhamos, é salutar.

Personagem em intenso processo de reciclagem é o reeleito prefeito do Rio, César Maia, que confessa fazer imenso esforço para não ser empurrado pelo vento da dinâmica social. Personagem que chegou a significar renovação em matéria de administração foi Jaime Lerner, ex-governador do Paraná. Desapareceu do mapa político. Entre os partidos, o PT era o ícone da novidade. Mas atropela os cinco fluxos da vida de um ente partidário: lançamento, crescimento, consolidação, clímax e declínio. Demorou para chegar ao segundo, chegou rápido ao terceiro, correndo solto para o quarto. Misturando-se à massa pasteurizada, periga alcançar o quinto antes do tempo. A assepsia de perfis e administrações é condição sine qua para que velhas imagens se apresentem renovadas, sem o uso artificial de botoxes mercadológicos. Em suma, o maior desafio do ator político é construir e fortalecer sua unidade no espaço e no tempo. Não adianta mascarar o pensamento ou repetir mentiras para um indivíduo desfazer as réstias do ocaso de sua vida política. Qualquer semelhança com personagens de nossa política não é mera coincidência. (O autor, Gaudêncio Torquato, é professor titular da USP)

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