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Filho é lembrado com uísque e pagode

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Enquanto a maioria das famílias prefere lembrar seus entes queridos com orações, velas e muita introspecção, a de Ricardo Augusto, morto em acidente de moto há cerca de um ano, decidiu inovar no Dia de Finados. Ontem, no Cemitério do Ypê, seus pais reuniram alguns amigos para uma homenagem regada a uísque e muita música, especialmente pagode, que o filho tanto gostava.

Segundo a mãe, Gislaine Cavalcanti Macedo, essa foi a maneira encontrada para agradar o filho porque eram as coisas que ele mais prezava enquanto estava vivo: a família, os amigos, uísque e pagode.

Sentada na grama, ao lado do túmulo do filho, Gislaine contou que nem mesmo o velório dele seguiu o modelo tradicional. Ela lembra que, apesar da tristeza daquele momento, os amigos cantavam sem parar. São-paulino fanático, Ricardo, antes de morrer, havia comentado que queria o hino do time sendo executado enquanto fosse velado. E assim foi feito, relembra a mãe com os olhos cheios de lágrima.

Até mesmo bolo de aniversário teve o filho depois de morto. Tudo para transformar a lembrança do filho a mais realista possível.

A quantidade de flores sobre a sepultura esteve entre as maiores em todo o cemitério. Tanto que a administração chegou a pedir para que a mãe retirasse uma parte para não invadir o espaço da sepultura vizinha.

A cada duas semanas, em média, Gislaine troca as flores que estão secas ou murchas por outras. “Hoje, a única coisa que podemos oferecer a ele é um jardim bem cuidado”, argumenta ela.

Além das flores levadas pela mãe, de vez em quando surgem outras de pessoas que passam pelo local e deixam um vaso. Gislaine diz que até bilhetes com pedidos de uma graça já foram deixados no túmulo do filho. No entanto, a idéia de que ele possa fazer milagres não convence nem um pouco a mãe. “Eu sempre tiro (os pedidos) porque meu filho não é santo”, afirmou.

Se Gislaine procura afastar a possibilidade de “beatificação” do filho, em outros túmulos da cidade a prática de entregar pedidos esperando um milagre já está consagrada.

Dois deles ficam no Cemitério da Saudade e ontem, mais uma vez, foram os mais procurados. O que mais chama a atenção é o local onde está enterrada Mãe Preta. Na parte de cima do túmulo não há mais espaço para colocar flores. Vasos de diferentes tamanhos e cores cobrem todo o local. Entre eles, diversos bilhetes com prováveis pedidos de graça.

Leonildes dos Santos Afonso, da Vila Independência, estava ontem em frente ao túmulo e garante já ter sido agraciada por um milagre atribuído à Mãe Preta. Quando o marido morreu, ela ficou por muito tempo abalada e só teria encontrado um pouco de conforto quando teve um pedido atendido. Ontem, ela disse que estava ali apenas para rezar.

A outra atração do Cemitério da Saudade é o túmulo de Mara Lúcia, que morreu em 1970, quando tinha apenas 9 anos de idade. Além das flores, existem muitas balas sobre o túmulo.

João Aparecido Rufato, um dos que estavam ontem diante da sepultura da menina, fez ontem sua primeira visita e disse que foi atraído pelos comentários que ouviu sobre os supostos feitos de Mara Lúcia.

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