Politicando

A urna errada


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Agudos nas eleições municipais de 1968. Disputa acirradíssima entre dois inconciliáveis grupos políticos.

Próximo do horário de almoço, com a eleição correndo tensa e com incidentes pipocando a todo instante, o representante eleitoral no distrito de Domélia por telefone de difícil entendimento reclama a presença urgente do juiz eleitoral. Sem ser explícito, referia-se a incidente grave, posições exaltadas e recomendava escolta armada.

O juiz, atarefadíssimo, dispensou-se da missão e apelou para o promotor eleitoral atender o caso. O promotor eleitoral convocou para a incerta empreitada o delegado de polícia, que se fez acompanhar do cabo policial militar do destacamento local, armado de revólver e fuzil.

Formada a caravana, foram cerca de trinta e cinco quilômetros em estrada rural, vencidas uma a uma oito porteiras, cada uma representando risco de tocaia. Sufoco total.

Chegaram por volta de 14h. Sãos e salvos, pelo menos até aquele momento.

A única seção eleitoral do distrito estava instalada no Grupo Escolar, na sala da diretora. A cabine indevassável fora improvisada num canto da sala, aproveitadas duas de suas paredes e utilizado o próprio armário da diretora para formar uma terceira parede, tendo à frente um cortinado que, movimentado, dava acesso a ela.

Mesários apreensivos. Fiscais partidários exaltados. Sentado numa carteira escolar, cabeça baixa, olhar de desalento e frustração, verdadeiramente perdido no ambiente estava retido o eleitor que causara todo o transtorno, entrando na cabine, lançando seu voto, dobrando a cédula e colocando-a por uma fresta no fundo do armário da diretora.

Dúvida por toda parte. Votou ou não votou? Pode ou não pode votar de novo? A cédula deve ser colocada na urna ou preservada em apartado? O voto é válido ou nulo?

O promotor eleitoral em nome do juiz decidiu e determinou que o armário fosse aberto, localizada em presença do eleitor a cédula, devendo ele retirá-la com as próprias mãos e depositá-la na urna certa, encerrando o incidente.

Solução certa e justa, porém impraticável. A diretora fechara o armário e levara a chave, indo votar em Presidente Prudente.

A alternativa era arrombar o armário, mas em Domélia não havia nem chaveiro e nem marceneiro. Convocado às pressas o único pedreiro do distrito e providenciado com o açougueiro um adequado pé-de-cabra, o armário foi aberto, a cédula localizada, por volta de 16h40, depositada pelo desalentado eleitor na urna certa. Com suas próprias mãos.

Pessoalmente, como promotor eleitoral participei de tudo, ditei e fiz lavrar o auto de arrombamento do armário, assinando como testemunha o delegado doutor José Geraldo Cremonesi, que garantiu a segurança da caravana na ida e na volta. Nesta volta, encerrada a eleição, com o transporte da urna certa já lacrada, através da mesma estrada rural com trinta e cinco quilômetros, oito porteiras e risco de tocaia. Que pela graça de Deus não ocorreu.

Contada por José Fernando da Silva Lopes

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