Bairros

Clientes pedem ‘cópias’ de edifícios a arquitetos

Thaís Silveira
| Tempo de leitura: 5 min

De acordo com arquitetos que atuam em Bauru, os modismos observados em diversas construções da cidade

muitas vezes são encomendados por seus clientes. Eles

vêem, por exemplo, uma casa bonita numa revista e pedem

ao profissional para projetar algo semelhante.

“Infelizmente, as pessoas já vêm com uma concepção

de moradia ou clínica. Antes de nos procurar, elas olham tudo o que lhes agrada e vêm ao escritório com essas informações. São coisas que eles vêem em revistas, livros, na Internet ou em viagens. Tenho

um cliente que comprou mais de dez livros para fazer

a casa dele”, afirma a arquiteta Artemis Rodrigues Fontana Ferraz.

Ela acredita que isso acontece porque as pessoas não

entendem que participam da paisagem urbana da cidade.

“Toda edificação é pública em sua fachada. Mas a pessoa

que faz uma obra privada não se importa com seu aspecto

público. Ela não acha que está participando desse

todo. Não tem essa visão”, critica.

Artemis acredita, ainda, que a postura do poder público, que não preserva a cidade em boas condições, tornase uma justificativa para que os moradores também não colaborem com a melhora da paisagem urbana.

“É difícil convencer a pessoa se ela olha para a cidade

e ela está toda detonada. As pessoas usam a postura

do poder público como desculpa para não se preocupar

com a identidade visual e a paisagem urbana da cidade”,

frisa.

O arquiteto Edward Albiero também conta que alguns

clientes chegam ao seu escritório com modelos que desconsideram a possibilidade de harmonia com o cenário

urbano.

“Não dá para generalizar. Tem gente que chega com

idéia pronta. Tem gente que vê coisas em revistas e acha lindo. Na parte comercial também tem muito modismo, muita tendência, coisas que acontecem no momento. Varia conforme a situação”, explica.

Albiero concorda que exista uma homogeneidade visual

na cidade. “Esse negócio de Bauru não ter uma cara acaba sendo verdade. Ainda hoje, o ícone é o Vitória Régia, que acabou se tornando o símbolo da cidade”, observa.

O arquiteto acredita que é possível reverter o cenário

através de posturas políticas. “Deve-se aproveitar uma

chance de renovação de situações políticas na cidade para que Bauru volte a encontrar seu eixo administrativo. A cidade está abandonada há 20

anos. É uma vida”, enfatiza.

Sugestões não faltam para melhorar a paisagem urbana

de Bauru. “A cidade é quente e poderia ter uma arquitetura mais aberta e desprendida de modismos”, destaca Artemis.

Para atender a tais requisitos, ela procura projetar

obras rústicas, que utilizam madeira e vidro, ou edifícios de arquitetura “limpa”, com materiais como aço e alumínio. “A gente tenta tornar o gosto do cliente o mais contemporâneo possível. A gente

vai explicando e fazendo isso devagar”, revela.

Para o arquiteto Wagner Domingos, membro da Associação

dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de

Bauru (Assenag), muitas questões urbanísticas podem

ser solucionadas através do Plano Diretor, que está sendo reelaborado em Bauru.

“Tudo se inicia através do Plano Diretor. Acho que a

cidade ainda não o implantou da forma que deveria ter

implantado. O próximo prefeito tem um grande desafio

pela frente. É essencial que o Plano Diretor tenha essa linguagem da paisagem urbana”, defende.

Domingos acredita que é possível criar uma linguagem

arquitetônica própria de Bauru a partir de detalhes pequenos, como paisagismo e alinhamento das construções

em relação à via pública.

“Pode-se trabalhar com a mesma linguagem de arborização

e dos recuos frontais das casas, por exemplo.

O Plano Diretor pode montar essas regras e fazer com

que elas sejam cumpridas. Bauru precisa dessa identificação e o momento-chave é agora”, sugere.

Domingos aponta, ainda, o modismo na arquitetura

como algo natural do ser humano. “A cópia acontece

muito e sempre vai acontecer. As pessoas buscam

identidade pessoal nos lugares por onde passam. É uma

questão humana”, afirma.

Independentemente disso, ele afirma que a situação

demanda vontade política. “O corpo técnico que a

prefeitura tem é fantástico, mas precisa ter diretrizes e elas precisam ser cumpridas”, diz.

Vitória Régia

Na opinião do arquiteto Jurandyr Bueno Filho, o

Parque Vitória Régia, que foi projetado por ele, é uma

marca da cidade que quebra a homogeneidade da paisagem

urbana.

Ele concorda com a afirmação de que falta

identidade visual em Bauru. “Quando eu projetei o

Vitória Régia, eu justifiquei exatamente isso:

que Bauru não tinha uma cara. Concordo que a cidade

não tinha identidade”, destaca.

O arquiteto afirma que Bauru não tem personalidade

em sua paisagem urbana e que o Parque Vitória

Régia tornou-se um elemento importante nesse

contexto. “Cidade muito nova geralmente tem uma

paisagem urbana sem muita personalidade. Hoje, ele

(Vitória Régia) é um cartão-postal da cidade e passou

a ser uma referência de Bauru”, diz.

Bueno Filho cita também a inexistência de acidentes

naturais marcantes. “Não temos um rio como

há em Piracicaba ou uma montanha como o Pão de

Açúcar. Esse cerradão paulista é meio pobre”, avalia.

Na opinião do arquiteto, a falta de identidade visual

da cidade está fortemente relacionada ao seu perfil

desde a origem. “Bauru sempre foi ponto de passagem.

Era um ponto de intercâmbio onde se cruzavam

grandes ferrovias. Nunca tivemos muito o bauruense

porque a cidade ainda é nova”, expõe.

Ele salienta, ainda, que o cenário atual pode ser

modificado através do desenvolvimento sócio-econômico.

“O urbano reflete o desenvolvimento da cidade

e reflete as relações de produção. Vamos dizer,

por exemplo, que venha uma grande indústria a

Bauru. Em função disso, saem prédios de maior valor

arquitetônico. Isso está muito relacionado à economia”,

frisa.

“Não tem uma receita para mudar. É tudo em função

do desenvolvimento econômico”, reforça Bueno

Filho.

Ele sugere, por exemplo, que as mudanças se

iniciem pelo Centro. “Podemos em Bauru fazer

um movimento para modificar a área central -

resgatar o Centro, as fachadas. Temos muitos

prédios bonitos, mas deteriorados na área central”,

observa.

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