O número de pessoas contaminadas com o vírus HIV continua crescendo em Bauru. De acordo com dados do Programa Municipal de DST e Aids, já foram registrados 1.705 casos na cidade, desde 1982 até ontem, e a maior incidência ocorre entre os heterossexuais de ambos os sexos e com idade entre 20 e 49 anos. Somente neste ano, foram 219 novos casos notificados. No Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, Bauru está em 31.ª colocação no ranking dos municípios com maior número de casos de aids no País.
A coordenadora do Programa de DST e Aids, Eliane Monteiro, aponta que 92% das pessoas contaminadas com o HIV em Bauru estão na faixa entre 20 e 49 anos, e que o número de mulheres com o vírus também segue em crescimento. “Essa é a idade em que as pessoas mantêm uma vida sexual ativa, mas muitas ainda têm resistência ao uso do preservativo”, comenta. Para tentar reverter essa situação, a Secretaria Municipal de Saúde promove diversas atividades hoje, no Dia Mundial de Luta Contra a Aids.
Os dados acompanham o cenário nacional. Segundo o último Boletim Epidemiológico, com dados de 2004, 86% do total de pessoas com HIV no País são adultos. No entanto, a contaminação vem crescendo, desde 2001, entre os adolescentes e as pessoas com mais de 50 anos.
Dos 1.661 casos de aids em Bauru para indivíduos com mais de 13 anos, 1.219 são homens, o que representa 73,39%, e 442 são mulheres (26,61%). No País, de acordo com o boletim do Ministério da Saúde, os números da aids entre os homens demonstram a tendência de estabilidade, já que a porcentagem de casos entre homossexuais e bissexuais vem sofrendo redução, de 30% em 1998 para 25% em 2004. Por outro lado, o índice para os heterossexuais tem crescido, de 30% para 42% no mesmo período.
Entre as mulheres, o número de casos é o maior desde o início da epidemia no Brasil, o que motivou a campanha nacional de combate à aids nesse ano, que tem como tema “Mulher: sua história é você quem faz”. Enquanto em 1998 havia 10.566 registros, em 2004 esse número chegou a 18.137 mulheres contaminadas com o HIV. Atualmente, a proporção de casos entre homens e mulheres no País é de dois para um.
Relação sem proteção
Das 442 mulheres bauruenses que contraíram o vírus HIV nos últimos 22 anos, 52% foram contaminadas durante relação sexual. Segundo Monteiro, os números indicam um aumento da contaminação entre pessoas com menor escolaridade e renda, menos esclarecidas sobre a prevenção da aids. “As mulheres se tornam mais vulneráveis à contaminação pela dificuldade de acesso à educação, emprego e informação, e também na dificuldade de negociação com o parceiro para o uso do preservativo”, observa.
A diretora da Sociedade de Apoio a Pessoas com Aids de Bauru (Sapab), Mafalda Sparapan, observa que o número de famílias de baixa renda que vem procurando a entidade também cresceu, especialmente por conta da contaminação das mulheres. “Até o final de outubro, atendíamos na faixa de 70 famílias. Atualmente, esse número já chega a 95, e a maioria das famílias já tem mais de duas pessoas com o vírus, inclusive com crianças”, completa.
Os números do Programa Municipal de DST e Aids apontam que em Bauru já foram notificados 44 casos de crianças com menos de 13 anos contaminadas com o HIV, desde 1982, dos quais 81% tinham menos de 5 anos. Esse é o caso de Rafael (nome fictício), 15 anos, que é acompanhado desde bebê pela Sapab e que foi contaminado por transmissão vertical, ou seja, ainda no ventre de sua mãe ou durante o parto.
O adolescente conta que recebeu a notícia de que era portador do HIV há dois anos, e desde então, tenta lidar com o tema com a maior naturalidade possível, apesar de preferir ocultar isso das pessoas. Para aceitar melhor a situação, ele teve ajuda de uma psicóloga e diz que em nenhum momento, se revoltou com a situação.
“Eu sou um moleque normal, não tenho nada de diferente dos outros. Eu sei que tenho o vírus, mas não discutimos isso em casa, não precisa ficar falando sobre isso o tempo todo. Quando fiquei sabendo, engoli em seco e tive de aceitar. Fiquei com medo das pessoas saberem que eu era portador e do preconceito”, comenta.
De acordo com Mafalda, o número de adolescentes atendidos na Sapab ainda não é grande, mas há diversas crianças portadoras do HIV. “Ainda não existe uma medicação que elimine o vírus, mas existe o empenho em desenvolver medicamentos melhores e mais aceitáveis, que possibilitem uma melhor qualidade de vida aos pacientes”, observa.
Atualmente, Rafael toma 14 comprimidos por dia, mas o coquetel parece não o incomodar. “Eles não me dão nenhum efeito, não tem problema nenhum. Eu já tomava desde criança”, relata. No momento, o garoto não está namorando, mas revela que já ficou com algumas meninas. “Relação sexual só com camisinha, sempre. É uma coisa que eu aceito bem, sei que vou ter de transar sempre com camisinha para não contaminar ninguém”, assume.
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Campanha
De acordo com o Ministério da Saúde, quase metade das pessoas que vivem no mundo com aids é do sexo feminino. No Brasil, atualmente a razão já é de dois casos em homens para cada mulher contaminada. Por conta disso, o tema da campanha de combate à aids nesse ano é “Mulher: sua história é você quem faz”.
As peças publicitárias da campanha, que estão sendo divulgadas em cartazes e folhetos, incentivam as mulheres a serem preocupadas com sua saúde e bem-estar. Andar com camisinha na bolsa e fazer o exame de aids são atitudes indicadas como necessárias para evitar que a epidemia da doença continue a crescer e que devem ser respeitadas pela sociedade.
Segundo as peças da campanha, entre os fatores que tornam as mulheres mais vulneráveis está a dificuldade na negociação do uso do preservativo com seus parceiros. A principal frase da iniciativa é “Quase metade das pessoas que têm aids no mundo são mulheres. Não é este tipo de igualdade que nós queremos”, e o símbolo da campanha continua sendo o laço vermelho, que simboliza a solidariedade.