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Prática envolve aspecto legal e ético

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 3 min

Na avaliação do pesquisador Aníbal Faúndes, professor aposentado da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e presidente do Comitê de Direitos Sexuais e Reprodutivos da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (Figo), a sociedade discute o aborto equivocadamente. Isso porque a questão que se coloca é se as pessoas são a favor ou contra essa prática, quando, para o professor, a grande reflexão é saber se a solução para o problema do aborto é ou não condenar a mulher.

O pesquisador lembra que o aborto é sempre uma experiência traumática, que deixa cicatrizes emocionais nas mulheres que o praticam. “Eu não conheci até agora nenhuma mulher que tenha provocado o aborto e que gostasse, ou alguma pessoa que gostasse que outra pessoa fizesse um aborto”, diz.

De acordo com ele, condenar a mulher que se submete a um aborto não resolve seu problema social. “Condenar a mulher é injusto, é ineficaz e traz grandes conseqüências para a saúde dela e para a sociedade”, destaca.

O pesquisador ressalta que os países que apresentam as taxas mais baixas de aborto são aqueles onde a prática é legalizada e de fácil acesso. “Nós temos no Brasil de cinco a oito vezes mais abortos do que na Alemanha ou Holanda, onde o aborto é permitido, pago pelo Estado. Isso mostra que não é a ilegalidade que faz com que a mulher não aborte”, conclui.

Faúndes explica que esses países têm baixas taxas de aborto porque, ao contrário do Brasil, neles a população tem amplo acesso à educação sexual, informação e métodos contraceptivos. Além disso, esses países oferecem proteção social para as mulheres que engravidam.

Na opinião do pesquisador, as pessoas que se posicionam seriamente contra o aborto no Brasil devem unir esforços para que as mulheres de todas as classes tenham acesso à informação; para que a educação sexual nas escolas e o acesso aos métodos contraceptivos sejam universais; e para que a sociedade proteja a mulher grávida, oferecendo a ela condições de ter um filho. “ Essa é a forma de combater o aborto, o resto é hipocrisia”, conclui.

Sem justificativa

Para o professor de filosofia da Universidade do Sagrado Coração (USC), Carlos Alberto Albertuni, do ponto de vista ético, nada poder justificar a decisão de uma pessoa tirar a vida de outra, mesmo em condições sociais adversas. “Todo mundo hoje tem um consenso de que o ser humano não pode ser manipulado. Ele tem uma dignidade e por isso nenhum ser humano pode ser instrumentalizado. Isso é um consenso razoável”, defende.

Na avaliação dele, o homem tem de ser definido por aquilo que ele é em essência. Por isso, segundo o professor, a vida deveria ser respeitada desde o momento da concepção, quando o embrião já é potencialmente um ser humano.

“Um ser é tanto aquilo que é atualmente quanto aquilo que ele é potencialmente. De um embrião ou de um feto, se houverem condições, fatores que possam desencadear todo esse crescimento, vai sair um ser humano”, define.

Na opinião de Albertuni, não há justificativas morais para o aborto. “Até os casos que hoje são previstos em lei, se você olhar por um ponto de vista ético, ferem o princípio da vida”, destaca o professor, para quem a prática do aborto deve continuar sendo considerada crime.

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