O que você acha de passar o Natal internado em uma cama de hospital ou acompanhando a saúde de um ente querido no mesmo local? Ou mesmo deixar a família e as tradicionais ceias natalinas de lado para cumprir obrigações profissionais no trabalho? Ruim, não é mesmo? Não é o que pensam muitas pessoas que, ontem, em pleno dia de celebração do nascimento de Jesus, vivenciaram justamente estas situações. Mais do que bom humor, elas demonstram, em uma bela lição de vida, que nem só de tristeza vivem essas instituições.
Prova disso é a bauruense Maria Luiza Damásio, que ontem completou o quarto dia de internação no Hospital Estadual Arnaldo Prado Curvêllo para curar-se de problemas renais. Risonha e em alto astral, ela reconhece que passar o Natal no hospital não é fácil, mas com um pouco de calma vai “tirando de letra” o percalço. “Tem de ter jogo de cintura e ficar sossegada, senão, aí é que a gente não sai daqui”, enfatiza
Segundo Maria Luiza, o que também ajuda a superar o período de cama é a atenção e a interação dos enfermeiros e demais trabalhadores da instituição. “Eles sempre estão perto da gente, conversam e brincam muito e raramente deixam a gente sozinho. Assim, ficamos mais à vontade e o tempo passa mais rápido”, sustenta.
Ela só lamenta, no melhor espírito natalino, não ter conseguido ver um Papai Noel que visitou o hospital e também não ter tido alta a tempo de passar a data perto da família. “Isso teria sido um grande presente de Natal para mim. Meu marido até tentou, mas não deu certo. Perdi até o Papai Noel que esteve por aqui”, comenta Maria Luiza, rindo.
Outra que encarou com extremo senso de humor a necessidade de ter passado o Natal na cama do Hospital Estadual foi a bauruense Lázara Elias Neves dos Santos, 72 anos. Internada para tratar-se de uma crise de asma, sabia na ponta da língua o cardápio da ceia que não pôde desfrutar. “Perdi um festão na minha casa. Fizeram frango, maionese, vinagrete e pão. Mas acho que se estivesse lá não teria comido tudo isso”, afirma.
Apesar disso, ela ressalta que passou muito bem o Natal. “Graças aos enfermeiros e aos médicos, fico contente que estou sarando e me curando. Ficar aqui não é triste, ainda mais para mim que sou conversadeira e faço amizade fácil. A gente até se diverte”, enfatiza Lázara. Ela revela, ainda, não ser a primeira vez que se interna justamente na véspera do Natal. “Já passei pela mesma situação outra vez”, conta.
Nem mesmo quem permaneceu de plantão para trabalhar no hospital reclama. Casos da técnica de enfermagem Flávia de Oliveira e da auxiliar de enfermagem Jiannie Carolina, que afirmam que, apesar da época, a rotina é tranqüila. “Nessa data as coisas ficam mais calmas, pois muitos pacientes pedem para sair para poder passar o Natal junto com as famílias”, explica Flávia. “Gostamos de trabalhar e não há razões para acharmos ruim”, completa Jiannie.
O pensamento delas também é compartilhado pela enfermeira-chefe Maria Fernanda Dantas di Flora, que se formou na área há um ano e, pela primeira vez, teve a incumbência de trabalhar no Natal. “Encaro com tranqüilidade, pois a rotina é a mesma”, destaca. Nem mesmo a possibilidade de passar a data em uma praia - foi o que a família fez - a desanima. “A vontade de trabalhar é maior”, salienta.
No asilo
Quem também não tinha motivos para queixar-se de passar o Natal no Asilo da Vila Vicentina era Ângelo Gonçalves. Na instituição desde maio de 1995, quando veio da Capital para Bauru, considera-se feliz por estar onde está. “Basta estar com saúde para o Natal ser bom, e disso não tenho do que reclamar”, afirma, orgulhoso.
Nem mesmo a ausência da visita de familiares e de amigos é suficiente para lhe deixar de “baixo astral”. “Meus parentes são meus amigos e companheiros aqui da cidade e do asilo. Além disso, basta ter amor em Deus que tudo dá certo”, pondera. “Assim, não tenho vontade nenhuma de ir embora daqui”, acrescenta.
Outro integrante do asilo de bem com a vida é José Reginaldo, há seis meses na instituição. “Quem acha que asilo é lugar apenas de gente triste se engana. Deus tem poder para tudo na vida. Além disso, todo mundo é bom aqui”, diz. Mas ele revela que só duas coisas o deixam cabisbaixo. “O fato de ter poucos dentes na boca e enxergar mal em um dos olhos. É o que me desanima um pouco. Mas Deus nos conforta”, conclui.