Estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca) prevê o diagnóstico de aproximadamente 14 mil casos novos de câncer bucal no Brasil em 2005. Apesar de não estar entre os tumores malignos mais prevalentes na população, o número preocupa porque 80% dos casos só são descobertos em estágio avançado, quando praticamente não existe possibilidade de cura.
O assunto foi um dos destaques do 23.º Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo (Ciosp), realizado essa semana na Capital paulista. Paralelamente aos debates, cerca de 4 mil pessoas foram avaliadas gratuitamente pela “Campanha de Prevenção Detecção Precoce do Câncer de Boca”, coordenada pela Associação Paulista dos Cirurgiões- Dentistas (APCD).
Segundo a estimativa, Brasil deverá registrar aproximadamente 470 mil casos novos de câncer no decorrer de 2005. Deste total, 14 mil casos deverão atingir a boca. Pode parecer pouco em relação ao total, no entanto, câncer bucal ocupa o nono lugar entre os demais tumores no índice de mortalidade. Ou seja, apesar de ser menos freqüente, ele mata proporcionalmente mais.
De acordo com o presidente do Congresso, Salvador Nunes Gentil, o grande problema é que o câncer bucal pode passar despercebido por muito tempo. “As feridas cancerígenas que aparecem na cavidade oral são assintomáticas. O paciente só começa a sentir dor quando a doença está em estágio muito avançado. Hoje, 80% dos diagnósticos são feitos tardiamente”, afirma.
Descoberta em fases avançadas, a doença reduz drasticamente a qualidade de vida do paciente e estima-se que pelo menos 60% deles terão uma sobrevida máxima de cinco anos após o diagnóstico.
Além disso, segundo o cirurgião, a base do tratamento é a intervenção cirúrgica. É preciso remover o tumor e todo o tecido em volta dele – a chamada extensão preventiva. “Com um diagnóstico tardio, dependendo da extensão cirúrgica e dessa perda residual, você pode ter que mutilar o rosto do paciente ao ponto de tirá-lo do convívio social”, salienta.
A boa notícia é que o câncer bucal está entre as neoplasias de mais fácil diagnóstico, segundo os especialistas. Basta observar o que ocorre dentro da boca. Isso pode ser feito facilmente com a realização periódica de um auto-exame (confira abaixo).
“É muito simples. Você só vai precisar de um espelho e de um ambiente bem iluminado. Você vai observar se existe alguma alteração na mucosa (‘pele’ que reveste o lado interno da boca), como feridas, saliências, manchas brancas ou manchas avermelhadas”, descreve.
Gentil ressalta que as feridas cancerígenas são muito diferentes das populares aftas. “Primeiro porque as aftas dóem e o câncer, inicialmente, não. Além disso, as aftas têm um ciclo, que dura entre sete e 15 dias. Se você descobre uma ferida na boca e ela não cicatriza depois de 15 dias, então você deve procurar um cirurgiãodentista o mais rapidamente possível para avaliar essa lesão”, acrescenta.
Simples, rápido e objetivo, o auto-exame bucal pode ser feito diariamente se a pessoa quiser. Recomenda-se que seja realizado pelo menos uma vez por mês, acompanhado de uma avaliação anual feita pelo dentista.
Fatores de risco
Descuidos com a higiene estão entre as principais causas do câncer bucal, segundo especialistas. Estudos apontam que 50% das pessoas acometidas pela doença fazem parte da população carente e analfabeta. A recomendação geral é realizar a higienização bucal pelo menos três vezes ao dia ou após cada refeição, usando escova e fio dental.
Mas as agressões à mucosa também aparecem como importantes fatores de risco para o desenvolvimento da doença, segundo Gentil.
“O cigarro e o consumo exagerado de bebidas alcoólicas facilitam muito o aparecimento da doença, pois as substâncias danificam insistentemente a mucosa”, afirma.
“E temos também as agressões mecânicas. Uma delas é o uso de próteses (dentaduras, aparelhos, ‘pontes’) mal ajustadas, cujo atrito promove lesão na pele. Outra situação também comum são as autoagressões: pessoas que passam horas mordendo lábios e bochechas. As lesões repetidas também podem evoluir para câncer”, encerra.
____________________
Faça o auto-exame
1.De frente para o espelho, num local bem iluminado, observe e toque a pele de todo o rosto. Verifique se há manchas ou caroços e se há regiões com menor ou maior sensibilidade que o normal (adormecidas ou doloridas).
2. Com a boca aberta, observe se há alguma alteração aparente na mucosa, como pontos esbranquiçados ou escuros, ou se existe alguma diferença entre um lado e outro da boca.
3. Puxe o lábio inferior para baixo e observe a parte interna. Apalpe, verificando se há alguma ferida ou alteração na cor da mucosa ou gengiva. Faça o mesmo com o lábio superior.
4. Com o dedo indicador dentro da boca, afaste a bochecha dos dentes e apalpe toda a mucosa. Depois, passe o dedo pela gengiva e perceba se há lesões, sangramentos ou regiões doloridas.
5. Deslize o dedo indicador por baixo da língua, apalpando todo o assoalho da boca. O polegar deve ficar sob o queixo para dar apoio.
6. Com a cabeça inclinada para trás, diga 'aaa' e observe se há alterações na garganta. Aproveite para olhar e apalpar também o céu da boca.
7. Ponha a língua para fora e deslize os dedos sobre ela. Observe a parte superior, olhe embaixo da língua e puxe-a para um lado, depois outro, observando toda ela em busca de lesões ou alterações de cor.
8. Por fim, usando os dedos polegar e indicador das duas mãos, toque o pescoço e o queixo, verificando se há alguma diferença (caroço, inchaço) entre um lado e outro. Em caso de dúvida, peça ajuda de um dentista ou médico.