O universo da pesca é realmente surpreendente. Como diria o amigo e pescador Celso Couto Júnior: “É mais fácil encontrar uma mulher para casar, do que um companheiro de pesca!”. Com a frase, Celsão traduz a importância da relação de amizade entre os pescadores durante a viagem. Mas há aqueles que ganham duas vezes na loteria e descobrem que além de uma esposa amiga e companheira, também têm uma pescadora.
Com o casal Laurindo Cavassan, 80 anos, e Alice Tamani Cavassan, 75 anos, que já completou 55 anos de união celebrada com pelo menos três pescarias anuais no rio Paraguai, foi assim. Além de outras tantas viagens a passeio em Bertioga, onde a dupla também pesca, e em seu rancho, às margens do rio Batalha, em Avaí.
Mas não foi bem a pescaria que uniu Alice e Laurindo, na verdade, foi a vontade de estarem juntos que uniu ambos à pescaria. Recém-casados, Laurindo, que na época era apaixonado por caça e trabalhava em uma empresa de ônibus de Bauru, às sextas-feiras já se reunia com os amigos do trabalho em um caminhão, tralha de caça e cães para aventuras em busca de capivaras e outros animais.
Alice, que não se familiarizava muito, aceitava, mas não gostava de ficar em casa no fim de semana. Quando Laurindo conseguiu comprar seu primeiro carro, um Jeep, veio a solução. “Antes do Laurindo convidar os amigos para caçar e pescar no fim de semana, me adiantei: agora quem vai com você sou eu!”
Com os meninos ainda pequenos, o quarteto começou suas pescarias em família e não parou mais. Os filhos Osmar, 54 anos, e Luís Artur, 50 anos, também acompanhavam. Este último, até hoje não abre mão de uma boa pescaria e aproveita o freezer da mãe para guardar seus peixes. “Quando ele demora para vir buscar, eu só aviso: ‘tô fazendo seus peixes’. Aí ele vem rapidinho.”
Mas esse privilégio de ter uma esposa que pesca e gosta de aventura não é só do senhor Laurindo. Em Bauru, os casais Prudência e Bariri (amigos dos Cavassan) e Felisdeu e Eunice Leão também não perdem uma oportunidade de desfrutar dos bons momentos às margens de um rio.
Em poucos minutos de conversa, são muitas as histórias para contar. Seu Laurindo lembra com saudade das pescarias no rio Araguaia, onde teve a oportunidade, há quase dez anos, de pegar um exemplar de pirarucu de mais de 80 quilos. “Partimos em cinco amigos para o Araguaia, isso faz tempo, e foi uma pescaria especial. Precisávamos subir o rio de barco por quase duas horas e depois carregá-lo até chegar em um grande lago, onde estavam os pirarucus.”
Diferente da pesca tradicional, com vara e anzol, o peixe era capturado na “fisga”. “Você ficava em pé no barco, observava a lagoa até achar o peixe quando ele sobe, aí tem que acertar a lança. O pirarucu é forte, briga, arrasta o barco por quase uma hora. É uma grande aventura.” Além dos pirarucus, eles tiveram a oportunidade de pegar tucunarés e pintados. “Ficamos em um rancho na cidade de Bandeirantes (GO).”
Laurindo lembra com saudade do companheiro de pesca José Arouca, morador de São Carlos, que o acompanhou naquela aventura. “Ele era um nadador excelente, conhecedor de rio, lagos. Sempre auxiliava o Corpo de Bombeiros em operações que exigiam mergulhos nessas situações. Ele também salvou a vida de muita gente”, comenta. Zé Arouca, como era conhecido, faleceu há mais de sete anos, com um infarto fulminante às margens do rio Mogi Guaçu.
Mais pesca
Pescador desde menino, quando de calças curtas ajudava o pai a pegar lambaris nos riachos de Pederneiras, Laurindo, acompanhado da esposa Alice, não tem preconceitos com tamanhos de peixes ou rios. “Já pescamos em tantos lugares, em rios como Tocantins, Araguaia, Guaiporé, Coxim, Miranda, Paraguai, Aquidauana, mas não deixo de pescar lambaris e piaus no Batalha.”
Alice só lamenta ainda não ver o rio Tietê, principal do Estado de São Paulo, totalmente despoluído. “Há peixes, mas ainda tem muita poluição.” Com muito bom humor e uma energia invejável, a dupla já tem viagens marcadas para março, em Bertioga, e abril, quando vão rodar mais de um mil quilômetros para pescar no rio Paraguai, onde têm um rancho há 12 anos.
Aposentados, com a tralha sempre à mão e isca para o ano todo, pois Alice faz questão de preparar o jenipapo com um sabor especial para os pacus, eles já pescaram de tudo. “Uma vez, estávamos pescando à noite, no rio Paraguai, em frente ao rancho. De repente, começou a puxar na minha vara. Puxa daqui, vai, passa por debaixo do barco, leva linha, faz força. E eu numa expectativa tremenda para ver o peixão que iria aparecer. Não tinha idéia, estava com uma sensação de suspense. Foi quando o bicho subiu. No que ele apareceu na superfície, viu o barco, já virou e arrebentou a linha com o maior estrondo. Era um jacaré”, finaliza, empolgada, a pescadora Alice.