Bairros

Praticantes sofrem preconceito

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 3 min

Num País onde a liberdade de manifestação religiosa é assegurada pela Constituição, não é raro encontrar ainda hoje manifestações discriminatórias - de forma velada ou declarada - contra os cultos de origem afro-brasileira. Em Bauru, adeptos da umbanda e candomblé, pais e mães-de- santo, relatam suas dificuldades

“A gente sofre com isso. Somos muito malhados e marginalizados por todos”, desabafa o pai-de-santo Paulo Roberto Mauad, que possui um terreiro no Jardim Carolina.

Opinião semelhante tem Vanderlei Aparecido Zancheta, 31 anos, que é adepto do candomblé há três anos.

“Pensam que o candomblé é magia negra, matanças de bichos. A gente está aqui principalmente para fazer o bem para outras pessoas, benzê-las e ajudá-las”, descreve o filho-de-santo, que afirma não se intimidar com o preconceito e declarar oficialmente sua religião.

Ao assumir o candomblé, Ana Paula Fabi, 23 anos, afirma que enfrentou reações contrárias dentro da própria família, entretanto não desistiu de suas crenças. “Meu tio virou a cara, mas nem por isso a gente se importou”, diz. “Acho que ele tem medo só porque é uma religião praticamente de negros”, conclui a afro-descendente.

Para a mãe-de-santo Roberta Miriam Amorim, a associação do candomblé com o mal é resultado da desinformação em torno de seus rituais. Opinião semelhante compartilha Débora Cristina Zancheta, 16 anos. Membro de uma família católica, ela admite que, antes de freqüentar um terreiro, sentia medo quando falavam sobre o assunto. “Por não ter conhecimento, achar que é um bicho-de-sete-cabeças, isso acontece”, observa ela, que hoje, ao lado do catolicismo, tem o candomblé como religião.

Muitos adeptos de umbanda e candomblé, segundo o professor de cultura brasileira da Unesp, Luiz Fernando da Silva, também se definem como católicos, ou seja, mantêm vínculo com as duas religiões.

“Macumbeiro”

Na avaliação de Silva, ao longo da história ocorreu um processo de associação das religiões afro-brasileiras a rituais malignos.

A imagem pejorativa do “macumbeiro”, por exemplo, é herança dessa representação social criada em torno da umbanda e candomblé – em um tempo em que não se concebia liberdade para o exercício de outras crenças religiosas.

“Evidentemente, isso faz parte de um imaginário discriminatório, que tem como ponto de referência a moral cristã católica”, afirma o professor. “Por outro lado você tem um racismo encoberto, que fica por baixo de uma chamada democracia racial, que discrimina essas manifestações envolvendo negros e seus descendentes, que as considera inferior”, completa.

O professor afirma que, recentemente, esses rituais também passaram a ser alvo preferencial de representantes de igrejas neopentecostais, que ganharam grande representação nos meios de comunicação de massa, como a televisão. Para a professora da Unesp Dalva Aleixo, pesquisadora de cultura religiosa, essas críticas seriam uma forma de disputa por novos seguidores.

A pesquisadora diz que nos últimos anos houve um certo declínio de adeptos das manifestações religiosas afro-brasileiras, o que teria provocado inclusive o fechamento de alguns terreiros em Bauru. Ela acredita que o fato esteja relacionado à expansão do movimento neopentecostal. “Muitos pais-de-santo viraram evangélicos”, diz.

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Vizinhos

Moradores vizinhos a dois terreiros (de umbanda e candomblé), consultados pelo JC, afirmaram não se sentirem incomodados com os ritos religiosos.

“Para mim não perturba nada. Cada um tem uma religião e segue aquilo que acha que deve ser certo”, afirma Aparecido Peres Barreira, 64 anos, que é vizinho de um terreiro no bairro Joaquim Guilherme.

A dona de casa Cleide Rodrigues, 35 anos, que mora ao lado de um templo de umbanda no bairro Nova Bauru, também afirma não ter reclamações. “O barulho não me incomoda e eu também nunca ouvi alguém reclamar. Eu sou evangélica, mas não tenho preconceito. Assim como eu gosto que as pessoas respeitem minha religião, eu respeito a dos outros”, diz.

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