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Projeto Rondon reacende boas lembranças em bauruenses

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

O Projeto Rondon, que foi reativado recentemente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ainda vive de forma intensa na memória de muitos bauruenses. Universitários e professores que participaram do programa federal em sua primeira versão - que durou de 1967 a 1989 - guardam com carinho os momentos que passaram em cidades distantes do Norte do País.

Akira Kawasaki não participou do projeto, mas não esquece a repercussão que ele teve na época. Tanto que, ao ouvir dizer que o projeto seria retomado pelo presidente da República, foi o primeiro a entrar em contato com a Redação do JC e sugerir uma reportagem sobre o tema.

A jornalista Rosane Coutinho, que iniciou a sua temporada no programa em 1976, quando cursava comunicação social na Fundação Educacional de Bauru (FEB), diz que ficou muito feliz ao saber da retomada do projeto pelo governo. “Se pudesse, participaria novamente”, frisa.

Primeiro, ela atuou em uma equipe multidisciplinar, que foi enviada para a cidade de Corguinho, no Mato Grosso do Sul.

A função dela era divulgar as atividades realizadas pelo grupo. “Tudo era muito precário. Usávamos o autofalante da igreja e o mimeógrafo da escola para imprimir uma página de jornal que colávamos na única agência dos Correios, nos bares, na pensão”, conta Rosane.

Ela diz que já tinha idéia do que iria encontrar ao desembarcar na cidade atendida pelo projeto. Mesmo assim, as diferenças culturais e estruturais causaram surpresas. “A impressão que tive ao chegar lá é que estava em um vilarejo do século passado: cavalos nas portas dos bares, uma única pensão, duas ruas principais, casas feitas de pau a pique...”

Apesar da carência local, Rosane conta que não se sentia desmotivada. “Era uma alegria saber que poderia trabalhar em prol da comunidade.”

Pioneirismo

Bauru tinha um campus avançado na cidade de Humaitá, no Amazonas. Para lá, eram enviados periodicamente vários estudantes para atuar em suas respectivas áreas. Francisco Dal Médico foi um dos coordenadores do Projeto Rondon e esteve algumas vezes em Humaitá.

O professor do departamento de ciências biológicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Osmar Cavassan, também foi coordenador de área do projeto. Ele salienta que a cidade foi uma das pioneiras a se inscrever no Rondon. “Logo que a idéia foi lançada pelos estudantes do Rio de Janeiro, os universitários de Bauru demonstraram interesse em participar.”

Ele lembra que o governo federal, na época na mão dos militares, encampou o projeto com o intuito de “tomar posse” da região, até então pouco populosa e com grande abertura para a dominação estrangeira. “O lema era ‘integrar para não entregar’”, salienta.

O professor conta que a Aeronáutica tinha quatro aviões para levar os estudantes de várias partes do Brasil para os locais atendidos pelo projeto. “Os participantes ficavam 40 dias nas cidades que faziam parte do programa, atuando em suas respectivas áreas”, destaca.

Em sua viagem para Humaitá, Cavassan encontrou um Brasil que ele não conhecia. “Era uma realidade muito diferente do que tínhamos por aqui”, recorda.

Conflitos de terra, doenças endêmicas como a malária, rios como principais vias de acesso, umidade, calor... tudo isso resumia o cenário encontrado por Cavassan em seus trabalhos no Rondon.

Ele destaca que muitas pesquisas que beneficiaram todo o País na área de medicina, principalmente, nasceram no Projeto Rondon. “Foi uma oportunidade ímpar de conhecer o Brasil”, afirma.

Casamentos

O Rondon foi uma via de duas mãos para os seus participantes. Os universitários que partiam de vários Estados levavam seus conhecimentos para as terras atendidas pelo projeto, mas ganhavam em troca experiência e um aprendizado que só o contato pode propiciar.

O coronel aposentado da Polícia Militar (PM) Domício Silveira foi um dos coordenadores do programa em Bauru, na década de 70.

Ele conta que viu e viveu muitas histórias interessantes nessa sua participação.

Uma delas diz respeito ao casamento de estudantes com moradores locais. “Nas regiões atendidas pelo projeto havia muitos fazendeiros ricos, cujos filhos não encontravam pretendentes na região em que moravam. Conheci muitas moças e moços que foram para lá, casaram e acabaram ficando de vez no local”, recorda.

Outro exemplo de troca cultural ocorreu entre estudantes da área da saúde e as índias que viviam no Norte do País. “Muitas pessoas foram para lá com o objetivo de ensinar às índias a fazer um parto e acabaram aprendendo muito mais com elas, que estavam acostumadas a ter filhos naturalmente, na própria tribo”, narra o coronel.

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O novo Rondon

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu reativar o Projeto Rondon para ocupar uma área bastante problemática no extremo oeste do Amazonas: uma região de tríplice fronteira, rota de traficantes, guerrilheiros e Organizações Não-Governamentais (ONGs) a serviço da biopirataria.

No último dia 18, cerca de 200 estudantes e 40 militares foram enviados para Tabatinga com o objetivo de fazer um diagnóstico da realidade social de 13 lugarejos nas proximidades do município amazonense. Os relatórios organizados pelos participantes do projeto vão servir para órgãos públicos traçarem projetos destinados à população local.

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