Cultura

O retorno do metal

Diego Molina
| Tempo de leitura: 6 min

Os metaleiros com longas cabeleiras, camisetas do Iron Maiden e brandindo as mãos com os dedos indicador e mínimo para cima, de fato, envelheceram. Filhos do heavy metal surgido na década de 1980, eles acompanharam o sucesso das bandas e choraram seu quase-esquecimento na década de 1990. Atualmente, já respeitosos membros da sociedade, muitos mantêm viva a paixão pelo estilo e continuam seguindo, além das bandas tradicionais, o surgimento de uma nova cena no metal mundial.

Um exemplo é o professor André Renato Fadel, fã de rock’n’roll desde que os Beatles invadiram novamente as rádios em 1980, por conta da morte de John Lennon, e apreciador de metal desde a primeira audição de um disco da banda inglesa Iron Maiden, na mesma época. Ademais de seguir a carreira das bandas clássicas do gênero, surgidas em sua maioria nos anos 80, ele é ávido descobridor e divulgador de novos artistas entre seus amigos e alunos.

“Nunca deixo de escutar coisas novas. A coisa mais legal do mundo é conhecer uma banda nova, escutar e ver que é legal. Tenho um armário grande lá em casa, ainda cabe muita coisa (risos)”, brinca o professor. Na sua opinião, é importante que os fãs do gênero valorizem os bons músicos e incentivem os novos apreciadores a conhecer os melhores artistas, para formar seu conhecimento musical com qualidade.

Admirador de metal melódico, ele aponta uma renovação no cenário musical do gênero, com o surgimento de boas bandas a partir do final da década de 1990. “Essa cena começou a explodir novamente nessa época não como fenômeno de um país, mas de forma internacional. Hoje, um dos países que gera as melhores bandas de metal melódico é a Finlândia”, comenta e cita grupos como Nightwish, Sonata Arctica, Stratovarius e Children of Bodom.

O gerente comercial Eduardo Araújo concorda com o estabelecimento de uma nova onda do gênero, oriunda não só nos Países Nórdicos, mas em toda a Europa. “Atualmente há bandas ótimas na França, como Heavenly, e na Itália, como Labyrinth, Rhapsody, Vision Divine e Frozen Tears. A Itália era um país sem tradição no metal e agora tem uma cena muito forte”, diz.

Uma das principais comprovações da nova onda metal é o ressurgimento e o sucesso dos principais festivais do estilo na Europa. Enquanto a Inglaterra sedia os principais eventos de brit-pop, hard rock e rock alternativo, os maiores festivais de heavy metal dividem-se por praticamente todo o verão na Alemanha, Holanda, Suécia e Itália.

“Realmente acho importante conhecer bandas novas. É isso que faz um gênero como o metal voltar com tanta força. Muita gente critica, diz que as bandas são todas iguais, e realmente há coisas parecidas, mas cada uma tem sua característica e tem de ser respeitada”, frisa Araújo.

De acordo com Fadel, os reflexos do crescimento do gênero já são sentidos no Brasil, com a vinda de shows das principais novas bandas, e também o surgimento de grupos nacionais com som de qualidade. “Muitas bandas da cena de São Paulo ficaram no anonimato na década de 1990, mas agora estão voltando. Há muitas bandas no Interior também, como a Eyes of Shiva, que é da região de Bauru e já lançaram CD no Japão e na Europa”, destaca.

Na Internet

O desenhista Randal Glauco Bergamasco Dias também é um fã de rock “das antigas”, mas não deixa de procurar por novas bandas e novos movimentos. Ele conta que, atualmente, tem ouvido muito metal industrial, uma fusão do estilo roqueiro com elementos de música eletrônica. “Há várias bandas fazendo esse som, é uma coisa que tem se destacado no cenário musical, principalmente, da Alemanha”, indica. Como exemplos, ele cita as bandas Rammstein, Megahertz e KMFDM.

De acordo com Dias, mesmo com o destaque de novas bandas do gênero na mídia internacional, ainda há dificuldade em colocar as mãos em lançamentos mais recentes e informações sobre os grupos. A saída encontrada pelos fãs é a Internet, especialmente para baixar as músicas.

“Eu procuro as bandas que já conheço e conheço coisas novas pela Internet. Os comunicadores (de mensagens instantâneas) e o Orkut ajudam bastante a manter contato com pessoas que também gostam dos grupos. Estou em algumas comunidades do Orkut em que só discutimos rock alemão”, comenta o desenhista.

Conheça as bandas

EDGUY

Formada em 1992 na Alemanha, a banda é um dos maiores sucessos na cena do heavy metal melódico atualmente. Em 1995, os quatro amigos adolescentes Tobias Sammet, Jens Ludwing, Dirk Sauer, Dominik Storch lançaram um primeiro CD independente e caminharam para o primeiro trabalho profissional, “Kingdon of Madness”. Atualmente, a banda já tem seis discos e passou pelo Brasil no ano passado.

NIGHTWISH

Banda da Finlândia composta atualmente por Tarja Turunen, Tuomas Holopainem, Erno Vourinem, Jukka Nevalainem e Marco Hietala, já lançaram seis discos desde 1997. A banda de metal melódico tem como diferencial o vocal feminino, que ganhou fãs entre os adolescentes e também veteranos do rock.

SONATA ARCTICA

Também da Finlândia, a banda surpreendeu os fãs do metal e a crítica com seu primeiro disco, lançado em 1999, superado pelo segundo, de 2001. Ambos foram apontados como musicalmente e tecnicamente maduros e de som poderoso.

TRISTANIA

Os vocais doces de Osten Bergory confrontam a voz gutural de Kjetil Ingebrigtsen nesta banda da Noruega, que já lançou quatro albuns. O som mescla elementos de rock e metal gótico, com música clássica e industrial.

RHAPSODY

Banda italiana de metal melódico, formada na década de 1990 e que se apresentou no Brasil em 2001. Os discos da banda seguem uma espécie de saga, retratando uma luta do bem contra o mal. As capas e encartes são repletos de referências, para deixar qualquer fã de “Senhor dos Anéis” maluco.

EYES OF SHIVA

Banda da região de Bauru, surgida em 2001 e formada por André Ferrari, Ricardo Gil, Gustavo Boni, Renato Mendes e Ricardo Longhi. Com influências de música latina e étnica, o primeiro disco da banda, lançado em 2004, tem produção de Fábio Laguna e Dennis Ward, e foi bem recebido nas cenas de metal do Japão e da Europa.

Origem

Há controvérsias sobre a primeira vez em que a expressão “heavy metal” (metal pesado) foi usada para descrever o estilo musical, apesar da utilização em artigos científicos e no campo militar.

Em termos musicais, a primeira referência é o álbum “Featuring The Human Host And The Heavy Metal Kids”, da banda Hapshash & The Coloured Coat, de 1967. Como o disco não traz nada de heavy metal, a música “Born to Be Wild”, do grupo Steppenwolf, de dois anos depois, é considerada a pioneira da expressão, com os versos “I like smoke and lightning / Heavy metal thunder / Racin’ with the wind/ And the feelin’ that I’m under” (Eu gosto de fumaça e relâmpago / trovões de metal pesado / Correndo com o vendo / E a sensação à qual estou sujeto).

De acordo com o site Wiplash.net, em 1971 a revista Creem usou a expressão como gênero musical pela primeira vez, para classificar o álbum “Kingdom Come” de Sir Lord Baltimore.

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