Cultura

País terá primeiro canal público internacional

Por Agência Brasil | Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

O primeiro canal público internacional brasileiro deve entrar em funcionamento ainda este ano. Já estão definidos os critérios para a grade de programação. No dia 24 de fevereiro, o Comitê Gestor encarregado de discutir o projeto de prestação de serviços televisivos para o exterior definiu o conteúdo que será veiculado em uma primeira etapa, voltada para o continente sul-americano.

A programação dará destaque ao conteúdo jornalístico, com a produção de telejornais e exibição de documentários. Também comporão a grade programas culturais que tratarão de temas como a música e o cinema do Brasil e de outros países da América do Sul. Inicialmente, será formada uma grade de seis horas inéditas, sendo duas de conteúdo jornalístico e quatro de retransmissão de acervos de emissoras parceiras do setor público e privado.

Essa foi a primeira decisão do comitê após a transmissão realizada no final de janeiro, em Porto Alegre, durante o 5.º Fórum Social Mundial. A experiência da emissora-piloto vai contribuir para a montagem da equipe jornalística do canal, que produzirá em espanhol debates, entrevistas e um telejornal com notícias do Brasil e dos países da América do Sul. Para informar os brasileiros sobre os principais acontecimentos do país, será retransmitido, em português, o telejornal Repórter Nacional, produzido pela Radiobrás.

O canal nasce com o intuito de fortalecer o processo de integração do continente sul-americano, por meio da participação de emissoras públicas e privadas, produtoras e associações do Brasil e de outros países.

No Brasil, está em andamento uma parceria com o Ministério da Cultura, que desde 2003 acompanha o projeto por meio do secretário do Audiovisual, Orlando Senna. Está em negociação, também, a recuperação do acervo do extinto canal Cultura e Arte.

Outro objetivo do comitê é fortalecer a Associação Brasileira de Emissoras Públicas e Educativas (Abepec). Por intermédio de acordos de cooperação, o canal internacional poderá trabalhar, inicialmente, com o acervo das emissoras públicas, estimulando a produção de conteúdo. Co-produções estão previstas para uma segundo momento do projeto. Também é prioridade fomentar as produtoras independentes.

O canal abrirá um espaço para a veiculação de conteúdos que, muitas vezes, ficam restritos à exibição em festivais. Por fim, parcerias com emissoras privadas poderão complementar a programação. O Comitê Gestor, cuja função é operar o funcionamento editorial e administrativo do projeto de prestação de serviços de televisão para o exterior, foi criado por um decreto presidencial em setembro de 2004.

Compõem esse grupo seis representantes dos três poderes da República: Radiobrás, Itamaraty e Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom), como também representantes do Executivo, do Legislativo, com as TVs Senado e Câmara, e do Judiciário, com a TV Justiça.

Política

Embora seja bem-vinda, a notícia do primeiro canal público internacional do Brasil traz especulações sobre um eventual fim político das transmissões. Ainda assim o pesquisador e professor João Baptista Winck, que ministra aulas para o curso de rádio e televisão da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é otimista.

“Sempre mais um canal dessa natureza é bem-vindo para nós. Além de ser mais uma fonte de mercado de trabalho, pode ser uma maneira de se construir uma TV diferenciada, com uma proposta de audiovisual diferenciada e, evidentemente, com o objetivo de divulgar a cultura brasileira”, diz.

Ele espera que o formato do canal seja semelhante ao da BBC internacional e ao da TV Cinq, francês, que têm foco na cultura nacional e perfis diferentes da TV aberta.

“Temos hoje, no Brasil, uma grande produção audiovisual reconhecida internacionalmente. Mas falta investimento e políticas de comunicação que abram esse caminho”, acredita o professor.

A respeito dos possíveis fins políticos do canal, Winck afirma que “todo cuidado é pouco”. “Esse tipo de possibilidade existe. A gente sabe que os meios de comunicação brasileiros são poderosos veículos de utilização política. Algumas famílias de políticos detêm os principais meios de comunicação do País e corremos esse risco”, argumenta.

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