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Herói por encomenda


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Quando os militares positivistas proclamaram a República, no ano de 1889, encontraram um problema: o povo brasileiro não sentia profundas motivações patrióticas, não era nacionalista, nem se inclinava a participar das atividades políticas. O que fazer? Um general propôs que se reverenciasse um herói nacional. “Alguém corajoso, idealista, com cara de povo”. “Corajoso? Que tal o Duque de Caxias?” “Boa idéia, mas há um problema: Caxias é ‘nobre’ demais e, ainda por cima, perseguiu negros escravos, o que torna sua figura antipática para um expressivo contingente populacional da jovem República brasileira”. “Idealista? Que tal Pedro Ivo?” “Não serve, pois é um socialista!” “Que tal o Padre Vieira?” “Você está louco?”, retrucou algum general maçom: “Um padre não pode ser herói!”.

Os marechais industrialistas, maçons e liberais perceberam que estavam diante de uma situação surpreendente. Queriam encontrar um herói brasileiro para homenagear. Só não conseguiam encontrá-lo. Até que alguém apareceu com uma idéia salvadora: “Por que não aquele alferes de cavalaria esquartejado em 1792, o Tiradentes?” Os oficiais entreolharam-se, admirados. “É mesmo, Tiradentes serve. Possui até um apelido, o que mostra sua inconfundível característica de membro da massa. Só que a revolta em que ele participou foi desimportante; sequer foram disparados tiros”. “Se a revolta foi desimportante, tanto melhor. Temos um líder idealista, corajoso, popular e que morre no final da história. Sua derrota mostra, didaticamente, ao povo, que fazer revoluções não é coisa para gente pobre.”

Nova aprovação estampa-se nos semblantes dos garbosos oficiais. Aqui interfere, na discussão, um general com vocação para estragar alegrias. “Espera um pouco: precisamos divulgar a imagem do herói, não é mesmo? Mas qual é a cara do Tiradentes? Gente pobre não posava para pinturas e esculturas! Ninguém, no século XVIII, pintou este homem. Que estampa vamos colocar nos livros didáticos? Qual o rosto que aparecerá nos quadros pendurados nas repartições públicas? E se a gente descobrir que o Tiradentes é mulato demais?”

Um Maquiavel tupiniquim apresentou a solução conveniente: “Se não conhecemos a face real de Tiradentes, podemos imaginá-la. Caros companheiros de farda: nosso povo é extremamente católico. Poderíamos imaginar Tiradentes com um ‘jeitão’ de Jesus Cristo. Imaginem nosso herói como alguém alto, magro, com pose profética, longas barbas e cabeleira, vestindo uma bata parecida com as batas franciscanas, um olhar perdido no horizonte como quem já está em comunhão com Deus.”

Aplausos soaram no salão de reuniões. Caro leitor, assim ganhamos um feriado! Na verdade, o Tiradentes real não se parece com o Tiradentes criado pelos generais positivistas. Os diários de alguns participantes da Inconfidência Mineira foram descobertos e lidos. Padre Rolim descreve Tiradentes como “baixo, atarracado e de poucos sorrisos”; Tomás Antônio Gonzaga, de maneira bem-humorada, define Tiradentes como “uma cara de meia-lua, parecendo que acabou de chupar um limão”. De resto, Tiradentes era suboficial do exército e barbeiro, nas horas vagas: por isso, jamais usaria barba ou cabelos compridos.

Tiradentes não teve tempo para agir como herói. Foi preso sem entrar em luta corporal com um único representante da dominação lusitana. Mas a revolta, da qual Tiradentes não era líder importante, merece respeito: afinal, na Inconfidência Mineira, nossos empresários e intelectuais se insubordinaram contra a cobrança extorsiva de impostos, por parte de um governo incapaz de atender as mais ínfimas reivindicações da população. Nossos empresários insubordinaram-se contra a corrupção generalizada, o nepotismo rasteiro e a incapacidade administrativa. Acho que já é tempo de recuperarmos o espírito inconfidente. Imagino, caro leitor, que você concorda comigo...

O autor, Ney Vilela, é professor de história

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