Política

Livro desnuda Guerrilha do Araguaia

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

Uma página obscura da história política contemporânea do País está sendo desvendada pelos jornalistas Taís Morais e Eumano Silva. Eles são os autores do livro Operação Araguaia - Os arquivos secretos da guerrilha (Geração Editorial, 656 páginas, R$ 59,00). A publicação chega às livrarias 30 anos após o fim do confronto, que até hoje é assunto tratado com excesso de discrição por parte do Exército Brasileiro.

O trabalho é resultado de sete anos de pesquisa de Morais em documentos até então considerados secretos. Foram esmiuçadas 1.167 páginas, 12 mapas e quase 200 fotografias inéditas feitas pelos próprios militares durante o conflito, que começou em abril de 1972 e terminou em janeiro de 1975, na região de Xambioá (TO) e reserva indígena de Suruí (PA).

Eumano Silva, repórter para matérias especiais do jornal Correio Braziliense, escreveu uma série de reportagens sobre o assunto. Para isso, foi até a região e entrevistou personagens que vivenciaram o conflito de perto. Escrito a quatro mãos, o livro assinado pelos jornalistas monta o quebra-cabeça da Guerrilha do Araguaia.

A publicação traz à tona o cenário vivido pelos irmãos Petit (Jaime, Lúcio e Maria Lúcia). A família Petit morou em Bauru. Até hoje, dos 59 guerrilheiros mortos em combate, o único corpo reconhecido foi o de Maria Lúcia, cujos restos mortais foram enterrados em Bauru, em 1996.

Ameaças

Morais conta que a Guerrilha do Araguaia é um assunto que sempre lhe chamou a atenção, principalmente pelo fato de a história, até então, não ter vindo à tona nua e crua. A idéia de trabalhar em conjunto com Eumano Silva surgiu em 2001. Filha de um militar, a jornalista garante que não encontrou rejeição por parte do pai na busca da verdade dos fatos.

“Ele só me pediu que fosse honesta com os dois lados”, comenta. Ela revela que sofreu ameaças anônimas tão logo divulgou seu interesse pela Guerrilha do Araguaia. “Algumas pessoas ficaram nervosas. Chegaram a me chamar de traidora”, diz. O incômodo não foi suficiente para intimidá-la.

Na busca de informações precisas, o jornalista Eumano Silva passou duas semanas, acompanhado de um fotógrafo, entrevistando moradores da região onde se desenvolveu a guerrilha.

“Conversei com cerca de 30 pessoas. Os depoimentos são fortes. Um deles chegou a me dizer que mesmo após morto, a cabeça de um guerrilheiro foi decepada”, revela.

Além das entrevistas, Silva embasou suas matérias com uma parte dos documentos que chegou até as mãos da colega autora. “Alguns eram inéditos, outros não. Tocamos a pesquisa e surgiu a idéia do livro. Me licenciei por seis meses do jornal para concluí-lo”.

Na avaliação dele, a publicação conseguiu reconstituir páginas poucos conhecidas da história que compõe a Guerrilha do Araguaia. “Esse livro não foi feito para agradar nem os guerrilheiros nem os militares. Ele conta a história que chegou para nós”, conclui.

No último dia 13, Operação Araguaia - Os arquivos secretos da guerrilha - foi lançado em Brasília com a presença da ex-guerrilheira Regilena Carvalho (companheira de Jaime Petit da Silva, morto em combate), Luzia Reis, também ex-combatente, e do ex-militar Nélio da Mata Rezende, comandante da primeira expedição de informação, realizada pela 8.ª Região Militar, no Araguaia.

Numa das missões de Rezende, houve a primeira baixa dos militares na guerrilha: o cabo Odílio da Cruz Rosa, fuzilado pelos guerrilheiros. Até o final deste mês, a Geração Editorial vai disponibilizar na íntegra, através de seu site (www.geracaobooks.com.br), todos os documentos sobre o assunto. Os internautas precisarão se cadastrar e usar uma senha, impressa na orelha do livro.

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Principais revelações

Operação Araguaia - Os arquivos secretos da guerrilha - traz no seu conteúdo estratégias de operações planejadas pelas Forças Armadas, nomes de seus comadantes, relatórios sobre os resultados, relação de mortos e feridos dos militares, depoimentos de guerrilheiros presos, a confirmação de que foi usado o desfolhante “napalm” na floresta amazônica (o mesmo usado pelos americanos no Vietnã), revelações sobre traições feitas por militantes do PCdoB e documentos deste partido revelando conflitos internos sobre a continuidade da guerrilha e a insistência de seus comandantes para não interromperem a luta armada contra a ditadura, mesmo com praticamente todos os guerrilheiros mortos.

O comandante militar do PCdoB, Angelo Arroyo, queria recrutar mais jovens, nas universidades para continuar a guerra. Foi fuzilado antes de conseguir isso. O livro revela segredos guardados por mais de três décadas: nomes de militares mortos e feridos na guerra, fotografias inéditas feitas por militares que combateram na região – na maior movimentação de tropas brasileiras desde a II Guerra Mundial – e 14 depoimentos de camponeses e guerrilheiros (dois deles do atual presidente do PT e ex-militante do PCdoB, José Genoíno Neto).

O livro revela, além de uma enorme quantidade de documentos do PCdoB apreendidos pelos militares, a forma, só agora revelada, de como a repressão tomou conhecimento da reunião do Comitê Central do partido no bairro da Lapa, em São Paulo, quando foram presos os principais dirigentes e fuzilados dois deles: Pedro Pomar e Angelo Arroyo. Eles foram traídos por um membro do próprio Comitê Central, que os denunciou para os militares e continua vivo, em algum lugar do Brasil. Só agora o nome dele - Manoel Jover - é revelado.

Da Redação

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