A paixão pela profissão não mudou, mas os jornalistas do passado tinham motivos de sobra para desistirem da carreira logo no seu início. Desprovidos de tecnologia e equipamentos, hoje imprescindíveis para a qualidade e velocidade das notícias, os repórteres que ajudaram a construir o jornalismo contemporâneo venciam dificuldades com improvisações e pitadas de muita força de vontade para levar os últimos acontecimentos da cidade e do mundo com precisão a seu destino final: os leitores de jornais e ouvintes de rádio.
A televisão ainda era um embrião de parafernália desconhecido, restrita a uma parcela mais abastada da sociedade. O jornal impresso e as ondas de rádio dominavam o cenário do noticiário das décadas de 40, 50 e 60. Empunhando um bloco de anotações e uma caneta, o jornalista saía à caça de notícias com um terno impecável adornado por um chapéu. Farejava o fato a distância e esmerava-se em sua busca já traquinando o número de laudas que a história iria render na redação. Era a paixão à flor da pele.
O historiador autodidata e jornalista Gabriel Ruiz Pelegrina, 83 anos, dos quais mais de 60 dedicados à arte de escrever, faz parte da lista dos profissionais de imprensa que ajudaram a fazer o jornalismo moderno. Funcionário da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, ele tomou gosto pela máquina de escrever em 1941, em Três Lagoas/MS.
“Comecei no jornal Gazeta do Comércio, no Mato Grosso. Depois, em 1944, retornei a Bauru e passei a escrever para o Esporte Clube Noroeste, o ECN”, relata. Conciliando o serviço da Noroeste com o jornalismo, Pelegrina também teve uma rápida passagem pelo Correio da Noroeste. “Em 1949 me casei. Tive que abandonar porque a patroa não gostava muito que eu ficasse até altas horas no jornal. Dei razão a ela e saí. Passei a ser colaborador do jornal A Verdade, do Nilson Costa”, lembra.
Pelegrina era responsável pela coluna “Perguntas e Respostas”, que, como o próprio nome diz, elucidava as polêmicas da área política. “Escrevi seis artigos respondendo perguntas como se eu fosse dom Jaime de Barros Câmara, arcebispo do Rio de Janeiro. Ele afirmou que havia deputados corruptos. A Câmara cobrou que ele dissesse o nome dos deputados. Como o arcebispo não disse, escrevi: ‘Se eu fosse dom Jaime, eu diria que fulano de tal é corrupto’. Listei uma série de nomes na época”, relata.
Para o jornalista, correr atrás da notícia naquela época não era nada fácil. “O Valzinho (Jeovah de Oliveira), que trabalhou na Folha do Povo, era um exemplo. Ele conversava com a gente, ouvia o rádio e ainda datilografava ao mesmo tempo”, conta.
Na avaliação dele, o jornalismo daquela época era mais poético e romanceado. “É lógico que hoje em dia não se escreve mais como antigamente. Percebo que o jornalismo dos tempos antigos era mais preparado e intelectualizado. A impressão que se tem hoje é da superficialidade”. Atualmente, Pelegrina coordena o Núcleo de Documentação e Pesquisa Histórica (Nuphis) da Universidade do Sagrado Coração (USC).
Autodidata
A regulamentação da profissão de jornalista é relativamente nova. Foi no final dos anos 60, no governo militar, que se passou a exigir formação superior para quem fosse exercer a atividade. No passado, como até hoje, na lista de exigências para ocupar a função constava bom texto (domínio da língua portuguesa), perspicácia e conhecimentos gerais (história, geografia e política).
Sem as faculdades que hoje se esparramam pelo País, muitos jornalistas se fizeram na profissão através do autodidatismo. Dydiê Andreghetto foi um deles. “Tive a oportunidade de, por autodidatismo, fazer um curso de jornalismo, cujo único volume tinha quase 500 páginas. Diversos autores também me propiciaram conhecimentos de redação”, conta o jornalista, que trabalhou nos jornais Folha do Povo (1954 a 1957) e Diário de Bauru (1957 a 1958).
Além da ajuda que encontrava nos livros de redação, Andreghetto salienta que foram importantes na sua formação profissionais já experimentados, dentre os quais cita Paulino Raphael, Marcos de Paula Raphael, Nadyr Serra e Jeovah de Oliveira. Ele afirma que desde aquela época a imprensa, principalmente a escrita, se apresentava como formadora de opinião.
“Ela exercia um verdadeiro fascínio político e social nos eleitores. Sabia-se que, em muitos lares, o café da manhã começava com uma boa leitura dos editoriais, crônicas e noticiário havidos no dia anterior”, relata. Na sua escalada profissional, Andreghetto teve a oportunidade de entrevistar a irmã Arminda Sbríssia, fundadora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (Fafil), hoje USC. “Relatei e testemunhei com minha presença o incêndio no estádio do Esporte Clube Noroeste, nos anos 50. Exerci essa profissão com muita dignidade”, finaliza.
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Essência não se alterou
“A essência do jornalismo não mudou. Mudaram os costumes, a sociedade”. A opinião é do jornalista e professor Pedro Grava Zanotelli, que iniciou sua carreira em São Manuel, escrevendo para o jornal do Grêmio União Rui Barbosa de Estudantes (Urbe), em 1950. “Com a mudança nas tecnologias, se mudou a maneira de fazer os jornais”, diz.
Ele relata que na sua época era muito comum os jornalistas terem outras profissões, principalmente nos serviços públicos. “Infelizmente, não era possível viver com o salário que era pago pelos jornais”, conta. Zanotelli trabalhou em dois jornais de São Manuel: Correio de São Manuel e O Tempo.
Sem faculdade para a formação do profissional, ele orientou-se por um livro publicado pelo jornalista Castello Branco. Em Bauru, foi redator do Correio da Noroeste, mas por um curto período de quatro meses, chegou a cobrir as sessões da Câmara Municipal, que naquela época ficava na esquina das ruas Bandeirantes com Antônio Alves.
Também teve passagem pelo Diário de Bauru. “Os jornais daquela época eram mais polêmicos. As críticas eram muito fortes, com elas vinham os revides e criava-se a polêmica. O jornalista que era mais combativo era rigoroso na redação. Às vezes, você achava que tinha escrito uma obra-prima e o editor rabiscava tudo”, lembra.
A fase mais polêmica de Zanotelli no jornalismo ocorreu quando ele escrevia para “O Tempo”. “Foram oito meses de muita polêmica. Meus textos mexiam com os políticos da cidade e incomodavam. Só parei de escrever porque, ao perceberem que não havia meio de me calar, eles compraram o jornal. É lógico que não fiquei”, diz.