Política

Mercadante já fala como candidato

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

O senador e pré- candidato ao governo de São Paulo Aloizio Mercadante (PT) fez de sua visita a Ibitinga, na última sexta-feira, uma espécie de preparação ou treinamento para o embate eleitoral que só será travado com os tucanos em 2006. Ele atacou o modelo de gestão dos principais adversários e, de forma direta, escolheu o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) como alvo preferencial.

Diante de uma platéia de militantes petistas, durante participação em congresso de renovação da direção estadual do Sindicato dos Energéticos (Sinergia), Mercadante falou, em discurso de mais de 50 minutos, da herança da política econômica do período Fernando Henrique, sem se esquecer de escolher críticas com endereço certo, o Palácio dos Bandeirantes, na capital do estado de São Paulo.

A fala retomou até traços de conteúdo do período mais fértil dos ataques petistas quando na oposição, enfocando a onda neoliberal. “O governo Lula reduziu o endividamento sem vender uma empresa estatal sequer. O governo de São Paulo aderiu a uma política econômica equivocada, como foi o período FHC, que, em vez de pensar um projeto de desenvolvimento do Estado, que articulasse a promoção do crescimento econômico sustentável, foi um programa, primeiro, de desmonte do Estado” lançou.

De olho na sucessão de Alckmin, o senador elencou que “foram privatizados ativos da Sabesp, Fepasa, Ceagesp, rodovias, concessão, Banespa, venda de vários imóveis, Congás, CPFL, Eletropaulo, Bandeirantes e a Cesp Paranapanema e Tietê no setor elétrico”.

Conforme seus dados, o governo de São Paulo arrecadou R$ 71,6 bilhões com privatizações. Desse total R$ 51,7 bilhões (72%) foram obtidos da venda do setor energético. “A promessa fundamental era de que esses recursos gerariam segurança, saúde e educação e não foi isso que aconteceu nem no Brasil, nem em São Paulo”, enfatizou.

Mercadante reforçou o tom ideológico estabelecido na disputa do espaço político entre PSDB e PT nos últimos anos. “Entraram com a visão ideológica do estado mínimo num país em desenvolvimento, onde se espera um estado de ações estratégicas, um estado que ajuda a promover a inclusão social, que tem papel de regulação econômica, que seja indutor do desenvolvimento e não de que o mercado vai resolver sozinho os problemas.”

Pré-estréia eleitoral

Mas o discurso de Mercadante também indicou os principais temas que podem ser objeto de ataque no embate contra os tucanos. “São Paulo poderia ter nas macroregiões do estado agências de desenvolvimento social, atuando no arranjo produtivo local. As cadeias produtivas da economia paulista precisam ser analisadas e fortalecidas e não só da indústria automotiva. Na laranja, por exemplo, precisa ter política de valorização do pequeno produtor também e não ter uma economia só cartelizada, centralizada, que só ganha quem esmaga laranja e exporta”, pontuou.

Em seguida, Aloizio escolheu a área de pesquisa como porta de entrada para o ataque à guerra fiscal. “Nossa estrutura de ciência e tecnologia em São Paulo, os institutos de pesquisa, são os melhores do Brasil. Se você fizer uma parceria de investidores, vai atrair investimento exatamente por essa vantagem comparativa. E o governo paulista ficou assistindo durante dez anos a guerra fiscal, com as empresas indo embora e às vezes indo para a fronteira do Estado.”

O setor de segurança não ficou de fora. “Na área de segurança pública, São Paulo tem 130 mil profissionais de segurança e 15 mil homicídios, que vem caindo muito pouco, e é um número alarmante. Na União temos apenas 7 mil homens na Polícia Federal e toda semana tem operação bem sucedida no País, é operação vampiro, gafanhoto, anaconda”, disse.

Da segurança, o senador foi para as rebeliões da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem). “Houve mais de 20 rebeliões só este ano na Febem. Aí vem o responsável e demite 1.761 funcionários porque tem tortura na Febem. Então levante quais são os funcionários, faz sindicância, bota na rua e na cadeia e não coloca sob suspeição uma categoria inteira de servidores”, mencionou.

Segundo ele, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) deu sentença mandando reintegrar os funcionários demitidos da unidade de atendimento a menores. “O TST julgou esta semana, o governo paulista perdeu de sete a zero e vai ter que reincorporar todos os funcionários com os salários. Isso não ajuda a recuperar a instituição. O problema da Febem é estrutural e institucional”, criticou.

E Mercadante ainda arriscou uma comparação de ação no segmento. “Vai na nossa prefeitura de São Carlos e veja qual é a qualidade da política de atendimento a menores. Índice de reincidência de 3%, trabalho junto com a Igreja, pequenas unidades, programas de requalificação.”

O pré-candidato, que pode disputar as prévias petistas com a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e o ex-presidente da Câmara Federal, João Paulo Cunha, também questionou o programa de Alckmin na saúde. “Se você não atuar na área de prevenção não consegue organizar o SUS para o conjunto das demandas que temos no Estado. Está sobrecarregada a alta complexidade porque não tem política de prevenção”.

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