Ser

Superando limites

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 8 min

Francisco Takao Kajino é um nome de peso na luta pelos direitos dos portadores de deficiência em Bauru. O que nem todos sabem é que a história desse bauruense de coração, nascido em Cotia, São Paulo, é marcada por muita dor e excesso de superação e força de vontade.

Destaque na área de judô na década de 70 em Bauru, Kajino, 46 anos, viu sua carreira como esportista desaparecer em minutos. No dia 1 de abril de 1979, aos 20 anos, fraturou a coluna cervical enquanto fazia exame para conquistar faixa preta na modalidade. Se tornou tetraplégico e passou a se locomover em uma cadeira de rodas.

O triste fato não revoltou Kajino. Pelo contrário, foi o pontapé inicial para que ele descobrisse um grande talento: o de artista plástico. Para pintar, criou um acessório para prender o pincel nas mãos, que perderam as articulações após o traumatismo. Em 1996 realizou sua primeira exposição de telas e se tornou conhecido na sociedade.

“A partir do convívio com as pessoas, percebi que haviam coisas certas e erradas em relação à luta pelos deficientes. Algumas os usavam para aparecer, fazer política ou buscar aceitação social. A partir daí, pensei: quem tem que tomar atitude somos nós, os próprios deficientes”, conta Kajino.

Desde então, se engajou em movimentos de defesa dos direitos dos deficientes físicos e mentais. Em 1999, ajudou a instrumentalizar a lei de acessibilidade em Bauru, que garante transporte e implantação de rampas para deficientes, entre outros benefícios. Em 2000, Kajino foi eleito presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Comude), onde permaneceu até junho do ano passado.

Em 2003, fundou, em parceria com outros deficientes, a Cooperativa Social de Trabalhadores Especiais de Bauru (Coobesp), que busca incluir portadores de deficiência no mercado de trabalho e está em funcionamento há cerca de um mês. Para Kajino, a luta por melhores condições de vida não se limita apenas aos deficientes visuais. Para reivindicar asfalto e limpeza aos moradores do bairro onde mora, ele preside a Associação de Moradores e Amigos do Parque das Nações.

Em seu dia-a-dia, Kajino possui uma agenda agitada, que inclui o trabalho na cooperativa, participações em eventos ligados aos portadores de deficiência e as artes plásticas. Exemplo de vida, sua trajetória foi tema da entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - O senhor se mudou para Bauru na infância. Como foi esse período?

Francisco Takao Kajino - Vim para a cidade com meus pais e três irmãos. Nos instalamos em uma chácara para produzir hortaliças. Começei a trabalhar aos 7 anos, na enxada, com meu pai. Não tive muita infância, eu só trabalhava e estudava.

JC - Quando se tornou esportista?

Kajino - Aos 14 anos, junto com os estudos. Eu estudava no período da tarde, no Ernesto Monte. Depois da aula ia praticar esporte. Começei no Bauru Atlético Clube (BAC) praticando judô, mas sempre trabalhando e estudando. Participei de alguns campeonatos, como os Jogos Regionais de Itu, em 1977. Nesse mesmo ano consegui uma medalha de bronze no Campeonato Estadual Paulista.

JC - Como o senhor adquiriu a tetraplegia?

Kajino - No dia 1 de abril de 1979 estava fazendo o exame para a graduação de faixa preta no Clube de Regatas do Tietê. Apliquei um golpe e caí no chão. Bati a cabeça e a nuca, luxando a cervical quatro e cinco. O problema é que fui mal-socorrido, a pessoa que me atendeu pegou minha cabeça e girou uma vez para cada lado. Nessa hora senti os ossos do pescoço quebrarem. Além disso, quando caí, fiquei paralisado e adquiri o traumatismo neurológico.

JC - Qual foi sua reação ao receber a notícia?

Kajino - Até dois ou três anos depois do acidente eu não tinha consciência e não via a tetraplegia como deficiência. Acreditava que apenas não conseguia movimentar o corpo e o braço. Ser um portador de deficiência não estava dentro do meu dia-a-dia. Depois, passados mais de quatro anos, percebi que era deficiência mesmo. No começo foi muito complicado para mim. Meu pai sempre dizia que não era bom praticar esportes, queria que eu apenas estudasse e trabalhasse. Ele não era a favor do esporte e sempre me cobrou isso. Para mim, o sentimento de culpa era muito grande, e ainda hoje é. Então decidi me anular para ver o que acontecia. O tempo foi passando, fiz operações espirituais, massagens, fisioterapia, mas nada resolvia. Não havia recuperação e, com o tempo, fui criando essa consciência.

JC - Só então o senhor passou a aceitar a deficiência?

Kajino - Nunca me revoltei contra ela. Só não tinha consciência, nos primeiros anos, que era uma deficiência. O maior problema é que tenho um irmão mais novo, ele me levava para fazer fisioterapia e eu sentia que o prejudicava. Me sentia como uma perna quebrada na família. O que eu mais queria é que meu irmão fizesse faculdade, e graças a Deus, ele se formou em engenharia no final dos anos 80. Quando ele conseguiu ter a vida dele, pensei: agora chegou a minha vez. Em 1983, começei a procurar alguma coisa para fazer. Um tempo eu vendi assinatura de revista. Depois tentei escrever um livro de histórias, mas não deu resultado.

JC - Como descobriu o talento para as artes plásticas?

Kajino - Em 1989 fui internado por causa de uma infecção urinária. Passei uma semana no hospital e pensei: minha vida não pode acabar nisso e preciso procurar alguma coisa para fazer. Começei a pintar e fazer alguns trabalhos. Aí abracei essa profissão de artista plástico. Também fiz outras coisas, como artesanato em pintura para ganhar um trocado.

JC - Como faz para pintar?

Kajino - Desenvolvi um acessório para as mãos com elástico, que utilizo para prender o pincel. Aí posso fazer as pinturas. Minha mãe é quem me ajuda a montar os acessórios. A parte mais pesada levamos para oficinas e serralherias.

JC - O senhor adaptou outros recursos para facilitar sua locomoção e seu dia-a-dia?

Kajino - Minha casa é parcialmente adaptada, com rampas de acesso. Recentemente recebi uma cadeira de rodas nova, que fica em pé, então posso ficar mais na cadeira. Hoje quem trata mais de mim é minha mãe. Tenho um guindaste para me colocar e tirar da cadeira. Para tomar banho também fiz uma adaptação.

JC - Quando decidiu se engajar na luta pelos direitos dos portadores de deficiência?

Kajino - Em 1996 fiz minha primeira exposição. Isso chamou a atenção das pessoas. A partir do convívio com elas percebi que haviam coisas certas e erradas. Alguns usavam os deficientes para aparecer, outros para fazer política. Na verdade, eles estavam procurando uma aceitação social através da gente. A partir daí, pensei: quem tem que tomar atitude são os próprios deficientes. Eu saía, não tinha acessibilidade nas ruas, como rampas, que até hoje não são suficientes. Então começei a participar de um antigo conselho municipal da pessoa deficiente, como colaborador. Depois, fizemos uma audiência pública e conseguimos aprovar a lei que instituiu o Comude em 1999. Nesse ano também aprovamos a lei de acessibilidade em Bauru. Participei da primeira eleição do Comude em 2000 e a partir daí coordenei o conselho por dois anos. Fui reeleito e fiquei até junho de 2004.

JC - E como surgiu a idéia de criar a Cootesp?

Kajino - Fundamos essa cooperativa no dia 7 de junho de 2003 para empregar deficientes. Nós a instalamos num galpão que estava totalmente danificado. Ficamos um ano e seis meses atrás de patrocínio para consertar o galpão. Pensei em desistir, mas uma indústria de Bauru se ofereceu para terceirizar uma parte da montagem dos motores elétricos que nós produzimos.

JC - Em geral, como o senhor avalia a assistência aos deficientes?

Kajino - Nós melhoramos, mas não está satisfatório. Estávamos lutando pela educação inclusiva, que agora existe em projeto de lei municipal, mas em nível estadual está a desejar. Conseguimos implantar o transporte escolar. Mas na minha opinião, é preciso aumentar o número de veículos tipo van para atender os deficientes. Outra questão é a pista com pino diferenciado colocada na calçada para que o cego passeie com sua bengala-guia e possa se locomover livremente pela cidade e ainda não existe.

JC - Como o senhor analisa o sucesso dos personagens Jatobá e Flor, que interpretam deficientes visuais na novela “América”?

Kajino - Por um lado eu acho positivo, mas por outro lado a novela mostra um lado que não é real. Nem sempre um deficiente visual pode ter um cão-guia. O animal tem despesas, como ração e veterinário. Uma parte dos deficientes visuais recebe auxílio-benefício, que é de um salário mínimo. Para ter um cão, a pessoa tem que ter um nível elevado de vida.

JC - O senhor está sempre participando de movimentos a favor dos deficientes. Tem algum projeto em desenvolvimento?

Kajino - Costumo brincar que estou aqui fazendo hora extra, o que tinha que fazer, proporcionar algo ou lutar por alguém, eu já fiz. Mas eu tenho muitos sonhos. Estou vislumbrando que dê tudo certo na cooperativa. Também penso em montar uma ONG para dar apoio a outros deficientes. Agora penso que estou aqui para servir, mas no futuro vou precisar de ajuda.

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