“Nos idos da década de 80, quando eu estava na ativa, na Cesp, freqüentávamos sempre as belas pousadas de Bariri, Ibitinga, Salto Grande, Jurumirim, Salto do Avanhandava e outras. Como era gratificante após uma semana de muito trabalho, a gente pegar a família, os amigos e se deliciar em uma dessas maravilhas.
Não havia nada melhor; o cantar dos pássaros ao amanhecer, o café da manhã saboreado em meio ao cheiro da relva, os passeios pelos bosques, as refeições com a mesa farta e com muito bom gosto, os apartamentos bem aconchegantes, tudo em seu devido lugar. O clube, piscina, sauna, salão de jogos, quadras esportivas, puxa como era legal.
A gente pagava (um pouco salgado), mas era realmente muito gratificante freqüentar as nossas pousadas. Ah! E os pesqueiros? Algumas tinham, outras não, como era o caso de Bariri, que a gente pescava abaixo da barragem, bem ali nas pedras, não pegava quase nada, apenas alguns lambaris, uns peixinhos patroa, alguns mandis e nada mais que isso, além é claro, de perder bastante chumbada e doar muito sangue para os pernilongos, mas nós éramos teimosos, e como éramos.
Lembro-me que ficávamos horas e horas teimando com os peixes, com as pedras, mas era muito gratificante ficar ali em silêncio, apenas ouvindo os barulhos agradáveis da natureza, pássaros, água batendo nas pedras e aquela magia que tem na beira de um rio que nos faz até sonolentos e cheios de preguiça (quem é pescador sabe muito bem do que estou falando).
Mas vamos ao fato em si. Foi num passeio desses, lá na pousada Bariri que eu e um amigo, cujo nome não vou mencionar (porque da última vez que escrevi para o jornal e citei o nome de um amigo, nunca mais ele falou comigo) e eu não quero mais perder amigos.
Bem, naquele dia, já à tardinha, mais ou menos 16h, resolvemos dar uma pescada. Tínhamos umas varinhas, alguns anzóis, etc, mas, não tínhamos iscas. Então, fomos até a cozinha e pedimos a um dos cozinheiros que nos fornecesse alguma coisa para isca e ele, muito gentilmente, nos cedeu uns pedaços de frango cru. Imaginem, pescar com frango cru.
Descemos pro rio e, na passagem pela horta, resolvemos arrancar algumas minhocas. Encontramos o enxadão do hortelão e esse meu amigo disse: “Pode deixar comigo”. E, vupt, meteu o enxadão na terra molhada, que afundou até encostar no cabo. Naquele instante parecia que tínhamos encontrado um poço de petróleo de tanta água que jorrava, parecia um hidrante.
É que a ‘enxadãozada’ foi tão forte que rompeu o cano d’água, aquele cano todo enferrujado que abastecia a pousada. Foi aquele corre-corre! Chamamos o administrador, que por sua vez chamou a equipe de manutenção, que logicamente fechou o registro da água deixando alguns hóspedes sem o costumeiro banho da tarde.
Após algumas horas, com muito esforço, conseguiram sanar o problema. Nós, o meu amigo e eu, durante a estada na pousada, passamos a ser vistos com maus olhos pelos freqüentadores e alguns até chamavam a nossa atenção dizendo: “E aí pescadores? Ficaram satisfeitos com a pescaria?”
Puxa, pagamos um mico bem grande naquele fatídico final de semana, mas apesar desse e de outros tropeços, a gente nunca desistiu.”
Ivo de Jesus Ribeiro é aposentado, quase pescador e contador de histórias