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Podre poder

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Conta uma história que na terra das aves de rapina os corvos, urubus e abutres conviviam amistosamente, especialmente nas épocas em que, nos prados e nas cidades, sobejavam os despojos dos ex-viventes.

Quando ocorriam, mesmo com tanta abundância, disputas e enfrentamentos, comissões eram formadas para discutir acordos para a construção de uma política de boa vizinhança, que convencionaram chamar de “área de reserva creófila”.

Assim a organização dos abutres se especializou como exímia sarcófaga, preferindo prospectar comida mais diferenciada nos pomposos ataúdes, desenvolvendo uma visão mais estratégica do “negócio”.

A organização dos corvos, não tão encorpada como a dos abutres, se apresentava como excelente nutridora em áreas ribeirinhas, dentro da filosofia de que é melhor “comer pelas bordas para não se afogar no centro”.

A organização dos urubus, chamada de cabeças peladas”, sem muito pedigree, sobrevoava as sobras e se alimentava de carnes em decomposição.

Quando uma nova “jazida creófila” era encontrada, negociações eram feitas entre as organizações, que elegiam seus líderes com a finalidade de garantir a melhor parte dos despojos para elas, mas o nível de confiabilidade e respeitabilidade entre eles era digno dos mais ardilosos rapineiros.

Entretanto, um dia, essas organizações foram denunciadas no Congresso dos Bichos, pois um dos líderes da organização dos abutres, percebendo desmascarada a sua estratégia necrófaga de conseguir jabaculê por fora, “ selou” o escândalo quando colocou “o bico no trombone”, revelando os podres do poder.

Voou pena para todo lado em meio a acusações, jogos de cena dos mais hilariantes aos mais dramáticos.

Alguns abutres, corvos e urubus confessaram até serem vegetarianos, outros disseram estar em dieta desde pequenininhos, outros mostraram serem exímios farinheiros, engraxates, sem nenhuma vocação para açougueiros ou coveiros.

Essas cenas foram transmitidas ao vivo para todo Brasil na tarde do dia 14 de junho de 2005, quando pudemos acompanhar o depoimento do deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB, à Comissão de Ética e Decoro da Câmara Federal, sobre suas denúncias de que o tesoureiro do diretório nacional do PT, Delúbio Soares, pagava mesada a parlamentares do PL e do PP para que votassem de acordo com os interesses do governo Lula.

Bom que se apure toda essa podridão, entendendo que nem todos são “farinha do mesmo saco”; que, em tempos bicudos, sejam corvos ou tucanos, nem todos tico-ticos comeram do mesmo fubá e ninguém pode posar de pombinha branca.

O autor, Pedro Antonio Domingues, é professor da Universidade São Francisco - www.saofrancisco.edu.br

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