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Entrevista da semana: Para professor, PT encara seu fosso

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

A crise política enfrentada pelo PT, com o episódio de denúncia de corrupção protagonizada por cargo de confiança de terceiro escalão nos Correios e o pagamento de “mensalão” para aliados no Congresso Nacional, expõe o fosso em que a legenda se meteu ao organizar sua história baseada em uma lógica moralista.

Esta é a avaliação do professor de ciência política da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Milton Lahuerta, de Araraquara, autor de livros que retratam as crises e as artimanhas do poder. Em sua visão, a crise é tópica e não deve, nem pode, segundo ele, alastrar-se a ponto de pôr em risco as instituições e a democracia.

Para Lahuerta, o Partido dos Trabalhadores (PT) mostrou dificuldade em lidar, no poder, com o jogo do “toma lá dá cá” que sempre existiu na política nacional e que a legenda tanto combateu antes de conquistar o Palácio do Planalto. Leia na entrevista concedida pelo professor universitário as reflexões sobre o episódio:

Jornal da Cidade - Como o senhor vê a atual crise política do País?

Milton Lahuerta - É um episódio que, em si, não é tão expressivo. Assume expressão porque é algo como uma tragédia anunciada. Digo isso tendo em conta a história política do Partido dos Trabalhadores (PT), uma história construída, desde o momento de sua criação, com uma lógica que colocou para a vida política um componente excessivamente moralista. O PT construiu sua identidade afirmando uma lógica moralista, na perspectiva de que, enquanto partido, ele seria diferente de tudo o que está aí. Isso eles reiteraram em inúmeras campanhas. Além da retórica moralista, isso trazia uma enorme dificuldade de lidar com a vida política na sua realidade, no seu dia-a-dia. Portanto, uma enorme dificuldade de pensar dois temas que são decisivos para a vida política. É o tema das alianças e o da governabilidade.

JC - E como isso se deu?

Lahuerta - O PT se colocou, então, durante quase 20 anos em uma perspectiva para a sociedade em que ele só afirmava a sua diferença e, ao afirmar sua diferença, tinha que deixar de lado esses dois problemas fundamentais. Um deles, o da aliança, o PT não colocava como uma questão forte porque partia do princípio de que não lhe convinha enfrentar essa temática na, já que poderia enfraquecê-lo. E na medida em que o partido colocasse o tema das alianças com a base, estaria obrigado a definir com mais clareza uma posição mais realista em relação à política, o que talvez dificultasse a adesão de novos militantes, novos filiados e novos eleitores.

JC - E a governabilidade?

Lahuerta - Esse tema se liga com o da aliança, porque implicava em mostrar que resolver os problemas do País implicaria não apenas em fazer alianças, mas também em se preparar para um momento em que fosse governo e não apenas oposição. E isso implicava em um preparo técnico e político. O PT não trabalhou isso com sua cultura política ao longo de 20 anos e agiu como se esse não fosse um problema dele. Agiu como se esse fosse um problema que já estivesse resolvido pela melhor qualidade moral dos seus membros, dos seus militantes e pelo preparo quase que nato de seus dirigentes para os desafios que vinham pela frente. Eu vejo isso como problema de fundo. Quando o PT tornou-se governo, criou-se a necessidade de governabilidade e, para isso, é preciso manter uma lógica que envolve fazer alianças, porque sem elas não se governa, não se consegue maioria necessária parlamentar para poder realizar o governo. Na raiz das questões do PT, acho que isso aparece como um problema quase sociológico.

JC - E qual a conseqüência?

Lahuerta - A conseqüência grave desse problema sociológico é que, ao não tematizar isso, o PT foi criando um fosso que não foi perceptível durante muito tempo entre uma cultura hiper-realista da cúpula e uma base politicamente deseducada. O PT está pagando o preço exatamente por esta estratégia que adotou ao longo dos vinte e poucos anos de construção. E é uma questão complicada porque vai trazer impactos fortíssimos na estrutura do partido - já está tendo - e impactos no governo que está sendo gerido pelo partido. O que talvez seja mais dramático é que vai impactar na cultura política do País, no sentido de reforçar um preconceito anti-política que já está muito disseminado na sociedade brasileira. A idéia de que tudo é a mesma coisa, de que nada vale, de que nenhuma força traz nada de diferente e, enfim, que não há nada de novo no horizonte.

JC - Ao viver agora o conflito entre ser a oposição moral e ser governo, o PT errou ao não se preparar?ecia?

Lahuerta - Evidente. Não é o professor que fala isso, mas a realidade. O que ocorre no mundo contemporâneo é um fato sociológico elementar que foi anunciado em 1905 por um sociólogo discípulo de Max Weber, chamado de Robert Michels. Ele escreveu um texto sobre os partidos socialistas, pontuando idéias weberianas a respeito da racionalização do mundo e da tendência à burocratização, dizendo como pode um partido que se propõe exatamente a acabar com as distinções entre os homens tender a reproduzir uma lógica de profissionalização, de burocratização, de constituição de uma oligarquia. O Michels fala da lógica da lei de ferro das oligarquias implementada pelos partidos socialistas quando se preparam para disputar o poder. O PT nasceu com uma retórica anti-sistema, mas na sua vida prática foi se tornando cada vez mais um partido voltado para a competição eleitoral. Tinha que ter trabalhado melhor sua retórica em relação a esta realidade que vinha vivendo, exatamente para preparar melhor sua bases. Preparar melhor sua militância para compreender os momentos de dificuldades pelos quais o partido passaria ao fazer alianças com forças complicadas, ao ter que enfrentar minorias na base parlamentar, ao ter que enfrentar eventualmente uma crise econômica. Então, o PT teria que ter trabalhado melhor esses problemas também no sentido da formação de seus quadros intermediários que estão hoje absolutamente vislumbrados com o poder. Na prática, vem reproduzindo os velhos estilos, os velhos mecanismos, as velhas formas de fazer política.

JC - Repetindo formas de fazer política de maneira generalizada?

Lahuerta - Não estou dizendo que não há novidade nenhuma no PT. Na prática petista há novidades, há elementos de positividade; o partido trouxe para a vida pública quadros vindos de origem social mais humildades. Mas de qualquer maneira, o PT não preparou esses quadros para este momento. Quer dizer, não aprendeu não só com a lição teórica já escrita desde o início do século 20, mas não aprendeu com a prática do próprio processo de redemocratização brasileira. Quando nós olhamos os quadros jovens do PMDB que ganhou inúmeros estados na eleição de 1982, com o Montoro em São Paulo, por exemplo, eram quadros vindos da luta democrática com a melhor das intenções. Não era quadrilha, bandidos. Pelo contrário. Mas ao se defrontar com a lógica do poder, com a lógica governamental, esses quadros acabaram se tornando profissionais da política. O PT está vivendo o mesmo processo. E lidar com isso é algo complicado. Não ter tematizado isso é mais complicado ainda porque isso gera, na base deseducada politicamente, uma lógica de que os caras estão cometendo traição. E não só na base. Vários intelectuais do PT acabaram saindo com essa mesma argumentação, de que os petistas do poder se venderam para o FMI ou coisa que o valha. Esse é um erro vital. Não preparar o partido para se manter como um partido de luta, que traz a questão social para o âmbito do debate institucional, e também para um partido capaz de dar respostas concretas aos desafios propriamente relacionados com a gestão e o governo. E esta é uma questão séria não só para o PT, mas para a sociedade brasileira.

JC - E como o senhor avalia esse desencantamento da sociedade nesta fase?

Lahuerta - Nem tudo o que está motivando esse desencantamento tem base na realidade. Existem, sem sombra de dúvida, muitos ataques feitos por forças conservadoras, que estão contra o PT por sua origem social, mas esses ataques vão representar não só um desgaste para o partido e para a gestão federal, mas também um desgaste para a democracia. E isso é muito preocupante no momento que estamos enfrentando. Se você não estabelece claramente com quem você se alia por razões políticas, no momento em que se torna governo, provoca esses resultados. A sociedade brasileira é deseducada com isso e também não sabe lidar bem com a questão das alianças. A sociedade tende a moralizar excessivamente o modo como ela pensa a política, tendendo a cair tudo para uma espécie de denuncismo, até porque esta sociedade é incentivada pela mídia. Quando a mídia exagera na exploração dessa lógica, prejudica a sociedade e confunde os indivíduos com instituições, e isso é complicado. O PT não se preparou para governar esse País nessa construção. O PT foi construir essa maioria para governar da forma como ele pôde e sofre esse inconveniente na medida em que parte das forças aliadas voltam-se contra o partido. A conseqüência é o desgaste da trajetória do partido. Lembremos que o PT não quis apoiar o Ulysses Guimarães, por exemplo, lá atrás, e que não quis assinar a Constituição de 1988. E, de repente, para governar, o PT se alia ao Roberto Jefferson, do grupo do Collor. É uma questão complicada se pensada só sob a perspectiva moral. Mas se pensarmos realisticamente, se qualquer um de nós estivesse na condição de dirigente do PT, é evidente que buscaria a maioria parlamentar e faria os acordos possíveis, que foram esses. É ruim para o PT, mas é pior ainda para a democracia.

JC - Qual o caminho a ser perseguido agora?

Lahuerta - Não há ambiente para a reforma política agora, uma agenda que deveria ter sido atacada lá atrás. O que talvez precise ser feito agora é uma ampla reflexão envolvendo procedimentos e o funcionamento das instituições e que procure, acima de tudo, esclarecer não só para o eleitor, mas também para setores da mídia, da universidade e para a própria classe política, quais seriam os tópicos que deveriam compor um projeto de reforma política mais adiante. Esta é uma crise tópica na realidade. Não é algo que diga respeito a uma falência do sistema político brasileiro. É muito mais uma crise decorrente de uma certa dificuldade de operacionalizar mecanismos que sempre existiram na política brasileira e que o PT demonstrou dificuldade em lidar com eles. Querer transformar uma crise tópica em crise institucional seria um atropelo.

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