Polícia

Polícia apura tentativa de homicídio em nova ocupação dos sem-terra

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 5 min

A intenção dos sem-terra do Grupo Terra Nossa, de expandir o acampamento no Horto Florestal Aimorés, que já tem dois anos e 202 alqueires, ontem, acabou em tentativa de homicídio. O delegado de Pederneiras, Marcelo Bertoli Gimenes, instaurou inquérito para investigar o incêndio de duas casas em que residia a família de um caseiro que mora no horto, a denúncia de ameaça contra a vida dele, a forma como se deu a posse da terra e furto de animais, de celas e de cavalos.

O delegado disse que apenas no final do inquérito será possível enumerar quais crimes realmente foram cometidos e apontar os eventuais responsáveis. Acionada para a ocorrência, a Polícia Militar (PM) identificou 74 pessoas do grupo Nossa Terra, que é ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), e apreendeu facões, facas e foices utilizados na ocupação.

Um dos coordenadores do Grupo Terra Nossa, Celso Costa, garante que os sem-terra não têm ligação com a tentativa de homicídio à família do caseiro e também não cometeu os crimes que estão sendo investigados. Ele diz que o grupo irá colaborar com o inquérito policial para que os fatos sejam elucidados. A assessoria jurídica do grupo estava preocupada com um possível desgaste da imagem do Nossa Terra com a acusação de tentativa de homicídio e outros crimes.

Costa afirma que os sem-terra foram à residência do caseiro anteontem e constataram a presença de três homens, uma mulher e uma criança no local. “Falamos para que saíssem amanhã (ontem) ao amanhecer para que a gente tomasse a posse da área. Viemos para a margem da estrada e passamos a noite numa fogueira para se aquecer do frio. Por volta das 6h, identificamos um foco de fogo lá. Chegamos lá, não tinha ninguém (nas casas) e já estava pegando fogo nos barracos”, alega.

A versão da coordenação do Grupo Nossa Terra é negada pelo caseiro. Costa, por sua vez, nega que haveria armas de fogo em poder dos sem-terra e disse que será tomada medida judicial contra as acusações de presença de armamento no acampamento.

Ainda ontem, o delegado iria tomar o depoimento do caseiro, de sua esposa e do proprietário da área, o advogado José Francisco Clemêncio da Silva. Numa próxima etapa da investigação poderão ser ouvidos membros do grupo de sem-terras. Gimenes esteve nas casas destruídas pelo fogo, mas preferiu se pronunciar só após a emissão do laudo da perícia técnica.

Entretanto, adiantou que a cena indicava que os ocupantes das moradias tiveram que sair às pressas. “A priori, havia uma panela em cima da mesa e tudo indica que as pessoas que estavam no local tiveram que sair correndo porque se não correriam risco de serem mortas no incêndio”, comenta.

O subcomandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I) de Bauru, major Pedro Batista Lamoso, e o delegado não discutiram com a coordenação do Nossa Terra a reintegração da posse de terreno.

Durante todo o tempo, as autoridades policiais insistiram no mérito da forma como se deu a ocupação, com possível uso de violência contra as vítimas por parte dos sem-terra.

Por volta das 10h, uma equipe do Pelotão de Choque da PM se posicionou à margem da estrada, já no interior do horto, num ponto entre a área invadida e o caminho que leva ao acampamento dos sem-terra.

Logo após, Lamoso avisou à coordenação do Terra Nossa que os sem-terra estavam retidos. Na seqüência, o major liberou algumas mulheres e crianças para que os estudantes não perdessem o ônibus para a escola, na zona urbana de Bauru. Costa argumentou que não haveria a necessidade da presença do Pelotão de Choque da PM.

Na assembléia que decidiu pela desocupação da área onde mora o caseiro, o próprio advogado do Terra Nossa, Antônio Sérgio Pierangelli, explicou aos integrantes do movimento que numa ação de invasão, a lei permite ao proprietário uso de aparato policial para manter a posse da área. Atendendo à sugestão da assessoria jurídica, os sem-terra saíram do terreno às 12h40, depois de mais de cinco horas negociação.

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Expansão

Celso Costa, um dos coordenadores dos sem-terra, conta que a decisão de ocupar mais 148 alqueires do Horto Florestal Aimorés para expandir o acampamento foi tomada em assembléia. Atualmente, 108 famílias do Grupo Terra Nossa já ocupam 202 alqueires do horto.

A expansão do acampamento, com invasão da nova área, foi iniciada no começo da noite de domingo. Com barracas, os sem-terra demarcaram pontos às margens da estrada. Costa explica que o grupo pleiteia lotes de no mínimo cinco alqueires de terra por família.

“É uma forma também de pressionar o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) a fazer a demarcação da área o mais breve possível uma vez que a gente não quer perder o ano agrícola”, alega.

A ampliação pretendida não está prevista no projeto de assentamento apresentado ao Incra. No mês passado, o Incra obteve da União a área do horto, de 5.262,12 hectares, que pertencia à Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Com a extinção da Rede, a área foi incorporada ao Serviço de Patrimônio da União.

Na semana passada, a assessoria de imprensa do Incra não quis comentar que providências estariam sendo tomadas em relação a denúncias de que parte da área do horto é ocupada por grileiros. Técnicos do órgão federal estiveram na semana passada no acampamento coletando a documentação das 108 famílias que aguardam a emissão de contratos (termo de uso da terra).

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