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Crise política, moral e ética


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As graves acusações sobre corrupção envolvendo o governo, o PT e políticos da base aliada do governo me tomaram de surpresa. Confesso que, como todos os brasileiros, estou espantado. Não porque, sem ser ingênuo, ache que governar este nosso País não exige alguma flexibilidade. Mas porque a natureza das concessões, neste governo, teria atingido um nível pior do que um prostíbulo: seriam pagas mesadas pelo serviço prestado.

Quem teve a oportunidade de assistir ao depoimento do deputado Roberto Jefferson, esteve diante de um espetáculo deprimente e grotesco. O deputado, a despeito de minhas restrições à sua conduta histórica, fez um depoimento sereno e incisivo, apresentando todos os detalhes dos fatos denunciados, incluindo nomes, conversas, datas e valores. Como advogado criminalista experiente que é, apresentou todas as pistas para desvendar o crime. Não precisou apresentar provas materiais. Elas eram absolutamente desnecessárias. Bastaria, durante as investigações, seguir as pistas por ele apresentadas.

A grande incógnita é se as CPIs vão, realmente, apurar com profundidade e intensidade os fatos apontados pelo deputado Jefferson. Eu tenho algumas dúvidas, por dois motivos: primeiro, porque o governo vai comandar e tem maioria na primeira CPI já criada; segundo, porque, dependendo do número de congressistas que poderiam ser alcançados pelas denúncias de receberem o tal do mensalão, poderia ser exacerbado o espírito corporativo do Congresso de proteção aos seus pares. Por outro lado, dependendo da condução política da crise a partir de agora, fica a expectativa de que não se possa controlar totalmente as investigações e a comprovação dos fatos venham à tona.

De qualquer maneira, pouco ou muito do que se possa confirmar das acusações, estaremos diante de uma crise política da maior gravidade. Digo isso porque, independentemente até das provas dos fatos, o clima de denúncias e acusações já vivido e com o que conviveremos daqui para frente, terão o efeito de esgarçar as instituições mais importantes da democracia: o poder e as representações políticas. A crise política estará acompanhada de uma crise de valores morais e éticos, elementos que a sociedade, mesmo com algum grau de hipocrisia de alguns de seus segmentos, considera fundamental para a estabilidade e a preservação do convívio social e político.

Não posso deixar de registrar, finalmente, a minha indignação pelo comportamento do partido do poder, o PT, responsável por esse golpe nas instituições democráticas do País. Não me refiro ao conjunto de seus militantes, simpatizantes e quadros de boa fé e boas intenções. Refiro-me aos seus principais dirigentes nacionais e quadros partidários de prática fascista, que nunca respeitaram as diferenças, que dividem a sociedade entre o bem (eles) e o mal (todos outros), entre os detentores da moral e da ética e os antiéticos. Refiro-me àqueles que querem dirigir os destinos da sociedade de forma rancorosa, segundo a sua visão onipotente e subjetiva do que seja o melhor para a sociedade. Que sempre apostaram, quando na oposição, no quanto pior, melhor. Que acusavam sem provas. Que destruíam biografias sem remorso. E que, na ânsia pelo poder, construíram esse quadro que aí está. São esses, afinal, que agora estão no banco dos réus, acusados pelo que sempre ousaram acusar os outros. Eram e são uma farsa.

O autor, Gabriel Ferrato, é professor do Instituto de Economia da Unicamp

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