Regional

Avaí registra a primeira fuga em massa

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 5 min

Avaí – A fuga de 18 presos na madrugada de ontem foi a maior registrada em 24 anos de existência da cadeia de Avaí. Até o início da noite, apenas quatro presos haviam sido recapturados. Na fuga, pelo menos duas pessoas foram feitas reféns.

Das duas armas que foram levadas da cadeia pelos fugitivos, uma foi recuperada com um cartucho intacto e outro deflagrado. A polícia não tinha informação de quem fez o disparo nem porquê ou se alguém foi ferido.

A maior parte dos detentos que fugiram são de cidades da região. Por esse motivo, o delegado José Firmino de Oliveira acredita que será possível encontrar praticamente todos em pouco tempo.

Entre os fugitivos estão presos já condenados e temporários. Na maior parte dos casos, os crimes cometidos por eles vão de roubo a tráfico de entorpecentes, passando também por receptação.

O detento Rahnner José Cassimiro, condenado por roubo, dos que fugiram é o que possui a pena mais pesada – cinco anos e seis meses de reclusão. Teve também preso que cumpria pena em regime semi-aberto, mesmo assim decidiu aproveitar a oportunidade e fugir.

Encenação

“Um teatro bem montado” foi assim que o delegado Oliveira definiu a cena armada pelos detentos para pôr em prática o plano de fuga.

Por volta da 0h30, os carcereiros de plantão foram chamados para socorrer um preso que supostamente estaria sofrendo de convulsões dentro da cela.

Claudinei Rodrigues da Silva, 19 anos, detido em flagrante há apenas alguns dias em Agudos por porte ilegal de armas, foi o protagonista da “peça”. Segundo a polícia, quando um dos carcereiros chegou para ver o que estava acontecendo, ele se deparou com o preso se debatendo no chão, espumando pela boca e com partes do corpo e da cela sujas de vômito.

O carcereiro pediu então ajuda a outros dois detentos para retirar Silva da cela. Quando o segundo carcereiro abriu a porta que separa a parte administrativa do pátio onde ficam as celas, ambos foram rendidos pelos três detentos, inclusive por aquele que havia simulado a convulsão.

Desta forma, os três tiveram acesso às chaves das celas e a duas armas – uma espingarda calibre 12 com dois canos e dois cartuchos e um revólver calibre 38 também municiado.

Eles retornaram ao pátio e abriram quatro das oito celas. Apesar das portas abertas, nem todos os presos fugiram. Uma pequena parte decidiu permanecer dentro da cadeia. Aqueles que preferiram fugir saíram por uma porta lateral e chegaram até a rua.

As celas onde ficam os presos por falta de pagamento de pensão alimentícia, presos em processo de investigação, menores de idade e os acusados por crimes sexuais, como o estupro, não foram abertas.

Ao todo, a cadeia de Avaí estava com 64 detentos antes da fuga. Ou seja, 16 a mais do que sua capacidade normal. A unidade recebe presos de várias cidades da região, entre elas Bauru. A lotação só não é ainda maior porque toda semana são feitas transferências para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru. Esporadicamente, surgem vagas para penitenciárias ou para o regime semi-aberto.

Retorno à cadeia

Logo após a fuga, os policiais de Avaí foram avisados e passaram a patrulhar as ruas da cidade. Não demorou muito, um dos fugitivos foi encontrado a poucos quilômetros da cadeia. Policiais de cidades da região também foram alertados sobre a fuga e três detentos acabaram sendo novamente presos em Duartina.

Entre os recapturados está o preso que simulou a convulsão. Silva foi detido quando tentava contratar os serviços de um mototáxi em Duartina, ontem à tarde. Antes disso, porém, ele passou por uma fazenda de Avaí, onde roubou um veículo e levou o proprietário como refém. Silva estava com a espingarda calibre 12. A arma foi deixada na fazenda e depois recuperada pela polícia. Um dos cartuchos havia sido deflagrado, mas a polícia não soube informar em que circunstância isso ocorreu.

O veículo roubado, um Fiat 147, e seu proprietário, que foi feito refém, foram abandonados em Duartina. A vítima não apresentava ferimentos.

Tanto o delegado como os funcionários mais antigos da cadeia não souberam dizer com exatidão quando havia sido registrada a última fuga em Avaí. A única certeza é que foi há mais de dez anos e nunca tantas pessoas fugiram ao mesmo tempo.

De acordo com o delegado, a corregedoria da Polícia Civil, em Bauru, deverá abrir uma sindicância para apurar eventual falha dos funcionários na fuga de ontem.

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Moradores se assustam

A fuga de 18 presos ontem de madrugada, em Avaí, assustou a população da cidade. “Acho que depois dessa ninguém mais vai dormir sossegado”, reclamou a dona de casa Janete Ferreira, 36 anos, que mora a poucos metros da cadeia.

Segundo ela, no mínimo, as pessoas vão pensar melhor na hora de abrir a porta de casa sem saber quem está batendo. Isso para não correr o risco de ter a residência invadida por fugitivos, como aconteceu com uma família no Núcleo Habitacional Júlio Rocha.

“A polícia vive dizendo para a gente não se preocupar porque os presos daqui não são perigosos. Na verdade, não é bem assim”, contestou Aline Ferreira, 21 anos, sobrinha de Janete.

O episódio preocupa também Vanessa Roberta de Carvalho Farias, 21 anos, que mora no bairro onde uma residência foi invadida pelos fugitivos. Na avaliação dela, assim como aconteceu com aquela família, poderia ter ocorrido com qualquer outra. “Isso me assusta porque às vezes meu marido precisa trabalhar à noite e eu fico sozinha em casa com meu filho”, conta ela, demonstrando bastante apreensão com o que ocorreu perto de sua casa.

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