Perder total ou parcialmente os movimentos do corpo é uma das mais graves seqüelas de acidentes para o ser humano. O fato é que isso ocorre com muito mais freqüência do que se imagina. Só no Hospital de Base de Bauru foram registrados 13 internações por lesão medular de janeiro a junho deste ano. A maioria das vítimas tem entre 20 e 30 anos e muitos casos são decorrentes de atitudes irresponsáveis.
As informações são do neurocirurgião Gustavo Ducati, médico voluntário do Projeto Pense Bem, que mantém ações voltadas à prevenção de traumas entre jovens. Segundo Ducati, as estatísticas mostram que muitos acidentes poderiam ser evitados ou minimizados com medidas preventivas simples, como o uso de cinto de segurança e capacete, respeito aos limites de velocidade e moderação na ingestão de bebidas alcoólicas.
Ele informa que os acidentes com moto ocupam o primeiro lugar na lista das causas de lesões medulares entre adultos jovens. Na maioria das vezes, a vítima não usava capacete.
Em segundo lugar aparecem os traumas causados por mergulho em água rasa. “Pouquíssimas pessoas sabem disso, mas muitos jovens ficam paraplégicos ou tetraplégicos por baterem a cabeça no fundo da piscina ou em pedras submersas”, alerta.
Os acidentes de carro estão em terceiro lugar, quase sempre associados ao uso de bebidas alcoólicas ou drogas. E em quarto lugar aparecem as lesões causadas por armas de fogo.
De acordo com a psicóloga Luciana Biem Neuber, muitos desses acidentes ocorrem por uma necessidade desmedida que alguns jovens têm de ultrapassar seus próprios limites. “Essa vontade de viver intensamente é comum na juventude. Só que alguns curtem a vida com responsabilidade e segurança, enquanto outros se arriscam desnecessariamente”, observa.
Mas as conseqüências de uma lesão medular são muito sérias e vão além da paralisia. Dependendo do ponto e da extensão da lesão, além de perder os movimentos e a sensibilidade dos membros, o paciente pode apresentar alterações em vários outros órgãos e funções do corpo.
Ducati explica que é comum, por exemplo, o paciente apresentar incontinência urinária e fecal, além de perder suas funções sexuais. “No caso do homem, normalmente ele consegue obter a ereção quando é estimulado, só que ele não vai senti-la. E se o trauma ocorre nas vértebras cervicais (na altura do pescoço), o paciente pode ter alterações para falar, engolir e até respirar”, afirma.
Segundo ele, praticamente todos os pacientes têm de ser submetidos a uma cirurgia demorada e arriscada para estabilizar a coluna. “E é muito difícil haver uma reversão. Geralmente o máximo que os pacientes conseguem é ter uma recuperação parcial, lenta e pequena”, afirma.
Nova realidade
O advogado Eduardo Janone da Silva, 28 anos, conta que ficou tetraplégico há dois anos, depois de sofrer um acidente automobilístico. “Eu estava indo prestar um concurso no Mato Grosso do Sul. Mas a estrada estava em péssimo estado de conservação. Ao passar num buraco, uma peça do carro se quebrou (ponta do semi-eixo) e perdi o controle. Quase não tive escoriações, mas sofri uma compressão medular na altura da coluna cervical”, lembra.
Passado o choque, o período de adaptação e seguindo um longo tratamento, Silva chama atenção para o fato de que ninguém está preparado para viver uma mudança tão profunda na vida.
“Uma das matérias que caem em concursos públicos é o direito da pessoa portadora de deficiência e eu sempre estudei isso. Só que de repente deixei de ser teórico para ser prático. A gente não tem a mínima noção do que uma lesão dessas significa. Você só vai aprender realmente quando alguém na sua família é vitimado ou quando você se torna a vítima”, desabafa.
Ele confirma que, além de perder os movimentos e a independência, a vítima de uma lesão medular tem que ter outros cuidados que a maioria das pessoas sequer imagina.
“As pessoas só vêem a perda de locomoção, não sabem que você tem que ter uma alimentação regrada, porque não pode ganhar peso; tem que ter cuidado com a bexiga e o intestino; tem que cuidar da pele, mudar de posição a toda hora para não ter úlceras (escaras). São inúmeras questões que, de repente, passam a fazer parte do seu dia-a-dia”, descreve.
Dois anos depois, fazendo muitas sessões de fisioterapia e seguindo o tratamento, Silva comemora a recuperação de alguns movimentos. “Tive o que os médicos chamam de lesão incompleta, a medula não se rompeu totalmente. Daí a possibilidade de readquirir parte dos movimentos com o passar do tempo. Mas não tenha dúvida de que é um turbilhão de sentimentos para você controlar e administrar”, confessa.
Silva diz lamentar que tantos jovens corram riscos desnecessários e sugere que eles busquem mais informações sobre a lesão medular. “A gente sempre acha que essas coisas só acontecem com o vizinho”, pondera.
Questionado sobre restar alguma revolta, ele admite que sim. “Mas não só pelo que aconteceu comigo. Minha revolta é ver que o cidadão paga seus tributos, pedágios e não vê a contrapartida. Com certeza minha situação não me traz tanto incômodo como ver que o mau uso da coisa pública é uma situação global”, afirma.