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Entrevista da semana: Falta de praças compromete cidadania

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 10 min

Imortalizada na voz de vários cantores, a música “A praça”, de Carlos Imperial, retrata com fidelidade em sua letra um passado que não existe mais. Os espaços públicos, como praças e parques, eram considerados locais de encontros de casais nos finais de semana, de reuniões festivas e de comícios políticos. Em sua música, Imperial fala do banco em que beijou seu amor, ladeado de árvores e belas flores, do guarda e do pipoqueiro.

Mas o cenário de hoje é diferente. Boa parte dos espaços públicos construídos no passado está abandonado, degradado e sob constante ação de vandalismo. Não há mais guarda, as flores e árvores escassearam e o pipoqueiro desistiu da solidão. O poder público, com raras exceções, trata com indiferença a manutenção e a implantação de novos espaços coletivos.

Para o professor Adalberto Retto Jr., da Faculdade de Arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os urbanistas de hoje pensam que a única justificativa para o projeto urbano é a resolução técnica em detrimento de um estudo mais aprofundado da dimensão estética na concepção e valorização de conjuntos urbanos que possam estimular a vida da comunidade.

Ainda na sua avaliação, se o poder público oferecer segurança e qualidade em suas praças e parques, as pessoas vão desligar a TV para se encontrar nos espaços dedicados a elas, locais ideais para lazer, reuniões e debates. Com isso, a construção da cidadania, reivindicada com veemência nos discursos políticos, ganharia um grande aliado. A seguir, a entrevista:

Jornal da Cidade - Em que época do cenário histórico da humanidade surgem os espaços públicos?

Adalberto Retto Jr. - O estudo do espaço público na civilização ocidental remonta a Pólis grega, no século 5, com sua ágora e o Fórum romano. Mas são as praças italianas que recorrentemente são tomadas como modelos de urbanidade, principalmente com a análise elaborada por Camillo Sitte em seu livro ‘A Construção das Cidades segundo seus princípios artísticos’. Pontuaria duas imagens cruciais de problematização do espaço público em que esses modelos são retomados e com repercussões diretas nas nossas cidades. O primeiro, as Reformas do Barão Haussmann, que serviu de paradigma para a maior parte das intervenções urbanas que se sucederam na segunda metade do século 19, que reorganiza a cidade de acordo com os interesses do capital, implantando em Paris uma forma sectária de metrópole, decomposta em setores, aberta tanto para a circulação de mercadorias quanto de tropas em guerra contra as barricadas.

A segunda, situa-se o discurso ideológico sobre a arquitetura como ‘lugar público’ nos anos de 1980, que anima boa parte dos arquitetos e urbanistas empenhados em encontrar um antídoto para a patologia das cidades modernas, ou ainda, diante daquilo que alguns autores chamariam de ‘A Agorafobia Moderna’.

JC - Especificamente no Brasil, em que época os espaços públicos surgiram?

Retto - As primeiras cidades fundadas, como Salvador, seguiam uma estrutura renascentista com uma praça central. Mas eu traçaria resumidamente um percurso para explicitar momentos de importância em que os espaços públicos ganham relevância nas cidades brasileiras, demonstrando, assim, transformações conceituais por que passaram esses espaços em um longo arco temporal. Ressaltaria os espaços públicos concebidos durante as transformações urbanas nas denominadas ‘cidades capitais’. O modelo a ser seguido era a cidade de Paris e assim os chamados ‘melhoramentos’, em cidades como Rio de Janeiro e Belo Horizonte, por exemplo, tinham suas praças, avenidas, jardins pautados nos parâmetros estéticos da cidade luz. Nos anos 30, temos os denominados ‘projetos de conjunto’ como aquele de Alfred Agache para o Rio de Janeiro enfocando uma esplanada denominada ‘Porta do Brasil’. A praça dos Três Poderes em Brasília é um outro exemplo, que se coloca dentro de outra problemática e é concebido por Lúcio Costa como o coração do nosso País. Mais recentemente Curitiba.

JC - O que é muito claro na política urbana aplicada nos dias de hoje é a falta de preocupação dos governantes com os espaços públicos. A que se deve essa indeferença?

Retto - Se por um lado isso pode ser verdade, por outro, alguns teóricos decretariam o declínio do próprio homem público. Mas se na ‘Experiência da Metrópole’ colocado por Georg Simmel em ‘A Metrópole e a vida mental’ isso pode ser entendido na sua amplitude, em cidades de médio e pequeno portes, como é o caso de Bauru e de Agudos, teríamos que reequacionar a problemática. Chamaria a atenção, porém, para algo que inicialmente pode parecer banal, mas que no meu ponto de vista, na nossa realidade ganha particular interesse: a dimensão estética da cidade, que sempre é deixada de lado pelos governantes, mas também pelos arquitetos e urbanistas quando pensam a cidade. Concordo que um dos componentes principais do urbanista é o saber técnico consolidado, mas a dimensão estética da cidade também faz parte desse saber. No ano passado, sediamos um congresso internacional sobre Camillo Sitte, que é o introdutor dessa dimensão nos estudos da cidade.

JC - O senhor acha que nossos governantes e urbanistas são incapazes de projetar cidades funcionais, mais direcionadas para o aspecto humano?

Retto - Nossos governantes e urbanistas são capazes de reconhecer beleza em cidades como Veneza, mas são incapazes de imaginar nossas cidades sendo desenhadas de forma bela dentro de uma conjuntura atual e de uma técnica contemporânea. Há falta de interesse do poder público em fazer com que o espaço público seja um espaço de agregação, de encontro, de qualidade de vida. Mas eles não são especialistas da cidade. Coloco a culpa muito mais nos urbanistas que se sentem impossibilitados de desenhar a cidade contemporânea sem recorrer a fórmulas fáceis do passado, como foi o caso de Curitiba. A pergunta é: qual é o lugar na nossa cidade que faz com que nós tenhamos o compromisso de usufruí-lo, de preservá-lo? O pouco que se vê nas cidades são arremedos de projetos de espaços públicos que levam a equívocos. Logo, o papel do urbanismo como disciplina, que deveria informar e formar o cidadão naquilo que ela é capaz de proporcionar como qualidade de vida, é no mínimo negligenciado. Por exemplo: nós temos um percurso informal na avenida Getúlio Vargas, de grande fluxo da classe média. Até agora, o poder público foi incapaz de fazer com que a população tenha um espaço de qualidade para usufruir daquela forma. Com isso, não estou reivindicando que seja transformado em um espaço público, mas quero ressaltar que, na impossibilidade de ter o espaço, a população se apropria até mesmo de espaços sem nenhuma qualidade. E num determinado ponto desta via colocaram uma placa assinalando que ali é uma praça. É preciso criar um vocabulário urbano que permita ao transeunte reconhecer a linguagem da cidade, e não gerar equívocos como esse.

JC - Que referências positivas podem ser destacadas no modelo de Curitiba?

Retto - O modelo curitibano, que é pautado no desenho da cidade do século 18, é paradigmático para a análise de muitas reformas urbanas que aconteceram a partir dos anos 80 porque aposta de forma nostálgica na recuperação da vida pública através do redesenho de espaços do passado. Entretanto, o maior legado de Curitiba, no meu ponto de vista, é a formação de uma equipe, que de forma contínua garantiu um projeto de cidade. Mas devo confessar que, ao passear por Curitiba, a repetição de fórmulas do passado me faz pensar na falência da nossa capacidade de criar imagens novas. O modelo curitibano deve ser pensado dentro de uma conjuntura e nada mais. Nossos urbanistas devem tomar como ponto inicial de reflexão a dimensão corporal com a cidade. Pois, não é que o cidadão não vá ao espaço público. É que ele não encontra no espaço público qualidade, que significa segurança, um espaço esteticamente concebido.

JC - Recentemente, o prefeito Tuga Angerami (PDT) anunciou que a praça Rui Barbosa vai passar por outra reforma. Por se tratar de um espaço público valioso da cidade, como esse projeto deve ser direcionado?

Retto - Eu ainda não conheço o projeto. Posso falar por uma discussão que estamos tendo com relação ao grupo de pesquisa, do qual sou membro, que é responsável pelo Plano Diretor do município de Agudos. O que seria o espaço contemporâneo hoje que pudesse na cidade levar ou estimular a participação e colaborar para a formação do cidadão? Acredito que a resolução pontual de uma praça pode ser muito significativa, desde que ela seja pensada na sua inserção mais ampla dentro dos sistemas em que ela se insere. Com isso, não estou dizendo que o urbanismo tenha a pretensão como no passado de desenhar cidades inteiras. Mas sim que todo projeto pontual é válido quando aciona a lógica do território e da cidade. Senão, estaremos reduzindo a nossa profissão à construção de meras maquiagens urbanas. O nosso grupo prefere pensar a cidade como um conjunto de sistemas que articulados possam permitir a utilização pela população de forma democrática. A cidade pode ser pensada e desenhada como um conjunto de fluxos. Basta de desenhar a cidade somente para o automóvel, ou ainda, para os que têm automóveis. No caso do plano de Agudos, vamos discutir o tema ‘O parque como elemento de reconexão urbana’. O parque, ao invés de ser algo externo à cidade, como no século 18, se disseminaria na cidade reconectando descontinuidades do tecido. E assim incorporando à periferia espaços de qualidade.

JC - Há um projeto de espaço público para o fundo de vale do córrego Água Comprida, área que se localiza nas imediações dos Residenciais Camélias e Flamboyant. Qual é a sua avaliação sobre essa proposta?

Retto - É um ponto importante. Os fundos de vale têm um papel muito importante dentro de uma resolução mais ampla da estrutura da cidade. Os fundos de vale deveriam ser acionados como elementos potencialmente relevantes dentro deste cenário. Hoje, eles são elementos de descontinuidade do tecido urbano. E por que não torná-los elementos de continuidade, já que abraçam a cidade de forma eqüitativa? Hoje, temos cidades com periferias alargadas e que devem ter qualidade, espaço público. Uma cidade como Bauru não pode pensar que a valorização do Centro é suficiente para garantir essa qualidade de vida. Esses fundos de vale podem ser pensados como conexão, espaços públicos com um programa que articularia o centro expandido à periferia de forma democrática. Acho que essa é uma das soluções mais inteligentes que poderiam ser feitas. Também gostaria de ressaltar que esta não é uma idéia nova. Na faculdade onde trabalho, temos no mínimo três trabalhos finais de graduação por ano abordando esta problemática.

JC - Nesse mundo de estresse, configurado por uma corrida constante contra o tempo, o espaço público bem pensado realmente funcionaria como uma válvula de escape, uma higiene mental para os cidadãos?

Retto - Essa pergunta me reporta aos municípios em que de fato isso acontece. Uma cidade que surpreendentemente tem uma vivência cotidiana que impressiona a nós brasileiros que vamos visitá-la é Buenos Aires. O que se vê na rua Florida, o calçadão, é um fluxo enorme durante o dia que perdura até quase as 2h da madrugada. Uma seqüência de livrarias, cafés, bancas de revistas 24 horas, que permitem um passeio tranqüilo no seu Centro. Além da vivência cotidiana nos parques. Então, dizer que só a Europa tem isso não é verdade. Acredito que a qualidade do espaço pode levar a utilização e formação do cidadão. A cidade para nós freqüentemente se resume a trabalho-casa-trabalho. E a partir das 8 da noite, temos o compromisso com a televisão. É preciso dar alternativas para que o povo possa passear, se divertir. Se há alternativas, chegará o momento em que o povo vai trocar as novelas por um café, por uma livraria para se informar, para debater.

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