Ao morrer, Antônio foi diretamente para o céu, sendo recebido pelo próprio Deus para uma pequena prestação de contas. Antônio, com a maior tranqüilidade, contemplou a imagem do Todo Poderoso e disse: “Senhor, no mundo lá em baixo eu cumpri a lei. Não me lembro de ter cometido uma só injustiça, não fiz nenhuma maldade, enfim, não cometi nada que viesse a me envergonhar. Senhor, minhas mãos estão simplesmente limpas!” Deus olhou o homem. Com pesar e com certa tristeza no olhar, respondeu: “É exatamente o que estou percebendo. O senhor saiu do mundo assim como entrou. Suas mãos não estão somente limpas, mas também completamente vazias!”
Dar um sentido à vida significa realizar dois movimentos: enriquecer o universo com nossa presença e nos enriquecer com a presença do universo. Para isso, é necessário vivenciar o que o filósofo Hegel chamou de “superação dialética”. Nesta expressão, Hegel utilizou a palavra em alemão “aufheben”, um verbo que a princípio não significa “superar”, mas sim “suspender”. Este verbo, porém, possui três sentidos diferentes. O primeiro sentido do verbo suspender é o de negar, anular, cancelar. Por surgir um trabalho, por exemplo, cancelo, suspendo um passeio que gostaria de fazer. As aulas são suspensas devido ao falecimento de um professor.
O segundo sentido é o de erguer alguma coisa e mantê-la suspensa para protegê-la. Ao suspendermos uma bandeira em um mastro, não só a protegemos, mas permitimos que todos possam vê-la. O terceiro sentido do verbo suspender é o de elevar a qualidade. Quando a conversa abaixa o nível, devemos procurar elevar a sua qualidade. Ao explicar a “superação dialética”, Hegel emprega a palavra suspender com seus três sentidos ao mesmo tempo. Para ele, a superação dialética é simultaneamente a negação de uma determinada realidade, a conservação de algo essencial que existe nesta realidade negada e a elevação dela a um nível superior.
A superação dialética de Hegel pode ser exemplificada com o processo de transformação da natureza através do trabalho. Através deste, a matéria-prima retirada da natureza é “negada”, ou seja, destruída em sua forma natural. Mas ao mesmo tempo ela é conservada, ou seja, aproveitada em sua essência e assume uma forma nova, modificada, correspondendo aos objetivos humanos, elevada em seu valor. O tronco de árvore é retirado da natureza e destruído como árvore, mas a madeira (sua essência) é transformada em um móvel, elevando assim seu valor para a utilização e conforto da vida humana. Da mesma forma, acontece com o trigo, o qual, ao ser superado como grão, retira-se dele o essencial transformando-o em pão, alimento que gera vida. “Todos os seres circulam uns nos outros. Tudo é um fluxo perpétuo. O que é um ser? A soma de um certo número de tendências. E a vida? A vida é uma sucessão de ações e reações. Nascer, viver e passar é mudar de formas” (Denis Diderot).
Se desejamos dar um sentido à nossa vida e saboreá-la com mais prazer, devemos vivenciar a “superação dialética” em qualquer circunstância. Toda situação da vida é passageira e deve ser vivenciada ativamente como efêmera. O ser humano deve entrar em qualquer situação, seja ela boa ou ruim, com a consciência ativa de sua realidade temporal. Na vivência de tal circunstância, o ser humano deve assimilar dela o que há de positivo, de essencial, de aproveitável. Desta forma, elevamos o nível de compreensão desta situação e nosso próprio crescimento como pessoa, saindo da circunstância mais fortalecidos e mais humanos. “Ao atuar sobre a natureza exterior, o homem modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza” (Karl Marx).
Muitas vezes, vivenciamos momentos tristes e dolorosos. Ao vivenciá-los, temos a impressão de que eles nunca terminarão e quando terminam eles se tornam um peso não somente em nossa memória, mas em nossa própria maneira de ser. Estes momentos se transformam em uma mácula, uma mancha que nos marca e atrapalha outros momentos. Mas, se adotamos a “superação dialética” como um modo de viver, entramos nos momentos infelizes com a consciência de superá-los, de caminharmos para o seu término. Ao mesmo tempo, retiramos destas situações infelizes algo de bom, de proveitoso, algo que nos faça crescer.
Aprendemos então que “tudo o que é digno de ser é digno de ser conhecido” (Francis Bacon). Ao fazermos isso, elevamos o nível da própria circunstância que, de infeliz, passa a ser vista como um aprendizado. Ao mesmo tempo, ao invés de sairmos com rancor, mágoa, arrependimento ou qualquer outro sentimento ruim, saímos homens novos, pessoas amadurecidas e fortalecidas, abertos e mais preparados para novas circunstâncias. Segundo Hegel, a função do pensamento consiste em “elevar-se acima do ser contingente, em apreender a necessidade oculta sob a aparência do ser contingente”.