Pesca & Lazer

História de Pescador: Pescaria em alto mar


| Tempo de leitura: 5 min

"Embarcamos em São Sebastião (SP) por volta das 11h, já no barco o Carlão do INSS, que providenciou toda a tralha e aluguel do barco, e o Marcos, da Empresa Boa Pesca. Por serem veteranos nesta modalidade de pescaria, ficaram provocando, dizendo que queriam ver os quatro marinheiros de primeira viagem ficar enjoados e chamar o Juca. Mas a gozação voltou-se contra eles, pois os quatro marinheiros agüentaram firmes e não enjoaram, os dois veteranos não resistiram ao balanço do barco e chamaram o Juca várias vezes.

O piloteiro nos levou a um lugar acima da Ilha de Búzios, perto da Ilha Vitória, que fica três horas e meia mar adentro. Chegando lá, cada um se posicionou num lugar do barco.

O Humberto, cunhado do Carlão, não ficou mais que dez minutos, demonstrando que pescar não era seu forte. Foi para o dormitório, escolheu a melhor acomodação e dormiu o tempo todo. De vez em quando saía para comer tomate com sal, sendo esta a alimentação usada por todos, pois, mesmo estando o barco equipado com fogão, churrasqueira e carvão, ninguém tomou a iniciativa de preparar o churrasco ou assar alguns peixes. Quem agradeceu foi o piloteiro, que ganhou de presente duas peças de picanha.

O Marcos não conseguiu pescar direito, pois, talvez por azar, só fisgava moréias, e das pequenas, que enrolavam na linha. Sendo ele um pescador ecologicamente correto, tinha a maior paciência para desenrolar e tirar o anzol, devolvendo-as ao mar sem maiores danos, já que este peixe não serve para comer. Para sair na foto pegou um peixe emprestado, pela pose parece que foi ele quem pescou.

O Marcelo, do Escritório Santa Luzia, toda hora que fisgava um peixe ficava fazendo comparações, dizendo que o peixe era bom de briga, tanto quanto algum que já pescou em rios, tais como: lambari, tilápia e bagre. Até a moréia que pescou disse parecer com uma pirambóia.

O Arilson, da Serralheria MAP, pescador tranqüilo, sem alarde ia fisgando um peixe atrás do outro. De vez em quando pedia silêncio para não espantarmos os peixes, e realmente quando o barulho aumentava os peixes sumiam. Quando houve silêncio total, ele fisgou duas corvinas de uma só vez.

Eu não pesquei nenhuma moréia, só pesquei peixes nobres, dentre os quais: linguado, anchova, robalo e abadejo; por descuido pesquei um peixe-espada, e também participei ativamente na tentativa de capturar três enormes peixes, personagens principais desta história que narro a seguir:

Tarde da noite fomos dormir, menos o Carlão, que ficou pescando sozinho. Ao acordarmos vimos o Carlão folheando e lendo uma revista, que revista seria e qual o assunto? Era um manual com dicas de como pescar no mar. Pelo visto, os ensinamentos funcionaram, sua linha estava com luzes de neon vermelha na flor d’água e verde na chumbada, e até àquela hora ele havia enchido duas caixas de 200 litros cada uma com peixes-espada. Não queria parar nem para tomar café. Ao saber da hora, exatamente às 6 da manhã, disse que sem muitas pretensões iria testar mais uma dica do manual, que seria para pescar garoupa (certamente foi encorajado pelo piloteiro, que declarou ter visto pessoas naquele lugar pescarem garoupas de até 200 quilos). O Carlão estava com tudo, bem equipado. Seguindo as instruções do manual, preparou três varas usando anzóis e linha com capacidade individual de até 500 quilos e 500 metros de comprimento, usando lula como isca. Tudo pronto, fixou as varas nos suportes instalados na proa do barco, relaxou e foi tomar café. Quando quis saber se eu estava gostando da pescaria, o barco recebeu seguidamente três fortes trancos, e vimos que as três varas, uma atrás da outra, receberam a visita de peixes. Eu, o Carlão e o piloteiro fomos para a proa tentar içar os peixes. Que nada, a força era tanta que o piloteiro, muito experiente e percebendo a força e o perigo do barco naufragar, recolheu a âncora. Ficamos à deriva, guerreando com os peixes que não davam sinais de trégua. Cansados, recolocamos as varas nos suportes do barco e deixamos por conta da sorte. Até então não era possível distinguir a espécie dos peixes. O piloteiro nos deixou tranqüilos, ao nos informar que estando a âncora recolhida não havia possibilidade de o barco vir a pique. Por medida de segurança vestimos os coletes salva-vidas. Apreensivo, desisti de ajudar passando a ser mais um expectador e no fundo torcendo pelos peixes, chegava a ser engraçado. Mas depois ficou engraçado mesmo, porque da mesma forma que foram fisgados, os peixes também escaparam, ou seja, um atrás do outro. Depois de tanta luta, a frustração foi geral: além de perdermos os peixes não soubemos qual seria a espécie, provavelmente eram três garoupas de 200 quilos cada uma! Só nos restou comentarmos que a partir deste episódio iríamos acreditar em todos os pescadores que em suas pescarias relatam que o maior peixe escapou, pois realmente aconteceu conosco. O fato inusitado é que desta vez foram três peixes, ao invés de um só!

Já em terra firme, cuidamos logo de tomar banho e almoçar num restaurante próximo. O curioso foi que na mesa havia salada de tomates... até agora não há respostas para o fato de ninguém ter comido pelo menos uma fatia... Nas conversas, concluímos que pescaria no mar é emocionante, e deixamos em aberto a possibilidade de marcarmos outra pescaria. Por ora, o único que se prontificou a estar presente foi o Humberto, que disse ser ótimo comer tomate com sal, dormir no barco e dar boas risadas, assistindo de camarote a ação dos pescadores fisgando peixinhos e deixando escapar os maiores.”

Rinaldo Ricci é pescador e contador de histórias

Comentários

Comentários