Segundo o dicionário Aurélio, mentir é dar uma indicação contrária à verdade, induzir ou ser causa de erro ou iludir. Embora seja encarada por muitos como inocente, a mentira pode tomar proporções maiores ao ferir relacionamentos, provocar tragédias ou desencadear problemas sociais.
No terreno político, ela parece estar encontrando campo fértil. Basta apontar as contradições nos depoimentos e interrogatórios das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) do Congresso Nacional. Nesse sentido, o atual cenário motiva uma reflexão: “A mentira é natural do ser humano?”.
A psicóloga Regina Paganini Furigo, professora da Universidade do Sagrado Coração (USC) e presidente do Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e Região, explica que a mentira é um produto da racionalidade humana.
“Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço e fundador da Escola Analítica de Psicologia ensinava que o homem é um ser racional e irracional. Não existe alguém que seja apenas bom ou apenas mau. Somos bem e mau ao mesmo tempo”, diz Furigo. “Pelo processo de aculturação, nos acostumamos a a negar nosso lado obscuro, invejas, ciúmes e mentiras. Mas o homem é ao mesmo tempo um ser angelical e demoníaco. Cabe à nossa consciência o desenvolvimento de valores éticos”, acrescenta.
O psicólogo Fernando Fernandes ressalta que o ato de mentir ou dissimular está presente no mundo animal. “Alguns cães em atitude de defesa mostram os dentes e expressam valentia, mas, ao serem enfrentados, correm demonstrando que o verdadeiro sentimento é de medo. Os peixes ficam imóveis ao serem capturados como se estivessem mortos e, à primeira chance, escapam num movimento rápido. São maneiras de dissimular comportamentos. Tentam enganar e ‘mascarar’ a verdade”, detalha.
Vista como representação desfocada da realidade, a mentira tem vários graus de manifestação, afirma Fernandes. Segundo ele, no contexto político brasileiro, ela pode ser utilizada como recurso para conquistar poder e de defesa contra as denúncias surgidas. “A mentira é percebida nas contradições entre os seus depoentes e nas declarações derrubadas por provas documentais. Nesse caso, ela apresenta-se como técnica, mas a questão central é de caráter”, aponta.
Gestos
Se o ato de mentir pode soar como falha de caráter, a omissão é um direito do ser humano. De acordo com o princípio geral do Direito, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. “Em via de regra, o suspeito de cometer um crime pode mentir, cabe à polícia o ônus da prova”, esclarece o delegado seccional de polícia de Bauru, Antônio Ângelo Ciocca.
De acordo com ele, é possível descobrir se uma pessoa está mentindo por meio de gestos e olhares. “A polícia percebe quando alguém está falseando. Ele pode ficar avermelhado e trêmulo, adotando uma linguagem corporal que, às vezes, pode ser interpretada como mentira”, destaca.
Furgio e Fernandes concordam. De acordo com ela, algumas dicotomias são muito nítidas ao se observar as reações corporais das pessoas que mentem. “A pessoa sorri enquanto os olhos estão tristes ou, ainda, a voz tenta parecer calma mas o olhar é de pânico. Há ainda tremores nas faces e gestos desarticulados que ocorrem de forma inconsciente”, exemplifica.
“Os gestos das mãos, dos pés e a direção do olhar podem denunciar a mentira. Porém, é algo passível de erro, pois alguns mentirosos acabam acreditando em suas mentiras, mentem para si mesmos e estudam os próprios gestos para não se contradizerem”, salienta Fernando.
Educação
O ato de mentir começa ainda na infância, muitas vezes por influência direta do adulto, aponta Furigo. “Até que ela tenha seu ego totalmente formado, os egos condutores são os parentais. O homem nasce potencialmente dotado para a mentira. Caberá ao meio a possibilidade de desenvolver essa potencialidade de forma mais ou menos ampla”, diz.
Segundo Fernandes, em alguns casos, a mentira “infantil” é patológica - quando a criança faz acusações não reais comprometendo terceiros - ou ainda funcionar como expressão de fantasias naturais da idade. “O termômetro de compreensão dos pais é a quantidade e a incidência dos episódios mentirosos, bem como o nível de dano da mentira”, observa.
Para Furigo, a fantasia e a imaginação são saudáveis para a mente humana, em especial para os pequenos. “Quando uma criança termina a brincadeira, sabe que aquilo era parte do ‘faz de conta’ do seu brincar, atividade que a ajuda a aprender e estar em contato com a realidade”, diz.
Nesse panorama, a educação exerce função primordial, ressalta o psicólogo. Ele explica que muitos escritores “revertem” a mentira fantasiosa na criação de contos e fábulas.
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Na telona
A mentira inspirou diversos filmes. Entre eles o longa “Prenda-me se For Capaz”, de 2002, com direção de Steven Spielberg. Leonardo Di Caprio vive Frank Abagnale Jr., que já foi co-piloto, médico e advogado, entre outras profissões, com apenas 18 anos. Por meio de disfarces, ele pratica golpes milionários e se transforma em um bem-sucedido ladrão de banco. Porém, suas mentiras são descobertas pelo agente do FBI Carl Hanratty, interpretado por Tom Hanks, que após várias tentativas consegue capturá-lo.
Já em “O Casamento de Romeu e Julieta”, de Bruno Barreto, a mentira ganha contornos mais leves ao contar a saga de um palmeirense (Marco Ricca) que se finge de corinthiano para conquistar a noiva (Luana Piovani) e sua família. No final, a trama é descoberta e as diferenças esportivas são superadas em nome do amor.
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Patologia
A mentira pode causar desastres, principalmente quando se trata de transtornos de personalidade, explica a psicóloga Regina Furigo. Segundo ela, um dos quadros mais severos é o transtorno de personalidade anti-social é caracterizado pela propensão para enganar, mentir repetidamente, usar nomes falsos e ludibriar as pessoas para conseguir prazer ou vantagens pessoais.
O psicólogo Fernando Fernandes destaca que pessoas obsessiva-compulsivas em geral escondem questões mal-resolvidas. “Nesse caso, a mentira serve como distração, a criação de uma verdade paralela. Regras muito duras no lar, ou o seu oposto, e baixa auto-estima podem ser ambientes estimulantes. Mas a causa das compulsões merece enfoque único para cada pessoa”, enfatiza.