Ser

Mente tranqüila

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 8 min

Considerada por parte dos psiquiatras e psicólogos como uma das conseqüências do estresse da vida moderna, a depressão é um assunto que merece atenção especial de todos. Atualmente, 121 milhões de pessoas sofrem com a doença, que em 2020 poderá ser a segunda de maior impacto mundial, aponta a psiquiatra paulistana Andréa de Abreu Feijó de Mello, responsável pelo núcleo de pesquisas do Programa de Atendimento às Doenças Afetivas e de Ansiedade (Prodaf) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pela qual também é doutoranda em psiquiatria.

Mello esteve em Bauru no último dia 17, ministrando a palestra “Bupropiona na Depressão e Condições Associadas”. O evento, promovido pela Libbs Farmacêutica, foi direcionado a médicos psiquiatras.

A substância química foi tema do evento e é um dos medicamentos utilizados no combate à depressão. A doença, porém, conta com diversos tipos de remédios e tratamentos, que devem ser permeados pela tolerabilidade e eficácia durante seu uso.

Segundo Mello, cerca de metade dos pacientes diagnosticados como depressivos sofrem de transtorno bipolar, subtipo de depressão em que o paciente alterna situações de euforia e tristeza. “A cada nova fase os quadros costumam ser mais graves, daí a importância de divulgarmos informações sobre esses trantornos para que cada vez um número maior de pessoas tenha acesso ao tratamento”, alerta ela.

Discussão sobre formas de diagnosticar e tratar a doença, novos medicamentos, efeitos colaterais e melhor qualidade de vida foram alvo da entrevista concedida por Mello - que é casada há 14 anos e mãe de um menino de 8 anos - ao Jornal da Cidade. Confira a seguir.

Jornal da Cidade - Segundo a senhora apontou na palestra, a depressão afeta 121 milhões de pessoas e em 2020 poderá ser a segunda doença de maior impacto mundial. Como diagnosticá-la e quais seus principais sintomas?

Andréa de Abreu Feijó de Mello - Os principais sintomas do quadro depressivo são humor deprimido e/ou perda de interesse ou do prazer nas atividades habitualmente prazerosas. Além disso, vários outros sintomas podem acompanhar o quadro. Entre eles perda de peso, insônia, retardo motor, cansaço excessivo, sentimento de inutilidade ou de culpa, dificuldade para se concentrar, raciocinar ou tomar decisões e ter pensamentos de morte ou vontade de se matar, nos casos mais graves. Uma pessoa que apresente um dos sintomas principais e mais quatro dos outros descritos acima por pelo menos duas semanas seguidas é considerada deprimida. Esse é o tipo mais típico de depressão, mas existem variações em que ocorre hipersonia (dormir demais) e hiperfagia (aumento do apetite) ou ainda associação com sintomas de ansiedade e inquietação motora.

JC - O transtorno bipolar é um subtipo de depressão? Detalhe mais sobre a doença.

Andréa - Na realidade, o quadro depressivo é um só, com as variações de sintomas indicados acima, porém existem indivíduos que têm apenas depressão. É o caso da depressão unipolar, e indivíduos que alternam fases depressivas com fases de hipomania ou mania. Esses indivíduos recebem o diagnóstico de transtorno bipolar, ou seja, a depressão nesses pacientes pode ser denominada, então, como depressão bipolar. O transtorno bipolar é caracterizado pela alternância de fases de euforia e depressão. No caso da hipomania, a intensidade da aceleração e euforia são menores do que no caso da mania. Hoje existem estudos que mostram que aproximadamente metade dos pacientes com depressão são, na realidade, do subtipo bipolar.

JC - Qual é o tratamento ideal para pacientes depressivos e bipolares?

Andréa - O tratamento da depressão é feito com antidepressivos em ambos os casos, porém no caso dos bipolares é necessária a associação com medicações estabilizadoras do humor, pois nesses pacientes o uso do antidepressivo sozinho pode precipitar uma fase hipomaníaca ou maníaca. Também devemos pensar nos antidepressivos mais adequados para esses pacientes, que tenham menor potencial de desencadear os quadros de euforia. Além das medicações, a psicoterapia e os grupos psicoeducativos são bastante importantes no tratamento.

JC - Alguns recentes estudos psiquiátricos defendem a tese de que o paciente que sofre de transtorno bipolar e possui constantes fases de mania e depressão pode, ao longo dos anos, sofrer uma espécie de degeneração cerebral. Qual sua opinião sobre o assunto?

Andréa - Na realidade, se o controle da doença não for adequadamente realizado, pode ocorrer uma degeneração, por isso é muito importante que o diagnóstico seja feito precocemente e o tratamento instaurado. Sabemos que para os pacientes bipolares do tipo dois, que alternam fases de depressão com hipomania, o diagnóstico pode demorar até dez anos para ser feito. Infelizmente, a cada nova fase o tratamento se torna menos eficaz e os quadros costumam ser mais graves, daí a importância de divulgarmos as informações sobre esses transtornos, para que cada vez um maior número de pessoas tenha acesso ao tratamento.

JC - Muitas pessoas que sofrem de doenças afetivas e de ansiedade não têm acesso ao tratamento. Existem políticas públicas para a recuperação desses pacientes? Como elas se desenvolvem no âmbito estadual e municipal?

Andréa - Precisamos ainda desenvolver programas mais efetivos de ensino sobre essas patologias. Muitas vezes o problema está na dificuldade do próprio profissional da área de saúde em fazer o diagnóstico, o que por si só já atrapalha o acesso ao tratamento. Além desse problema, nosso sistema de saúde é muito falho em termos federais, esbarrando na falta de recursos. Contudo, o próprio clínico geral do sistema básico de saúde deveria ser capaz de diagnosticar e tratar casos de depressão e ansiedade, encaminhando para o especialista os casos de maior complexidade, como os tipos bipolares, por exemplo, que necessitam do manejo de maior número de medicações e controle mais próximo da doença.

JC - Uma das principais queixas dos pacientes é justamente em relação aos efeitos colaterais provocados pelos antidepressivos - como foi dito na palestra, muitos abandonam o tratamento por causa disso. Dentro desse panorama, qual seria a melhor alternativa para tratar das doenças psíquicas?

Andréa - O melhor antidepressivo a ser usado é aquele com o qual o seu paciente se adapta melhor. Geralmente a escolha é guiada pelo perfil de ação e pelos sintomas predominantes em cada caso. Assim não há como dizer qual o melhor para todos os casos de depressão, e sim estudar cada paciente individualmente. Com certa freqüência temos de mudar de antidepressivo até acertar o que apresente menores efeitos colaterais para o paciente, às vezes, ainda, associamos medicações nesta busca por eficácia e tolerabilidade.

JC - A senhora falou sobre a depressão entre idosos. Esse perfil é mais propenso para o desenvolvimento da doença? Quais as formas mais indicadas para evitá-la ou tratá-la?

Andréa - A depressão no idoso é bastante comum, muitas vezes associada a outras doenças clínicas ou ainda ao uso de medicamentos diversos que podem desencadear sintomas depressivos. Hábitos saudáveis, uma boa rede de apoio social, manter-se ativo e leitura são alguns ítens que ajudam a evitar um quadro depressivo. O tratamento é feito da mesma forma, porém tendo em vista medicações com baixo potencial de interação medicamentosa nos casos de doenças concomitantes e uso de medicamentos diversos.

JC - E em relação às crianças e aos jovens, quais tipos de transtornos são mais comuns nessa população? Cite exemplos, se possível.

Andréa - Hoje em dia é cada vez mais comum os casos de depressão entre adolescentes e crianças. Isso parece ser um quadro relacionado ao nível de exigência que a nossa sociedade têm imposto aos jovens desde muito cedo, com excesso de atividades e competitividade, levando ao estresse desde a infância. Além da depressão, atualmente temos discutido bastante o diagnóstico de transtorno bipolar e do déficit de atenção e hiperatividade, às vezes difíceis de serem feitos em um primeiro momento, mas que merecem nossa atenção, até por que estão associados.

JC - A senhora acredita que o estresse diário pode desencadear depressão ou outras doenças psíquicas?

Andréa - Já temos muitos estudos comprovando a relação entre o estresse e a depressão e os transtornos de ansiedade. Vários eventos de vida são relacionados ao desencadeamento da depressão, como luto, perda de emprego, mudanças de cidade ou trabalho, divórcio e perdas financeiras.

JC- Qual o segredo para uma boa qualidade de vida?

Andréa - Tudo depende de equilíbrio. Acredito que, na realidade, o importante é termos uma boa percepção de nós mesmos, de nossos limites e capacidades. É claro que isso não é fácil no mundo competitivo em que vivemos, mas evitar o estresse é um grande ponto para uma vida saudável, o cuidado com a dieta, exercícios físicos regulares, uma boa noite de sono e momentos de lazer são extremamente importantes.

JC - Os produtos alternativos ou naturais podem ser utilizados para o tratamento das doenças emocionais?

Andréa - Não há qualquer comprovação científica de que esses medicamentos gerem bons resultados. Como essas doenças, se não tratadas adequadamente e precocemente, podem levar à deterioração, acredito que no momento atual a melhor alternativa que temos é de usar aqueles medicamentos cientificamente comprovados.

JC- Mudando um pouco de assunto, o que a senhora está lendo atualmente?

Andréa - Ultimamente procuro ler livros bastante banais, que me dêem estes momentos de lazer e me façam desligar do estudo e trabalho. O último que li chama-se “Sushi”, são histórias divertidas sobre mulheres no mundo moderno.

JC - Quais são seus próximos projetos?

Andréa - Minha linha de pesquisas está focada nas relações entre estresse e depressão. Devo me aprofundar cada vez mais neste tema tão fascinante e atual.

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