Tribuna do Leitor

Triste devastação


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Testemunhei o início da devastação da mata da Zona Sul de Bauru, nestes últimos 15 dias. Minha casa fica a cerca de 2 km desta mata, o que me permite contemplar este belo horizonte de vegetação nativa. Já há alguns anos, percebo que, nesta época, ela costuma adquirir um tom amarelo-avermelhado e, depois desses meses secos, recebe novamente uma nova cobertura verde.

Esta mata que fica no horizonte da cidade é muito bonita. E está sendo destruída. A devastação do que nos resta de mata nativa nesta cidade continua em cada ponto. Mas a área a que me refiro, onde, segundo matéria de 19/8 do JC, será construído mais um empreendimento, denominado, ironicamente, de Residencial Villa Lobos, provocou esta minha manifestação de repúdio. Não apenas pela destruição deste belo horizonte de mata nativa, mas também pela atitude intimidatória contra o vereador Rodrigo Agostinho.

Como membro desta comunidade, estou indignado com a situação. É urgente que se faça a discussão de um modelo de desenvolvimento para a nossa cidade e não apenas compactuarmos com seu crescimento e expansão. O que deve interessar é nossa qualidade de vida. Expandir a cidade a qualquer custo não interessa mais.

A implantação de loteamentos fechados, criando guetos para famílias de poder aquisitivo para isso, gera dificuldades para a comunidade como um todo. As pessoas confinadas em guetos residenciais necessitam de veículos para se locomoverem. Esse carros percorrem a cidade em direção a outros guetos comerciais e para seus escritórios de trabalho. Desta forma, essas pessoas não vivenciam a vida da cidade, em seus aspectos culturais e paisagísticos.

A decadência dos centros urbanos das cidades passa por esta questão. Como é possível falar em “revitalização do Centro da cidade” com esta política habitacional de não-vivência dele? O que é melhor para a comunidade de Bauru: um novo gueto especulativo ou a preservação de sua mata nativa? Queremos parques, bosques e respeito ao nosso ambiente coletivo.

Os donos desta área de mata se sentem também “donos” dos animais silvestres que a habitam e “donos” das espécies vegetais. Numa total inversão de valores morais acusam, a quem tenta preservar uma infinitésima fração deste bem coletivo, de roubo. Sentem-se no direito de destruir, de matar espécies nativas acobertados pela formalidade legal da sociedade.

Quisera eu retirar desta área e livrar da ganância humana não apenas as bromélias, mas todas essas espécies vegetais ameaçadas e colocá-las em frente da minha casa, onde existe uma área pública, destinada à área verde que há anos, em uma luta silenciosa, eu, minha família, vizinhos e amigos tentamos recuperar da degradação a que foi exposta, por patrocínio e omissão do poder público. Estamos, desde 1991, lutando para transformar esta área, de cerca de 30 mil metros quadrados, em um bosque comunitário. Ela já foi, inclusive, depósito clandestino de entulho, registrado em matéria do JC em 12 de outubro de 1997.

Quem dera este ambicioso empreendedor doasse as espécies nativas existentes na área de seu patrimônio familiar... Qual o poder moral que este senhor julga possuir para matar bromélias, orquídeas, árvores centenárias e até animais silvestres, se não diretamente, através da fome que provocará com o desequilíbrio da região? Não sei como ele adquiriu esta área e por quais motivos a manteve até hoje aguardando que a especulação imobiliária a atingisse, mas gostaria que ele compreendesse que na natureza reside o sagrado. O oxigênio que esta mata produz não tem dono, vive em comunhão com todos nós. Ele vai ao seu pulmão, ao meu pulmão, aos dos nossos vizinhos, a aqueles que praticam o bem e também aos que praticam o mal. Não distingue ninguém. É puro. É o sopro divino e isso não tem dono.

No último dia 13, por volta das 22h, nesta mata ardia uma enorme fogueira. Isto não é crime ambiental? Se salvar bromélias pode resultar em danos legais a alguém, queimar a mata na surdina da noite não? É o momento de radicalizar a questão ambiental urbana em Bauru. E radicalizar é ir à raiz dos problemas. Denunciar a hipocrisia. O que dirá os descendentes de Villa Lobos ao saber que querem “homenageá-lo” com a destruição de matas nativas? Um brasileiro ilustre como ele, dedicado ao belo, através da música, concordaria com isso?

Temos que fotografar e registrar este escárnio da natureza. Se mesmo assim, conseguirem implantar este loteamento, temos que expor a forma como ele foi feito e o que representou na destruição da mata. Se não for possível evitar mais esta destruição, vamos denunciá-los moralmente, ao estilo praticado por defensores dos animais contra os casacos de pele. Apelo para que as pessoas e o poder público repensem a forma de crescimento da cidade. O que pode representar pactuar com a crueldade? Chega de hipocrisia, senhores da Lei. Desmatamento Zero Já!

Paulo César Lima de Assis - RG 12.326.779

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