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Letras saudáveis

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

A busca pela qualidade de vida é fruto do equilíbrio entre corpo, mente, espírito e meio. Nesse processo, a leitura é elemento fundamental para que cada pessoa adquira conhecimentos, amplie suas capacidades e se sinta parte integrante do mundo, afirma a psicopedagoga Maria da Glória Lopes, 51 anos.

Formada em pedagogia e especializada em psicopedagogia pelo Sedes Sapientiae, Lopes dedica grande parte do seu tempo ao estudo da leitura. Seu objetivo é desenvolver estratégias de leitura, reconhecer dificuldades e criar instrumentos para estimular o acesso da população, em especial crianças e adolescentes, às boas obras literárias.

Mãe de dois filhos, de 30 e 31 anos, Lopes defende que pais e educadores devem incentivar o hábito de ler ainda na infância. “Nos lares onde o acesso a jornais, revistas, livros, catálogos e propagandas é abundante, a criança, desde tenra idade, vai se familiarizando com o mundo das letras e desenvolvendo curiosidade e interesse em conhecê-lo e dele fazer parte”, aponta.

Por meio do acesso à leitura, explica a psicopedagoga, o ser humano desenvolve senso crítico e melhora sua auto-estima. Esses e outros temas foram abordados durante entrevista concedida ao Jornal da Cidade. Confira a seguir.

Jornal da Cidade - Por que a leitura é essencial para uma boa qualidade de vida?

Maria da Glória Lopes - A busca de qualidade engloba todas as áreas da vida que, associadas, formam o ser em sua totalidade e em equilíbrio com o corpo, mente e espírito. A leitura é o elemento fundamental para que cada pessoa seja e se sinta parte integrante do todo, atuando, questionando, buscando aprimorar, modificar e melhorar as condições de vida do planeta. É só adquirindo informação e conhecimento que o ser humano pode aumentar suas capacidades, habilidades, oportunidades e garantir melhor qualidade para sua vida e para o resto da humanidade.

JC - Quando adquirimos o hábito de ler?

Lopes - A leitura é um hábito que se adquire já na infância, porém não significa que não possa ser adquirido em qualquer idade. No adulto representa um auto-investimento sem riscos e uma relação custo/benefício compensadora, pois agrega valor pessoal e intransferível a quem o adquire. A relação entre leitura e escrita é diretamente proporcional. A leitura diretamente ligada à alfabetização nas escolas perpetua um sistema educacional que privilegia a escrita em detrimento da leitura. As atividades de escrita são muito mais realizadas que as de leitura, porém quem lê pouco não adquire bagagem para escrever.

JC - Como se tornar um bom leitor?

Lopes - O ato de ler não é solitário, passivo e individual. O bom leitor interage com o texto quando transforma os estímulos gráficos com os conteúdos cognitivos armazenados no cérebro. Assim, ele dialoga constantemente com o texto, evocando sentimentos, emoções e memórias. Muitas vezes pode chegar às lágrimas ou ao riso, ao amor ou ódio, concordando, discordando ou alternando ambos durante a leitura. O bom leitor reflete, traça considerações a respeito do exposto, faz analogias, comparações e, mesmo quando fecha o livro, continua sua leitura interior, recriando imagens próprias que farão parte do seu universo. Ler, portanto, é uma ação que envolve inúmeros mecanismos mentais: compreensão, raciocínio e memorização, que se transformam na bagagem intelectual, social e emocional do leitor. Um bom leitor usufrui desse prazer.

JC - Quais outros benefícios são proporcionados pela leitura?

Lopes - O desenvolvimento da criatividade, espírito crítico, enriquecimento do vocabulário e melhora da auto-estima. Quanto mais se lê, mais se adquire conhecimento e a capacidade de resolução de problemas é ampliada. Além disso, a crítica só será construtiva se tiver parâmetros para se apoiar. Por meio da leitura, a pessoa é capaz de realizar análise e síntese e de expressar-se em diferentes situações, adquire maior segurança e amplia sua auto-confiança.

JC - E as causas que dificultam a leitura?

Lopes - As dificuldades de leitura podem ter diversas causas, desde uma disfunção cerebral denominada dislexia, em que a criança, embora tenha inteligência e capacidade normais, não integra os sinais aos símbolos gráficos ou fonéticos e não consegue aprender a ler ou o faz com trocas ou inversão de letras; mas há também dificuldades do aprendizado ou do desenvolvimento da leitura com causas biológicas, psíquicas, sociais ou ambientais. Há ainda algumas causas biológicas que podem afetar o desenvolvimento da aquisição da leitura, que podem estar ligadas a transtornos neurológicos (visão e audição) ou psíquicos como o medo de errar, imaturidade, bloqueios afetivos, estresse infantil, depressão e ciúmes. Já as causas sociais ou ambientais estão ligadas aos métodos escolares e à falta de incentivo, além da ausência de oportunidades de contato com material gráfico e condições precárias de estudo em casa e na escola.

JC - Vivemos em uma sociedade imagética, pautada pelo fácil acesso a informações rápidas trazidas pela Internet e videogames. Dentro desse contexto, como incentivar o hábito da leitura?

Lopes - Para começar, acho que antes da escolaridade o contato com o material gráfico incentiva a leitura. E esse estímulo precisa ser constante, de acordo com os interesses das faixas etárias. Hoje em dia existem muitas críticas em relação aos textos indicados às crianças. As cartilhas com textos de baixa qualidade podem desestimular, então é preciso adequá-las ao contexto da vida da criança para que ela tenha motivação, para que ela crie o hábito e o prazer da leitura. Como o adolescente já tem uma preguiça generalizada e a leitura está vinculada à obrigação das tarefas escolares, ela pode desmotivar. Então é preciso aliar motivação com desafios, incentivos próprios para os assuntos que são pertinentes e interessantes para eles, porque é mais cômodo assistir a um filme. Mas a pessoa que assiste um vídeo ou um livro, prefere o livro pela riqueza dos detalhes e interatividade que o leitor tem com a leitura. Já o filme é passivo, ele fica só recebendo as imagens.

JC - A senhora falou das cartilhas escolares. É preciso haver uma reformulação no material didático utilizado no processo de aprendizado?

Lopes - O material não é nem interessante nem suficiente. Se estuda muitos os textos infantis, é lógico que há vários textos bons, mas ainda são mantidas as cartilhas e o livro didático é desatualizado. A criança hoje está muito mais na frente e questionadora.

JC - Para muitos educadores, o processo de formação de um leitor deve começar dentro de casa, com o incentivo dos pais. Como a senhora avalia isso?

Lopes - A formação de um leitor se faz através do estímulo ao ingresso no mundo das letras e isso ocorre muito antes da alfabetização propriamente dita. Nos lares onde o acesso a material gráfico, como jornais, revistas, livros, catálogos e propagandas, é abundante, a criança, desde tenra idade, vai se familiarizando com o mundo das letras e desenvolvendo curiosidade e interesse em conhecê-lo e dele fazer parte. Portanto, quando essa criança for alfabetizada, esse mundo literário não lhe será estranho, novo nem assustador. Essa realidade, porém, é a da minoria dos brasileiros das classes sociais economicamente favorecidas, contudo, mesmo esses não alcançarão necessariamente a excelência em leitura, que depende de fatores externos que incentivem o hábito e o prazer em ler.

JC - Em sua opinião, a leitura é devidamente estimulada nas escolas?

Lopes - Reproduzindo um trecho de J. J. Barbosa: “Ainda em 1746, a Academia de Rouen, na França, discutia as vantagens e perigos para o Estado de que os cidadãos comuns soubessem ler e escrever. O receio era que, sabendo ler e escrever, o trabalhador normal abandonasse suas obrigações em busca de melhoria de condições de vida. Com isso, aquela sociedade perderia sua base de sustentação. Não sabendo ler, o trabalhador não teria acesso a obras que poderiam colocar em questão a ordem estabelecida”. Será que no século 21 os objetivos do Estado mudaram ou continuam perpetuando as grandes diferenças sociais com estratégias nada originais, utilizando-se do poder que veta o acesso à informação e a formação dos cidadãos através da baixa qualidade do ensino público?

JC - Mas as livrarias oferecem uma infinidade de produtos novos e interessantes destinados ao público infantil.

Lopes - Sim, e isso é antagônico e seletivo em termos financeiros. Acho que nas escolas públicas é preciso que as bibliotecas tenham um acervo suficiente e abrangente. O material literário é maravilhoso, mas o acesso a ele ainda é pequeno, é para apenas uma elite.

JC - Qual é o objetivo do seu livro “Jogos na Educação - Criar, Fazer e Jogar”?

Lopes - Ele faz, realmente, um trabalho de fazer, criar e jogar. A criança vai criar jogos conhecidos, transformando-os. Por exemplo, num jogo de damas ela vai fazer o tabuleiro, as peças e depois jogar. Isso para que ela possa ampliar uma série de objetivos pedagógicos estimulados pelos jogos. Dessa forma a criança está vivenciado uma série de experiências para seu próprio desenvolvimento. Através dos jogos podemos abrir espaço para a leitura das regras do jogo, por exemplo. Acredito que dessa forma a criança pode desenvolver o gosto e o prazer de ler.

JC - Como melhorar, então, as condições de leitura e usufruir do prazer que ela proporciona?

Lopes - Mesmo quem não tem o hábito de ler necessita dela, seja para provas, concursos e relatórios. Quando a leitura não é praticada, a pessoa sente dificuldades, muitas vezes originadas por condições desfavoráveis e que roubam o prazer de ler. Dependendo da necessidade, ela pode desenvolver técnicas que aumentem a velocidade, desenvolvam a capacidade de concentração e relaxamento, além de exercícios para os olhos e interpretação de textos.

JC - Cite algumas dicas.

Lopes - Para ler, o ambiente deve ser agradável, pois influi positiva ou negativamente na leitura. A iluminação adequada, uso de óculos para não despender muito esforço da visão, local bem arejado, boa iluminação e com o mínimo de ruídos tornarão os momentos de leitura agradáveis e menos cansativos. A posição também precisa ser confortável. Ler deitado não é indicado porque essa postura pode produzir dores na coluna cervical, por isso o ideal é um assento confortável. Se o tempo de leitura for longo, é recomendando uma pausa para esticar-se a cada 45 ou 50 minutos; isso ajuda a alongar os músculos, descansar um pouco os olhos e dar um tempo para o cérebro assimilar o que foi lido.

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