Cultura

Sobre mundos: Entre o sim e o não

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Um andarilho encontrou pelo caminho um velho pastor de ovelhas e os dois começaram a conversar. Em um certo momento, o andarilho percebeu algumas nuvens no céu e perguntou ao pastor como estaria o tempo nos próximos dias. O velho, olhando para o céu, respondeu: “O tempo vai estar do jeito que eu gosto!” “Mas como você tem a certeza de que o tempo será do jeito que você gosta?”, perguntou o andarilho. “É muito simples”, respondeu o pastor, “eu já fiz, várias vezes, a experiência de que nem sempre eu recebo aquilo que realmente desejo. Portanto, eu aprendi simplesmente a admirar daquilo que recebo! Por isso, o tempo será, com certeza, do jeito que eu gosto”.

Diante dos problemas do cotidiano, os seres humanos são, muitas vezes, levados a cultivar sentimentos negativos que acabam sendo um problema a mais na arte de viver. Em outras palavras, além das dificuldades que o dia-a-dia nos apresenta, somos capazes de tornar nossa existência mais complexa e mais difícil através de sentimentos que cultivamos. Desta forma, ao invés de buscarmos solucionar nossos problemas, muitas vezes aumentamos suas proporções.

Como afirma Epiteto, não são exatamente as coisas que devem nos preocupar, mas a compreensão que possuímos sobre elas. Típicos sentimentos que atrapalham nossa postura no cotidiano são, por exemplo, os medos e as ansiedades. Graças à incerteza da vida podemos ser tomados pela ansiedade ou até mesmo pelo medo, quando pensamos sobre nosso futuro. Estes dois sentimentos aparecem quando possuímos probabilidades de termos problemas ou dificuldades a enfrentar. Justamente sentimos ansiedade ou medo quando não sabemos exatamente se tais problemas e dificuldades irão realmente acontecer e quais serão suas proporções.

Uma forma de eliminar os dois sentimentos negativos é o enfrentamento dos problemas e das dificuldades. O enfrentamento se inicia com a reflexão racional do problema. “Um problema exposto com clareza já fica meio resolvido” (Charles F. Kettering). De qualquer forma, quanto mais tentamos adiar ou evitar a existência dos problemas, mais somos torturados pelo medo e pela ansiedade. O pior é que os dois sentimentos aumentam a sensação de gravidade da situação. Em outras palavras, medo e ansiedade criam monstros que normalmente são fantasiosos. “O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário” (Sêneca).

Outra dupla de sentimentos que pode dificultar a arte de viver é a angustia e a frustração. Estes sentimentos sempre contribuirão para que a vida tenha um sabor amargo, enquanto não compreendermos que tanto a angústia como a frustração pertence à vida humana. No desenvolvimento de sua existência, o ser humano se encontra, inúmeras vezes, diante de escolhas. Toda escolha exige uma decisão e muitas vezes não podemos deixar com que outros, ou o próprio desenvolvimento das circunstâncias, decidam por nós. Nós mesmos temos que optar e normalmente o momento da decisão é um momento solitário.

Justamente ao ato de tomar uma decisão diante das escolhas estão interligadas a angústia e a frustração. Ao ter escolhas e tomar decisões, o ser humano ficará obrigatoriamente angustiado ou frustrado. A angústia, porém, é muito mais simples de ser resolvida. Afinal, ela se dilui através da tomada de decisão. A angústia existe devido à indecisão na escolha de alguma alternativa. Superada esta fase, ela desaparece. Porém, ao ser tomada a decisão, surge inevitavelmente a frustração. Se a angústia existe antes de nos decidirmos por algo, a frustração pertence à fase posterior à decisão.

A existência da frustração é fácil de ser compreendida. Basta constatarmos que através de uma decisão sempre existirão perdas e ganhos. Vamos supor que tenho somente uma noite livre para ir ao cinema e que nesta semana dois filmes saem de cartaz. Um é um filme de suspense e o outro uma comédia. Diante das circunstâncias, tenho que fazer uma opção. Nesta minha única noite poderei ver somente um filme. Com certeza, diante de qualquer escolha terei, ao mesmo tempo, depois da sessão de cinema satisfação e frustração. Afinal, deixarei de ver um filme. O segredo da frustração está na intensidade da perda e do ganho. Quando o ganho é maior que a perda, a frustração existirá, mas passará despercebida. Quando a perda é maior que o ganho, a frustração é sentida com mais intensidade. Se optei pelo filme de suspense e este foi uma excelente produção, a compensação será maior que a frustração. Esta, porém, estragará minha única noite de cinema, caso o filme não tenha sido uma boa experiência. No que se refere às escolhas e à obrigatória frustração que sentimos, a maturidade consiste na capacidade de se impor pequenas frustrações para se ter longas compensações. “Não é a mais fácil e cômoda palavra que existe. Se alguém diz não, os problemas acabaram. Os problemas realmente começam quando você diz sim” (Victor Civita).

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