Agradou-me o episódio que vi na televisão no último dia 16. Do encontro amistoso do rei Pelé e Diego Maradona amistosamente em uma espécie de show, com “rasgação de seda”, um astro homenageava o outro com cantoria e exibição do domínio da bola. A cena foi assistida em um lugar público e logo os circundantes expressavam opiniões do tipo: “O Pelé sempre foi melhor que o Maradona”, "o Brasil tem o melhor futebol do mundo”. Concordo em gênero e grau e sou o primeiro a comprar camisetas e bandeiras com as cores nacionais na Copa. Sinceramente, gostaria que este patriotismo não se manifestasse só a cada quatro anos. Seria melhor que tivéssemos um sentimento nacionalista 24 horas por dia.
Lamentavelmente, nossa Pátria sofre os efeitos da realidade exposta nas denúncias de corrupção política, uma mazela inigualável. Fica um sentimento de caça (e cassa) às bruxas, para punir culpados, se forem encontrados... Na verdade, poucos se preocupam com as causas de tal crise. Ao meu ver, somos nós ,leitores, que deveríamos ter consciência e poder de voto. Ao invés de discutir questões técnicas se é José, Luís ou Roberto os culpados pela desgraças da Nação, deveríamos discutir a questão filosófica que existe por trás desses fatos: Quais as conexões históricas e políticas que produzem essas crises?
A filosofia, ao contrário da estrita legalidade manifestada nas CPIs, tem a vantagem de olhar o lado universal das coisas e fatos. A visão global diz que, enquanto nos preocuparmos com apenas nós mesmos, crises e corrupções políticas virão ainda maiores, isto porque ela se origina, em grande parte, na nossa educação. Infelizmente, a lei de gérson parece que é um ponto cultural no País: o de levar vantagem em tudo, certo? Não se pode generalizar, mas o lema “ganhar dinheiro nem que seja honestamente” parece ser adotado pelo gersons da vida (somente aqueles adeptos da lei de gérson, bem entendido)
Crescendo nessa cultura, não sei como ainda o eleitor ainda se espanta de ver políticos corruptos. Isto porque o eleitor que vende seu voto (a troco de uma propaganda mais bem feita) é tão corrupto como o eleito. É necessária uma mudança radical no nosso comportamento ético e educacional, como única chance de vacina contra a corrupção generalizada que ocorre no nosso País. A prova dessa “doença” eu vejo todos os dias. Cansei de ver alunos bolsistas que não cumpriam seus projetos enganando, desse modo, as instituições que lhe fornecem fomento ou ainda que se orgulham de ter colado na prova e ter passado. Observei ainda vários pais que criam seus filhos com a filosofia “sejam mais espertos que os outros mesmo que isso signifique deixar sua conduta moral de lado”.
Existem três ou quatro problemas básicos a ser sanados: um é o da não-aceitação do que é imposto nas campanhas eleitorais, não se deve aceitar votar em legenda, deve-se votar no candidato para que você possa cobrar a representação dele em promessas de campanha. Eles serão, durante os mandatos, seus líderes e a definição clássica em uma democracia de líder é: aquele que sacrifica sua vida privada em prol de fazer o bem comum de seus representados.
O segundo problema é a ética política eleitoral. Deve-se mudar todos os que tradicionalmente estão na política. Ao menos no Poder Legislativo, nos últimos oito anos, vemos figuras no poder que lá estão já há 40 anos. Deve-se deixar apenas eleitos àqueles que realmente foram líderes de fato, não votando apenas no carisma de determinado candidato, mas sim no seu histórico que está acessível em qualquer biblioteca ou escola pública ou mesmo na rede mundial de informações.
O terceiro: não confundir os poderes do governo com apenas o Executivo. O que se observa no Brasil é uma grande cobrança do Poder Executivo e nenhuma do Legislativo. Vota-se no presidente e no partido dos deputados e senadores, não nos próprios. Claro que o País tem o seu histórico de centralização na figura do Executivo e a propaganda eleitoral reforça isso, como se o governador ou o presidente fosse o único representante do povo.
Antes de tudo, ele é um representante do Estado. E o Legislativo, na verdade, é o representante do povo. São os deputados quem legislam sobre as verbas e as áreas em que serão aplicados os recursos: saúde, educação ou segurança. Ao Poder Executivo cabe fazer apenas o que foi decidido, podendo também apresentar algo para ser votado. Portanto, eleitor, cuidado ao votar nas próximas eleições.
O quarto problema seria o educacional do povo. Na escola, ensina-se as diferenças entre os três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Só isso não basta. Deveria ser preocupação fundamental da diretoria de ensino o educar para a cidadania. Educar para a cidadania implica em um reforço geral dos sentimentos patrióticos e morais, sendo muito mais que uma mera disciplina a mais no currículo dos alunos.
Educar para a cidadania não exige muito. Exige apenas uma consciência de cidadão. Cidadania significa poder participar. Desde os antigos gregos, herdamos da democracia o direito de participar das decisões políticas. Para exercer tal direito, participe. Espalhe consciência, reúna-se na sua igreja, no seu sindicato, em sua escola, no seu local de trabalho, no aconchego do lar. Participe da sua associação de bairro, condomínio, dos projetos nas escolas de seus filhos ou seja voluntário de algum projeto social.
A falta de tempo não serve como desculpa. Meus afazeres de pai, empresário, professor e mestrando não me impedem de participar como voluntário em quatro projetos sociais espalhando consciência. Está na hora de você começar a exercer a real democracia e praticar a cidadania que não deve nos unir apenas nos momentos de futebol, mas em todos os momentos. Reúna-se! Ainda é tempo!
Otávio Barduzzi Rodrigues da Costa