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Estresse infantil

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

A legitimação do divórcio no Brasil ocorreu no final da década de 70. De lá para cá muitas crianças e adolescentes têm vivenciado com mais freqüência a separação dos pais, experiência marcante para todos os membros da família. Em alguns casos, a situação pode ser traumática e gerar estresse nas crianças, de acordo com estudo realizado pela irmã Evanira de Souza, 56 anos, doutora em psicologia e diretora do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade do Sagrado Coração (USC).

A pesquisa, concluída em fevereiro desde ano, comparou 200 crianças de 7 a 10 anos matriculadas em escolas do ensino fundamental da cidade. Metade delas era formada por filhos de pais não separados e a outra parte de filhos de cônjuges separados, sendo que esta última população apresentou níveis de estresse maior, adianta Souza, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

“A criança não tem a capacidade de entender tudo como está realmente acontecendo. Para ela, o pai e mãe são ídolos porque acredita muito nesse amor e, de repente, ela vê uma ruptura nesse sentimento”, diz.

Além das conseqüências psicológicas trazidas pelo divórcio, o estudo, denominado “O estresse infantil - comparar o nível de estresse infantil entre filho de pais separados e não separados”, apontou que o próprio contexto social favorece o agravamento do estresse infantil, mal que atrapalha o rendimento escolar, induz à agressividade e à irritabilidade social, explica ela.

“Hoje em dia a maioria dos pais tem medo de deixar a criança brincando na calçada. Muitos vão trabalhar e deixam os filhos trancados. E o medo gera o estresse”, destaca Souza. Segundo ela, equilibrar as atividades escolares, extracurriculares e lazer, além de aumentar o diálogo familiar, são algumas das alternativas para se evitar o estresse infantil. Esses e outros assuntos são discutidos na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade – Qual é o objetivo do estudo?

Evanira de Souza - Ele brotou da demanda de crianças filhas de pais separados encaminhadas para a clínica de psicologia da USC com dificuldades de aprendizagem, queixas de agressividade e comportamento social inadequado. Às vezes, as professoras e as mães falavam que depois da separação dos pais a criança havia mudado seu comportamento. Por isso veio a idéia da pesquisa. Essa demanda vem crescendo desde 2001. Além disso, na maioria das vezes, o ambiente é agressivo em casa e em algumas escolas, que precisam do auxílio de uma ronda policial. O próprio contexto social pode favorecer o estresse infantil.

JC - Em que foi baseada a pesquisa?

Souza - Fiz um sorteio em quatro escolas da rede estadual, que não foram identificadas por uma questão ética; selecionei alunos da 1.ª a 4.ª série do ensino fundamental, analisando crianças de 7 a 10 anos. Apliquei uma atividade sobre estresse infantil, a qual já havia sido elaborado e testada em Campinas e em outros lugares pela minha própria professora e orientadora do doutorado, Marilda Lipe. É um questionário formado por 35 perguntas, que envolvem aspectos físicos, psicológicos, pontos especializados em comportamento depressivo e psicofisiológicos. Apliquei esse questionário em 200 crianças, sendo 100 deles em filhos de pais separados e 100 em filhos de pais não separados.

JC - Qual foi a conclusão?

Souza – As crianças filhas de pais separados apresentaram nível de estresse maior que a de pais não separados. Embora o resultado não seja estatístico, é significativo porque temos uma grande demanda de crianças sofrendo de estresse infantil devido ao próprio contexto social, no qual os pais e as crianças têm uma vida agitada.

JC – Como identificar o estresse infantil?

Souza – A criança tem baixo rendimento escolar, pode ficar mais agressiva tanto no ambiente de casa quanto escolar e sua vivência social fica inadequada. Às vezes, a criança estressada pode ser confundida com a criança hiperativa. Por isso o diagnóstico deve ser feito não só por meio da análise clínica, mas é preciso saber desde quando as crianças estão apresentando esse quadro na família, na escola e com todas as pessoas que convivem com ela. Para saber se ela está estressada, com depressão ou hiperatividade, é preciso uma ampla investigação.

JC - De que forma o contexto contribui para que a criança se torne estressada?

Souza - Gritos constantes em casa e na escola são situações que deixam a criança estressada. O próprio contexto social favorece o estresse infantil. Todos nós temos muito medo sair na rua, por exemplo. Hoje em dia, a maioria dos pais tem medo de deixar seus filhos brincando na calçada. Muitos vão trabalhar e os deixam trancados. As mães mandam seus filhos não aceitarem nada, nenhum doce de ninguém, e tudo isso causa um certo medo na criança e o medo gera o estresse.

JC - Além dos riscos da violência social, a vida agitada dos pequenos, que inclui escola, cursos de idiomas e esportes, pode influir em casos de estresse infantil?

Souza – Há pais, com medo de que a criança não desenvolva todas as suas habilidades, que incluem muitas atividades no cotidiano dela: além da escola, ela tem o horário da natação, inglês, balé..., o que faz com que ela acabe não tendo muitos períodos de lazer.

JC - Quais seriam as soluções para amenizar o estresse infantil?

Souza - Os pais devem encontrar o equilíbrio, porque eles sabem que, às vezes, o próprio contexto social no qual estamos vivendo não permite isso. Todos trabalham e as crianças vão desde pequenas para a creche, para escola ou maternal. Por isso o importante é dosar as atividades da criança: a escola, tempo para brincar com outras crianças ou sair com os pais, praticando atividades lazer. E para amenizar o estresse entre os filhos de pais separados, aconselha-se que os pais conversem com essas crianças, explicando que está havendo divergência no relacionamento do casal, porque nenhuma criança quer ser filha de pais separados, no fundo ela quer que os pais se entendam. É bem verdade que quando os pais brigam muito ou se agridem na frente das crianças, o que se sugere é a separação. Mas isso a criança precisa saber e acompanhar, porque algumas vezes elas ficam muito chocadas; em alguns casos os pais a chamam no último momento da separação, ela é apenas comunicada, sem preparo.

JC – Quais implicações o divórcio provoca nas relações familiares?

Souza – Começa com falta de diálogo e compreensão dentro do lar entre o casal e os filhos. Se instala o medo, porque para o casal se separar não é tão simples assim, é preciso pensar em como comunicar isso aos filhos, à família e ao próprio contexto social em que ele vive. Isso faz com que o relacionamento fique difícil, gerando o estresse. É quando a convivência se torna ainda mais difícil para a criança, porque as pessoas se tratam como ex-marido ou ex-mulher, mas não existe ex-filho; para sempre ele e ela serão pai e mãe. No desenvolvimento dessas crianças filhas de pais separados, superar essas mudanças pode trazer dificuldades durante a passagem para a vida adulta. Muitas temem acabar como o pai ou a mãe e têm medo de criar vínculo de relacionamento profundo com alguém.

JC – Quem é mais afetado no processo de separação: as crianças ou adolescentes?

Souza – Talvez sofram mais as crianças, por elas não entenderem de forma completa o que está acontecendo. Eu já li algumas pesquisas em que os adolescentes superaram melhor. No meu estudo, as crianças de 7 anos têm um estresse maior do que as de 10 anos, o que significa que as mais novas precisam de um tempo maior para elaborar essa situação e as mais velhas talvez já entendam um pouco melhor, percebam que os pais não estão bem e até julguem que é melhor tê-los separados do que brigando.

JC - Por que a criança sofre tanto com o divórcio?

Souza - Primeiro ela não tem a capacidade de entender tudo realmente como está acontecendo. Para todas as crianças, o pai e mãe são ídolos, porque elas acreditam muito nesse amor e, de repente, elas vêem uma ruptura nesse sentimento. Segundo, porque essas crianças sofrem quando um dos cônjuges a colocam contra o outro; e muitas vezes elas até gostam disso. Ao passear com o pai, por exemplo, ele dá para ela tudo que nunca deu quando o casal estava junto, como brinquedos e passeios. Há casos em que o pai leva o filho ao zoológico, atividade que nunca fez quando estava casado, e isso proporciona à criança um prazer muito grande. Ela sofre e ao mesmo tempo tem recompensas porque recebe atenção de um dos cônjuges que não está com ela.

JC – Nos processos de divórcio, muitas crianças estão preferindo permanecer sob a guarda dos pais. Como a senhora avalia esse cenário?

Souza – Já li algumas pesquisas que mostram que os pais estão ganhando na Justiça o direito de ficar com a guarda. Eu vejo esse cenário como uma mudança dos tempos. Como agora há um número muito maior de casais que se separam, há muitos pais também que se propõem a ficar com as crianças e muitas delas até preferem morar com eles. Os filhos os escolhem pela própria convivência durante o tempo que viveram com os pais e a experiência dos pais com os filhos.

JC – Em que sentido o novo Código Civil Brasileiro (lei número 10.406, de 10 de janeiro de 2002) contribuiu para que os pais obtivessem o direito de ficar com os filhos após a separação?

Souza – O divórcio envolve a família e diversos profissionais nesse processo, entre eles advogados, psicólogos e juiz. Então, a decisão integra um conjunto de pessoas e não é tomada sozinha. Isso é um ponto positivo e talvez as crianças se sintam mais seguras com essa participação em conjunto.

JC – Diferentemente dos processos amigáveis, as disputas litigiosas podem trazer conseqüências dolorosas para o casal e para os filhos. Qual sua opinião sobre o assunto?

Souza – Toda separação causa transtorno, ela tendo justificativa positiva ou não, porque é o rompimento de um sonho do casal. Todas as pessoas que se casam querem ter um lar e constituir uma família. O fim desse objetivo é um sofrimento muito grande.

JC – Existe alguma forma de trabalhar melhor os traumas provocados pelos divórcios?

Souza – Acho que tudo depende da estrutura familiar. Ela é a mola propulsora para o desenvolvimento da personalidade sadia de uma criança. Hoje há muito jovens que se espelham na mídia e no grupo de amigos e não nos valores da família; por isso, há jovens mais velhos que não estão amadurecidos para o casamento. O matrimônio é sério e deve ser bem pensado pelos jovens porque, hoje em dia, com a moda do “ficar” é preciso refletir sobre o futuro das novas vidas, que podem ser geradas com esse tipo de relacionamento.

JC – Além da estrutura familiar equilibrada, como a sociedade pode ajudar a evitar o estresse infantil?

Souza – Conhecendo e compreendendo as crianças, por que quanto mais se entende mais se aprende a lidar com elas.

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