Você pode até não conhecê-los pelo nome, mas já deve ter ouvido um dos contos dos irmãos Grimm. Os alemães são autores de clássicos infantis como “Rapunzel”, “João e Maria” e “Chapeuzinho Vermelho”. O filme, do diretor Terry Gilliam, porém, fará você desaprender as histórias - o que não é de todo mal.
Na verdade, dos filmes de Gilliam sabemos todos o que esperar: um tanto de expressionismo capenga, contrastes de cor berrantes, distorções insistentes da imagem. Não lhe faltam os signos da arte - ou seja, a intervenção constante na realidade, impedindo-a de se manifestar -, embora a arte mesmo costume ser rara. Não há surpresa, portanto, no fato de “Os Irmãos Grimm”, que estréia hoje em Bauru, só evocar lateralmente os escritores célebres pelos contos de fadas.
Aqui, os dois irmãos, Wilhelm (Matt Damon) e Jacob (Heath Ledger), são estelionatários que, numa Alemanha ocupada por Napoleão e tomada pela superstição, viviam de tomar dinheiro das comunas, espantando bruxas e demônios. Os Grimm do filme são uma espécie de Van Helsing dos efeitos especiais. Isso até que o desaparecimento de meninas numa aldeia os leva à situação inédita de terem de enfrentar magias e bruxarias reais.
O tema possui uma vantagem inestimável para Gilliam: às voltas com florestas sombrias, árvores que se movem, torres sem entrada e seres encantados, não existe necessidade de praticar os exageros formais que caracterizam seus filmes. Eles se integram com certa naturalidade ao assunto tratado. Há uma desvantagem também: Gilliam invade, claramente, um território de Tim Burton, o que causa uma comparação sempre desfavorável ao americano, cujo gosto duvidoso nos leva à beira do grotesco e cujo cinismo contrasta com um Burton que, mesmo pessimista, se encanta de maneira permanente com o mundo.
Com isso, “Os Irmãos Grimm” é tremendamente oscilante. Ora parece se lançar ao thriller de ação, ora opta pelo elogio do imaginário, ora investe na alegoria. Embora atire para vários lados, o mais interessante é mesmo o intracinematográfico, isto é, as demonstrações de habilidade dos Grimm para lidar com os supostos seres do além equivalem a demonstrações do trabalho de efeitos especiais cinematográficos.
É como se Terry Gilliam abrisse seu pensamento de cineasta que acredita mais no maquinário do que no mundo, mais na trucagem do que na mágica, mais no artifício do que na realidade. Enfim, uma espécie de Peter Greenaway menos pretensioso e mais pop, dotado de igual sensibilidade para trabalhar o feio. Mas, como “Os Irmãos Grimm” é cheio de bruxas e encantamentos, é na mesma medida um filme que se deixa ver.