Ser

Filme particular

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Na madrugada, os olhos fechados se movimentam em ritmo acelerado e trazem à memória histórias com enredos reais e irreais, carregadas de emoções e sentimentos. Esse é o ato do sonhar, atividade realizada por todas as pessoas durante o sono.

Sonhar com morte pode ser sinal de vida longa; com algemas, harmonia no amor; carros sinalizam que algo está fugindo do controle, diz a crença popular. Porém não existem estudos científicos que comprovem como surgiram esses significados.

O que se sabe é que o sonho está diretamente relacionado com o bem-estar físico e psicológico individual, explica Maria Celeste Rodelli, psicóloga e membro fundador do Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e Região. Segundo ela, o sonho faz com que o indivíduo entre em contato com a energia do inconsciente e com suas potencialidades.

“Se a nossa consciência ‘pensa’ e se expressa por palavras, o inconsciente se expressa por símbolos. Compreender os significados dos sonhos é ‘dialogar’ com o inconsciente, ouvi-lo e dar ouvidos a nós mesmos, ampliando nossa consciência e chegando àquilo que verdadeiramente somos”, explica Rodelli.

“Sonhar é uma experiência humana, seja qual for a base biológica do processo onírico. No ser humano, ele é necessário ao funcionamento psicológico saudável”, acrescenta a psicóloga e psicoterapeuta Helenice Azevedo.

De acordo com as especialistas, o papel fundamental dos sonhos é de orientação psicológica. Eles provocam uma espécie de tensão na psique, com a finalidade de estimular a evolução pessoal, observa Azevedo. “Os sonhos são tentativas de estabelecer um equilíbrio de nosso ‘ser’ como um todo, funcionando de forma compensatória ou complementar em relação ao mundo consciente”, diz.

Rodelli ressalta que todo sonho se refere principalmente à própria pessoa, por intermédio de símbolos e imagens. “Eles nos mostram em que aspectos estamos enganados e nos alertam a respeito dos perigos, fazendo referência ao sentido mais profundo de nossas vidas. Nos trazem descobertas sobre nós mesmos, nem sempre agradáveis, e apontam como explorar o imenso potencial que somos”, diz.

Função

Para a psicologia junguiana, baseada no trabalho do psiquiatra Carl Gustav Jung, os sonhos são produtos da manifestação espontânea do nosso inconsciente. Azevedo esclarece que eles surgem, na maioria das vezes, na tentativa de corrigir os desvios do ego e de nossa natureza primordial.

“Para Jung, a grande finalidade da vida se dá no processo de individuação, ou seja, no processo de profundo autoconhecimento, quanto tomamos coragem de nos confrontar. Os sonhos, então, se revelam como um importante ‘instrumento’ para esse caminho”, completa a psicoterapeuta.

Nesse sentido, por intermédio da forma como se apresentam, os sonhos podem “revelar” estados psicológicos, “curar” ou “trabalhar” emoções fragilizadas, aponta Azevedo. Rodelli concorda. “O inconsciente continuará a enviar mensagens sobre a forma de reorientar seu processo de vida. A grande questão é o quanto cada pessoa está disposta a ouvir essas mensagens e a seguir o que está sendo proposto”, diz.

Embora receba mensagens da psique, é preciso enfatizar que o sonho possui eficácia por si mesmo e não surge para ser interpretado, destaca Azevedo. “Cada símbolo possui um significado pessoal com expressões de conteúdos que o consciente ainda não apreendeu”, diz.

“Cada imagem do sonho, mesmo as que apresentam evidente significado, devem ser trabalhados como objeto de investigação, requerendo um exercício tanto de ordem do pensamento quanto do sentimento”, pontua Azevedo.

Segundo a psicoterapeuta, o real significado do sonho vem à tona quando se descobre a energia oculta contida em seu objeto de representação. Porém, alerta ela, a mesma imagem pode significar coisas diferentes em sonhos da mesma pessoa.

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Lembranças apagadas

As evidências apontam que todos as pessoas sonham durante uma hora e meia em cada oito horas de sono, porém algumas não lembram de seus sonhos, destaca Maria Celeste Rodelli, psicóloga e membro fundador do Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e Região.

Segundo ela, isso significa que muitos indivíduos não dão atenção às mensagens do inconsciente. “Quando registramos e refletimos sobre os sonhos, transferimos a energia do inconsciente para o consciente. A psique se encarregará de enviar essas mensagens de outra forma, que pode ser através do corpo ou de outros sintomas psicológicos, como ansiedade, medo e irritabilidade”, explica.

A psicóloga e psicoterapeuta Helenice Azevedo ressalta que o fato de não se recordar dos sonhos está ligado a fatores psicológicos - que podem ser mecanismos de defesa - e também a fatores orgânicos.

“A maioria dos sonhos ocorre na fase do sono Rapid Eye Moviments (REM), que corresponde a 20% ou 25% do sono total. Mas essa etapa pode sofrer alterações devido ao uso de drogas, como álcool, antidepressivos, indutores de sono ou ansiolíticos. Outro fator importante nessa alteração é o desgaste físico que provoca uma compensação do período de sono profundo”, diz ela.

Em relação aos fatores psicológicos, não lembrar dos sonhos pode representar uma resistência do indivíduo e seu “material” simbólico, enfatiza Azevedo.

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