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Bailes da vida

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

O interesse pela melhor qualidade de vida se tornou prioridade para muitos brasileiros. Prova disso são as atividades relacionadas ao autoconhecimento e bem-estar, que aumentam na mesma proporção de sua procura. E elas chegam recheadas de novidades e conteúdos diferenciados.

Uma das “inovações” envolve trabalho de expressão corporal baseado no estudo de Klauss Vianna, autor do livro “A Dança”, que visa desbloquear as tensões do dia-a-dia e harmonizar os movimentos do corpo por meio de técnicas utilizadas no teatro e na dança.

O trabalho é voltado para todos os tipos de público e busca valorizar a carga individual do ser humano. “A expressão da arte tem a ver com a experiência de vida e não adianta ter uma fórmula pré-estabelecida para os movimentos, pois eles se tornam frios e sem muito significado. Para Klauss, o objetivo do movimento em si não é tão importante quanto seu processo”, explica a atriz bauruense Iowana Manfio Cardarelli, 32 anos, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

Seguidora da linha proposta por Klauss Vianna, ela ministrou oficina sobre expressão corporal para a terceira idade no Serviço Social do Comércio (Sesc), em Bauru, entre os dias 28 e 30 de setembro.

A exemplo da oficina, o autoconhecimento e a valorização individual também nortearam a trajetória de Cardarelli. Formada em odontologia, com especialização em implante dentário, ela sempre buscou aprimorar sua comunicação e criatividade. Para tanto, em 2000, não teve medo de abandonar a antiga carreira para adotar os palcos como profissão.

“Sempre gostei muito de arte, desde criança, mas nunca havia feito nada específico na área. Em 1998 perdi um irmão em um acidente de moto, fiquei abalada com isso e passei a repensar várias coisas na minha vida. Comecei a fazer orientação vocacional e descobri o que queria”, conta ela.

No mesmo ano, Cardarelli foi para São Paulo e começou a estudar teatro na escola de atores do Tuca, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, onde entrou em contato com o trabalho de expressão corporal por meio da professora Neide Neves. Depois, estudou técnicas para aprimorar seu trabalho com expressão corporal. Os benefícios da atividade, entre outros assuntos, podem ser conferidos na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Qual o objetivo da oficina “Corpo Expressivo na Terceira Idade” realizada recentemente no Sesc?

Iowana Manfio Cardarelli – Sensibilizar e despertar nos participantes o interesse em conhecer o próprio corpo, saber como ele funciona. E começar a desbloquear essas tensões, perceber que existe um caminho diferente de criação que só depende da própria pessoa. É um caminho para abrir um olhar diferente para o próprio corpo, observando o espaço e interagindo com ele. Para liberar as tensões, é preciso perceber o que é tensão no seu corpo. Se a pessoa não percebe isso, não vai se sentir relaxada ou solta. Passar por esse processo é algo demorado. Para começar a perceber uma reorganização ou ter um efeito no corpo, é preciso trabalhar cerca de três anos.

JC – Por que os idosos foram escolhidos como alvo da atividade?

Cardarelli – As questões físicas na terceira idade costumam ficar meio de lado ou trabalhadas de forma muito tradicional, o que resulta na reduzida exploração dos trabalhos de expressão. E por esse público ter muito mais tempo de vida que os mais novos, carrega também mais símbolos e tensões que precisam ser quebrados para tornar o corpo mais flexível, necessitando de novos movimentos e formas de se comunicar. Para mim é um desafio trabalhar com a terceira idade justamente por conta dos preconceitos.

Jornal da Cidade – Em que se baseia a atividade de expressão corporal?

Cardarelli – No trabalho proposto por Klauss Vianna, que foi o introdutor da expressão corporal no Brasil, que valoriza a carga individual das pessoas. Klauss entende que o indivíduo não existe isoladamente do mundo e das coisas que acontecem em sua vida. Ele acredita que tudo influencia o comportamento físico. As tensões, a forma como nos movimentarmos e a nossa postura estão relacionadas com a experiência que vivenciamos, não só através das emoções, mas também por meio dos lugares, cheiros, sons e cores. Klauss sempre achou que a expressão da arte, tanto da dança quanto do teatro, tinha a ver com essa experiência de vida e não adiantava ter uma fórmula pré-estabelecida para os movimentos, pois eles se tornariam frios, sem muito significado. Para ele, o objetivo do movimento em si não é tão importante quanto o processo. É um trabalho no qual ele tenta resgatar o valor do ser humano. As instruções passadas são as mesmas para cada aluno que está dentro da sala de aula, mas cada corpo tem sua experiência. Dessa forma, os movimentos são singulares e cada um vai responder de uma certa forma ao estímulo que está sendo oferecido. O fundamental do trabalho é tentar desbloquear as tensões do dia-a-dia, que impedem que os movimentos percorram todo o corpo. Muitas vezes nos comunicamos fazendo um movimento de braço ou com a cabeça, por exemplo, mas nosso corpo muitas vezes não está presente. No teatro e na dança é fundamental estar inteiro e presente.

JC – A idéia é utilizar técnicas artísticas do teatro e da dança para melhorar o dia-a-dia do indivíduo?

Cardarelli – Ou o contrário.

JC – Por quê?

Cardarelli – Por que a pessoa pode trabalhar seu corpo para que, no teatro e na dança, consiga se comunicar melhor. Além disso, a atividade é voltada para o público em geral. Ela visa melhorar a comunicação, a forma de se expressar e a auto-confiança, pois quando se tem o domínio da auto-imagem a pessoa consegue se posicionar melhor.

JC – Como trabalhar essas tensões? Elas estão relacionadas à carga emocional do ser humano?

Cardarelli – Não, não é só com o emocional. Isso tudo está ligado com o ambiente que estamos, o espaço físico. No trabalho procuro chamar a atenção para isso. Observar a sala onde a pessoa está, sua textura, temperatura, cheiro e cores. Não é puramente emocional, mas está ligado às questões físicas e ambientais.

JC – Existe alguma técnica para descobrir onde se localizam as tensões?

Cardarelli – Geralmente nós percebemos pelas dores. A tensão, normalmente, está localizada em pontos onde sentimos dor. Os pontos comuns são regiões de joelho, pés – nós não os apoiamos adequadamente no chão -, ombros, pescoço, língua e dedinho da mão.

JC - Quais são os benefícios do trabalho com expressão corporal no cotidiano?

Cardarelli – Primeiramente é o bem-estar consigo mesmo. No momento em que a pessoa consegue perceber e trabalhar seu corpo, pode melhorar sua postura e, a partir daí, suas posições do dia-a-dia, como sentar, ficar em pé e dormir. Ela consegue prestar mais atenção no dia-a-dia para as tensões que estão sendo geradas, tem melhora na comunicação, na auto-estima e no autoconhecimento. Quando ela faz um trabalho em grupo, consegue torná-lo mais dinâmico, aprende a ouvir, observar, interagir e trocar. Além disso, é possível melhorar o contato físico com outras pessoas, não se inibindo ou se podando tanto.

JC - Atualmente, muitos trabalhos alternativos relacionados ao bem-estar e autoconhecimento estão sendo difundidos na sociedade. A que fatores você credita essa maior abertura?

Cardarelli – Acho que nós chegamos num ponto de saturação e estresse tão grande que o corpo começa a gritar. E não é só o corpo, mas o ser humano como um todo. Chegamos num limite em que precisamos extravasar e encontrar alguma forma de resgatar certos valores e o nosso bem-estar. Acredito que por isso as pessoas estão procurando muito mais esses trabalhos que, de certa forma, são mais alternativos, fogem da ginástica e da educação física tradicional, lembrando que eles não deixam de ter seu valor. Mas também há uma outra questão: a valorização da estética, hoje em dia, é exacerbada.

JC – Explique melhor a relação da estética com o trabalho corporal.

Cardarelli – O fato de trabalhar a postura tem a ver com estética. Algumas vezes as pessoas têm problemas de colunas ou joelhos que geram uma conformação física característica. Quando elas entendem como funciona seu corpo e conseguem colocá-lo de forma mais anatômica e funcional, melhoram seu aspecto geral. Sinceramente não penso no trabalho de expressão corporal como estética. Penso mais nos benefícios de valorização do indivíduo, comunicação, significados de movimentos e presença cênica (que são fundamentais) muito mais do que propriamente na estética.

JC - Em seu livro, Klauss Vianna diz que “um corpo inteligente consegue adaptar-se aos mais diversos estímulos e necessidades, ao mesmo tempo que não se prende a nenhuma receita ou fórmula pré-estabelecida, orientando-se pelas diferentes emoções e pela percepção consciente dessas sensações”. Como você analisa esse ensinamento?

Cardarelli - Por lidar com as emoções, a expressão corporal já está buscando o equilíbrio. O uso de música e o trabalho com a respiração vão trazer serenidade e focar a atenção para a própria pessoa. É um trabalho que incentiva o olhar para si mesmo. O equilíbrio vem também do fato do trabalho de desbloquear as tensões do corpo através de alongamentos e permitir que os espaços existentes nas articulações estejam bem colocados. Muitas vezes as tensões comprimem esses espaços e isso impede o fluxo de energia do movimento. Não digo energia no sentido psicodélico, mas no sentido físico, de ação e reação. Por exemplo, quando aprendemos a usar o apoio dos pés no chão, conseguimos transmitir essa força para o restante do corpo. Mas se ele estiver com bloqueios causados por tensões, essa força vai parar em algum ponto ou gerar um movimento deletério e isso poderá causar dores no joelho, na região lombar, dorsal, no ombro ou pescoço. Então, o princípio fundamental do trabalho corporal é aprender a usar o chão e a força da gravidade; com isso a pessoa trabalha melhor o equilíbrio. E um corpo livre de tensões é muito mais livre para se expressar e isso facilita a respiração.

JC - Em que sentido?

Cardarelli - Quando se aumenta a capacidade respiratória, se oxigena melhor o cérebro, que funciona melhor e traz uma sensação de bem-estar. Isso funciona para qualquer pessoa, não apenas para quem está ligada à expressão artística, mas no trabalho e no relacionamento interpessoal. Nós costumamos usar uma couraça no dia-a-dia: temos de ter uma certa forma de portar, de se movimentar e vamos incorporando isso de uma forma tão profunda que não nos damos conta que temos essas tensões. O trabalho é contínuo, porque vivemos em uma sociedade e tudo o que acontece no universo se reflete em cada célula do nosso corpo.

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