Piratininga - Longe do planalto central existe uma Brasília que poucos conhecem. Paulista de coração, o distrito pertence a Piratininga (13 quilômetros de Bauru) e representa o avesso da Capital Federal. Sem políticos, rampas e largas avenidas, a Brasília do Interior de São Paulo é pura tranqüilidade. Terra batida no lugar de asfalto e muito verde formam o cenário do distrito que carece de atenção e clama pela visita de um político que só comparece de quatro em quatro anos.
Problemas básicos como a falta de água e luz ainda existem na nossa Brasília e ao que tudo indica não vão ser resolvidos de imediato, já que a Prefeitura de Piratininga não destina verba específica para atender o povoado que possui cerca de 200 habitantes. No orçamento do próximo ano, não há previsão de gastos com o pequeno povoado, informa o tesoureiro da prefeitura, Sérgio Fortunato. “Dificilmente se aplica alguma verba em Brasília Paulista”.
A população simples não exige grandes obras, mas precisa do básico para continuar vivendo. Paulina Kempner, 74 anos, por exemplo, sonha com a água jorrando pela torneira. Só assim ela conseguiria molhar sua horta, lavar sua roupa sem ter de carregar as pesadas vasilhas por cerca de 100 metros.
Descendente de alemães, Paulina mora há cinco anos no distrito. Ela conta que está sofrendo na própria pele o descaso da prefeitura. “Eu fiz uma cirurgia para implantação de um marcapasso. De tanto carregar peso, ele saiu do lugar e vou ter de fazer outra operação. Só vou para o hospital quando tiver água encanada porque não resolve operar e carregar peso”, reclama.
Apesar disso, para ela, a Brasília Paulista é muito melhor do que a Capital do Brasil. “Aqui é mais tranqüilo e os políticos só comparecem de quatro em quatro anos para pedir voto. O atual prefeito prometeu abrir ruas e trazer água e energia para quem mora na parte superior. Só começou o serviço e parou. Acha que vamos acreditar em políticos?”, questiona.
Lugar que não tem político não tem mensalão e nem mesmo ladrão. Este é o raciocínio que faz a moradora de Brasília Paulista, Rita Maria de Azevedo. Para ela, a Capital Federal é sinônimo de vergonha. “São tantas as denúncias de corrupção que os brasileiros honestos se sentem envergonhados”, comenta.
Ela reclama da falta de energia elétrica que a possibilite ligar a TV, o ferro de passar, o tanquinho e o chuveiro. “Tive que puxar energia elétrica de um vizinho. Estou pagando um absurdo por mês. Além, é claro, de ter que tomar banho de canequinha. O chuveiro consome muita energia e não pode ser ligado”, reclama
A energia elétrica vem sendo reivindicada pelos moradores há tempos. “Há três anos estamos lutando com a Prefeitura de Piratininga para conseguir energia elétrica, mas eles não concluem o trabalho e nós estamos sofrendo por isso.”
Sem grifes
As consumistas vorazes não têm vez em Brasília Paulista. Sem shopping e lojas, o distrito carece de casas comerciais. Há dois bares que vendem bebidas e pequenas mercadorias. As compras, inclusive as básicas, têm que ser feitas em Bauru e Piratininga.
O chique da história é que as compras têm data e horário marcado. “Na sexta-feira o ônibus vem buscar os moradores às 8h e volta no fim da tarde. Neste período, temos que fazer as compras”, diz a moradora Catarina de Almeida de 56 anos.
Para ela, não ter uma farmácia é muito difícil. “Moro aqui há 23 anos e a situação não muda. Se preciso de remédio, tenho que andar quatro quilômetros até a rodovia para embarcar em um ônibus ou esperar o final de semana para buscar. Outra alternativa é pedir para um vizinho que tem carro.”
Caso a doença seja grave, a opção é acionar a ambulância da prefeitura. “Já me candidatei a vereadora pelo distrito, mas não consegui me eleger. Políticos aqui, só na época de eleição.”
Para ela, não há comparação entre a Capital do Brasil e a Brasília Paulista. “Aqui nós não nos preocupamos com roubos e dinheiro de campanha eleitoral porque não temos políticos.”
Para o morador Eliazar Quintana, o distrito de Brasília Paulista está esquecido por todos. “Aqui não tem nada, nem serviço”, reclama. Nascido e criado naquela região, ele não se conforma do descaso com o distrito. “Quando chove ninguém entra nem sai. Ficamos ilhados: não tem asfalto e a estrada é muito ruim”, relata.
Nessas ocasiões só um trator resolve, alega o morador. “Em época de chuva tem que ter trator na estrada para puxar os carros. Os políticos nem aparecem aqui para ver o que acontece. Eles comparecem em ano eleitoral, após a eleição esquecem da gente”, desabafa.
Na opinião de Quintana o distrito deveria ter mais empregos. “Nossos jovens estão indo trabalhar em fábricas de sapato em Jaú. Aqui não tem serviço nem para jovem nem para velho.”
Da mesma opinião é o morador José Silvério. “Aqui não tem emprego e os políticos oferecem abrir ruas e fazer loteamentos. Nós não queremos perder o sossego, queremos trabalhar.”
Enquanto na Capital Federal falta estacionamento, em Brasília Paulista ainda é possível deixar o cavalo amarrado na porta do bar. “É muito sossegado. Não queremos tanto progresso, nem cidade planejada com grandes avenidas, sonhamos com empregos e uma linha de ônibus que possa transportar os moradores para Piratininga e Bauru,” diz o morador Antônio Maria Ferreira Delgado de 69 anos.
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Não estou sabendo
Mesmo com o avalanche de denúncias de corrupção, cassações e demais itens da tormenta que passa pela Capital Federal, há pessoas que ainda não tomaram conhecimento dos fatos amplamente divulgados.
A comerciante de Brasília Paulista, Adriana de Souza Herrera, por exemplo, diz que já ouviu falar de mensalão, mas não sabe bem do que se trata. “Ouvi que eles tinham roubado dinheiro, mas não acompanho as notícias, vivo fora do mundo”, confessa.
Ela não se preocupa com o que está acontecendo no Distrito Federal e na hora de votar, ela consulta alguém que está mais informado sobre o assunto. “Eu vejo quem esta mais a par da situação para poder votar.”